Por diana.dantas

O mercado de câmbio doméstico exagerou a tendência de baixa do dólar vinda do exterior ontem. A moeda caiu 1,13%, cotada a R$ 2,9217, e, na mínima do dia, chegou a testar os R$ 2,90. A explicação não pode ser buscada apenas no ingresso de capitais estrangeiros interessados nos altos lucros proporcionados pela renda fixa brasileira. Esse movimento antecipa sinalizações moderadas da reunião de política monetária de amanhã do Federal Reserve (Fed), mas, pelo menos ontem, não foi forte o suficiente para provocar o desabamento da cotação. A queda foi magnificada pelos investidores “vendidos” em derivativos cambiais negociados na BM&F. Os seus ganhos, ainda faltando três pregões para o encerramento do mês, já são expressivos em abril. No acumulado do mês até ontem, o dólar já desvalorizou-se 8,44%. Mas se puderem aumentar os seus rendimentos não se vexarão em armar estratégias baixistas.

Nesse vencimento de abril, a ser concluído na manhã da véspera do feriado, quando será formada a Ptax (taxa oficial de câmbio) de encerramento de mês, as tropas que se enfrentam nos pregões de cupom cambial (DDI) e dólar futuro são desproporcionais. Saltam aos olhos a debilidade dos “comprados” — fundos estrangeiros — e o vigor dos “vendidos”, os bancos nacionais e os fundos de investimentos locais. Estes, somados, detêm posição vendida líquida, que ganha quando o dólar cai, de US$ 40,39 bilhões. Já o capital de fora, interessado em hedge de suas posições em renda fixa, carrega um montante liquidamente comprado equivalente a US$ 35,28 bilhões. A munição extra de US$ 5,11 bilhões estocada no paiol dos “vendidos” torna este vencimento de abril uma batalha ganha de antemão. Além dos bancos e dos fundos nacionais, o maior “vendido” do mercado futuro, o Banco Central, com posição em swap cambial de US$ 112,8 bilhões, embora não faça nada para derrubar o dólar, tem muito a lucrar com sua queda.

O potencial de conturbação do capital estrangeiro, em caso de grave crise internacional, não é negligenciável, mas nada que se compare a uma tempestade perfeita. Os investimentos externos — muitos dos quais oriundos de aplicadores brasileiros com recursos no exterior — representam 20,28% do total da dívida mobiliária federal, o correspondente a US$ 161 bilhões, segundo nota divulgada ontem pelo Banco Central. A dívida externa federal alcança US$ 39,25 bilhões. Ou seja, se tudo o que está hoje aplicado financeiramente no Brasil for subitamente sacado iriam embora US$ 201,18 bilhões, o equivalente a 54,37% das reservas cambiais. O BC poderia satisfazer as necessidades dos investidores de fora e ainda sobrariam US$ 169 bilhões, o suficiente para bancar quase 10 meses de importações. Mas, para se concretizar essa hipótese extrema, a crise externa teria de ser tremenda. Não há no horizonte nem remoto qualquer vislumbre de uma hecatombe similar.

O dólar recua em função do persistente ingresso de capitais especulativos, principalmente direcionados ao mercado de ações. A taxa de câmbio se aprecia não porque a economia brasileira já se mostra mais musculosa ou como decorrência da percepção de que a política econômica austera do ministro Joaquim Levy será vitoriosa. O dólar cai a despeito das más notícias. A mais recente veio ontem do setor público. A arrecadação federal de março (R$ 94,112 bilhões, aquém dos R$ 94,65 bilhões esperados pelos analistas) sugere que o déficit do governo central irá passar dos R$ 27 bilhões, vindo de R$ 24,1 bilhões no acumulado de 12 meses terminados em fevereiro.

Resumindo: como a economia desacelera, como o trâmite das MPs do ajuste fiscal é letárgico no Congresso e como é muito difícil cortar despesas, a meta de superávit de 1,2% do PIB está em xeque. Tal perspectiva não abala em nada os capitais externos de curto prazo. Resta ganhar dinheiro no Brasil enquanto o Fed não subir o juro nos EUA, algo que deve acontecer no fim do ano, se não ficar para 2016.

As instituições que participam da pesquisa Focus do BC pouco alteraram na semana passada suas projeções para as principais variáveis macroeconômicas. A estimativa para o IPCA acumulada este ano subiu levemente de 8,23% para 8,25%, elevação incapaz de mudar a rota da política monetária traçada para o ano. Os economistas apostam que o Copom vai amanhã aumentar a Selic de 12,75% para 13,25%, mantendo o ritmo de alta das três últimas reuniões, e fará uma elevação derradeira no encontro seguinte, o de junho, mas será um passo menor, de 0,25 ponto, com o qual encerrará o longo ciclo contracionista. Na visão dos especialistas, a Selic ficará congelada em 13,50% até novembro, quando se iniciará um ciclo de afrouxamento, com corte inicial de 0,25 ponto. A variável que tem o poder de alterar esses prognósticos é a taxa de câmbio. Dada a acentuada e imprevisível volatilidade da moeda americana, os palpites são para constar: R$ 3,20 no final deste ano e R$ 3,30 em dezembro de 2016. No que se refere à credibilidade do BC, o mercado continua pagando para ver. Pela quarta semana consecutiva, sustentaram em 5,60% a projeção de IPCA acumulado no ano que vem, ou seja, apesar de o discurso desinflacionário do BC ter subido de tom nas duas últimas semanas, os analistas ainda não acreditam que conseguirá fechar 2016 com a inflação no centro de 4,5% da meta de inflação.

Consolidada a aposta de que o Copom não vai amanhã flexibilizar a rédea monetária, os juros futuros abandonaram ontem a sua independência em relação ao dólar e caíram com força no pregão da BM&F. Até a semana passada, subiam sem dar razão à queda da moeda americana. A taxa para a virada do ano cedeu de 13,58% para 13,49%. O contrato com vencimento em janeiro de 2017 tombou de 13,42% para 13,25%. A ponta onde estão alojados os investidores de fora, com liquidação em janeiro de 2021, caiu de 12,66% para 12,56%.

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