Por monica.lima

Os investidores e as empresas endividadas em moeda americana já assimilaram a retirada este mês de hedge cambial no valor de US$ 1,96 bilhão sinalizada pelo Banco Central e o dólar pôde ontem contra o real acompanhar a tendência internacional de enfraquecimento. A divulgação de um indicador positivo sobre o comportamento da indústria dos EUA em abril não conseguiu anular o desconforto trazido pela confirmação dos estragos que o fortalecimento do dólar vêm provocando na maior economia do mundo. Interrompendo sequência de quatro altas, durante as quais acumulou valorização de 5,44%, a moeda cedeu ontem 0,39% comparativamente ao real, cotada a R$ 3,0687, em linha com o padrão exibido frente às demais divisas emergentes. Os juros futuros recuaram na BM&F apesar das avarias inflacionárias produzidas pela depreciação cambial. Enquanto o dólar forte debilita os EUA, desencadeia repique de preços no atacado brasileiro.

O mercado global surpreendeu-se negativamente com os dados divulgados ontem sobre o desempenho da balança comercial americana. Em março, o déficit foi de US$ 51,4 bilhões. A valorização do dólar – de 3,2% no mês passado, de acordo com o Dollar Index, indicador que mede a variação da moeda frente a uma cesta das principais divisas – fez as exportações caírem 3,3%. O rombo comercial só não foi maior porque as importações cresceram apenas 0,9%. Isso não traz alívio: os artigos importados estão mais baratos, mas, como a retomada econômica não inspira confiança, o consumidor se retrai. O dólar fortaleceu-se nos últimos meses como consequência da visão de que os EUA eram um oásis de prosperidade em meio a um deserto de estagnação nos quatro cantos do mundo.

Nos últimos meses, os investidores globais passaram a adquirir a moeda, convertida depois em títulos do Tesouro americano, para escapar dos riscos derivados do baixo crescimento global e também para esperar pela alta dos juros americanos. Enquanto o dólar se robustecia, aumentava a competitividade do euro. E hoje o panorama é inverso: os EUA decaem, e a zona do euro se recupera. Os investidores já começaram a traçar a rota inversa. Para o Federal Reserve (Fed) conseguir detectar ambiente propício à sua tão sonhada “normalização das condições monetárias” será preciso antes que o dólar se enfraqueça. Esse movimento de rearranjo do mercado de câmbio global pode consumir o restante do ano. Apenas um “boom” econômico milagroso pode precipitar um aumento das “fed funds rates” nas reuniões de junho ou setembro do Fed.

Alguns incorrigíveis otimistas viram no ISM divulgado ontem a ponta da reversão da onda de dados decepcionantes sobre os EUA. O índice do setor de manufatura se expandiu de forma imprevista de 56,5 em março para 57,8 em abril, quando os analistas previam baixa para 56,3. Mas trata-se de um indicador que, isolado, não terá o poder de mudar as expectativas. Um dado que tem potencialmente esse dom será divulgado na sexta-feira. É o relatório oficial sobre o mercado de trabalho de abril. Ontem, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano avançou de 2,15% para 2,18% menos em função do ISM acima do esperado e mais como esperança de que o “payroll” possa apontar para uma restauração convincente de empregos.

Cada vez mais os mercados se convencem de que os EUA não são uma ilha da fantasia. Há enormes entraves ao crescimento que precisam ser superados também lá. E o vasto mundo para além das fronteiras americanas pouco ajuda. Estudo do departamento econômico do Bradesco, elaborado com dados de 24 países mais os que integram a eurolândia, mostra que o PMI-Global (índice de atividade indústria) registrou em abril a sua quinta queda consecutiva, baixando de 50,7 em março para 50,5 no mês passado. Qualquer índice acima de 50 indica expansão, mas como está em baixa contínua evidencia uma economia mundial subindo o morro com o freio de mão puxado.

Se um dólar muito forte não é desejável para os americanos, também para os brasileiros não deveria ser. O IBGE publicou ontem o seu Índice de Preços ao Produtor (IPP) relativo a março. Disparou 1,93%, vindo de uma alta modesta de 0,26% em fevereiro. Por que esse pulo? Em março, o dólar arrancou de R$ 2,8560 para R$ 3,1909, um salto de 11,73%, contaminando imediatamente os preços de produtos importados essenciais, como os fertilizantes e alimentos. São artigos que não respeitam muito as leis da oferta e da procura, aquelas passíveis de serem atacadas pela política monetária. Não se sabe ainda qual o tamanho da alta que vai chegar até o varejo, ou seja, não se conhece o poder da recessão magnificada pelas políticas fiscal e monetária contracionistas em inibir o repasse ao consumidor. O repasse pode ser atenuado pelo fato de que, após o soluço cambial de março, em abril o dólar desvalorizou-se 5,57%.

O BC persiste agindo de forma coerente com sua crença de que o pass-throught cambial não será desastroso. Tanto que já enviou ao mercado a dica de que não quer um dólar abaixo de R$ 3,00. Uma cotação entre R$ 3,00 e R$ 3,10 já está embutida nos cálculos econométricos que o autorizam a sustentar a certeza de que o IPCA se encaixará no centro de 4,5% da meta inflacionária no final de 2016. Foi por isso que diminuiu a oferta de swaps cambiais destinados a rolar os US$ 9,66 bilhões que vencem no começo de junho. O plano do BC parece ser o de ir aumentando mês a mês o tamanho do corte. Em maio, não renovará 20% do montante, percentual que poderá elevar-se em junho desde que não ocorram pressões externas capazes de puxar a moeda para além da faixa dos R$ 3,20. No último Relatório Trimestral de Inflação (RI), para um câmbio de R$ 3,10 e uma recessão de 0,5%, a inflação convergiria para 4,5%. Como a queda do PIB irá este ano ultrapassar a 1%, o dólar ainda tem um espaço de alta sem exercer influência nefasta sobre a política monetária.

Mas apenas os contratos de vencimento mais distante recuaram ontem no pregão de DI futuro da BM&F. A taxa para janeiro de 2017 refluiu de 13,55% para 13,51%. O contrato para a virada do ano persistiu nos mesmos 13,68% da véspera, ou seja, tesoureiros e gestores não abrem mão da Selic já precificada pelos contratos que vencem este ano. A aposta é de pelo menos mais uma alta de 0,50 ponto, na reunião do Copom de junho, com a taxa chegando a 13,75%. A ata do Copom que será publicada amanhã terá a missão de corrigir ou reformar esta visão.

Você pode gostar