Por diana.dantas

Em abril, 20 bancos centrais do mundo reuniram seus comitês de política monetária. Pesquisa do Itaú mostrou que 16 mantiveram suas taxas básicas de juros, três reduziram e apenas um promoveu alta. Esse solitário BC foi o brasileiro. No dia 29 do mês passado, ele aumentou a Selic de 12,75% para 13,25%. Ontem, publicou a ata dessa reunião. E informou que vai continuar subindo o juro. Não se sente nem um pouco desconfortável com o isolamento. Enquanto todo o resto ou mantém juros já bem baixos ou trata de afrouxar sua mordaça monetária para oxigenar suas economias e debelar a recessão, o nosso BC aperta ainda mais o garrote atado a um PIB que deve cair este ano mais de 1%. Quem está certo?

Após ler a ata de ontem, o mercado chegou à conclusão de que o Copom vai em sua próxima reunião, marcada para 3 de junho, subir de novo a Selic. Os economistas de instituições não sabem ainda se no mesmo compasso de 0,50 ponto das últimas quatro reuniões ou se reduzirá o ritmo para 0,25 ponto. Parte dos analistas acredita que, quando baixar a velocidade para 0,25 ponto, estará encerrando o longo ciclo de aperto monetário iniciado em abril de 2013. Outra porção sustenta que isso não acontecerá em junho. No próximo encontro, deverá avançar a Selic para 13,75% e só estancará a marcha em 29 de julho, aí sim com uma alta de 0,25 ponto. Há, portanto, três níveis de aposta para a Selic final: 13,50%, 13,75% e 14%.

Mas o pregão de juros futuros da BM&F não vacilou e pôs todas as fichas nos 14%. Depois das altas de ontem, a estrutura a termo dos juros passou a precificar duas altas, uma de 0,50 ponto em junho e outra de 0,25 em julho. O mercado não esperava ata tão impositivamente dura. E os contratos dispararam: a taxa para a virada do ano saltou de 13,70% para 13,79% e o contrato com vencimento em janeiro de 2017 pulou de 13,50% para 13,63%. A reação de surpresa pode ser aquilatada pelo recuo do contrato para janeiro de 2021, de 12,91% para 12,86%. O mercado se comportou estritamente dentro do figurino que se espera quando se está na presença de um BC amigável: o juro futuro longo cai como consequência da prática, no presente, de uma política monetária austera e responsável.

Apesar de o DI futuro já ter fechado questão na Selic de 14%, o BC deve cultivar uma dúvida saudável. Quem vai decidir mesmo entre aqueles três patamares de Selic serão os próximos dados sobre inflação, atividade e emprego. O Copom mostrou-se na ata de ontem “data dependent”. Da mesma forma que o Federal Reserve (Fed) tem certeza de que em algum ponto do futuro irá subir a taxa básica, o BC nutre a convicção de que em algum momento terá de parar de subir a sua. Nenhum dos dois sabe exatamente quando. A ata forneceu um parâmetro: quando o Copom tiver certeza de que os efeitos negativos do tarifaço estarão circunscritos a 2015, sem contaminar o IPCA de 2016, ele interrompe a alta. Vai continuar sacrificando a atividade econômica e imolando empregos enquanto não se tornar inquestionável para todo mundo a meta que, para ele, é uma questão de honra: trazer o IPCA para 4,5% no fim de 2016. Para tanto, se manterá “vigilante” e desenvolvendo os esforços necessários, por enquanto, tidos como “insuficientes”. “Vigilante” e “insuficiente” são as duas palavras-chaves – ou “guidance” de política monetária – que indicam o prosseguimento do aperto.

Poderia ser de outra forma? O debate histórico sobre as causas primárias da maior das distorções brasileiros – juros nominais e reais recordistas mundiais – nunca chegou a uma conclusão satisfatória. Há explicações para todos os 50 tons ideológicos: 1) Se o Tesouro não remunerar satisfatoriamente o dinheiro captado por meio da emissão de títulos públicos, não conseguirá financiar a dívida, gerando uma incontrolável espiral inflacionária. É por isso que o governo precisa gerar superávits primários capazes de abater dívida, reduzir endividamento e aumentar seu poder de barganha nos leilões primários;

2) O investidor precisa se sentir não só protegido contra a inflação, mas ter certeza de que deixar o dinheiro na Selic é a melhor maneira de multiplicar a riqueza. Caso contrário, comprará bens reais, como os imóveis. Foi só o BC aumentar o juro real de 2,5% em 2012 para os atuais 7% para murchar a bolha imobiliária.

3) O Brasil é altamente dependente de doses elevadas de juro. Todas as tentativas de retirada da droga malogram porque as convulsões do viciado ameaçam matar o organismo econômico. Empresas sofrem porque costumam lucrar mais com a receita financeira do que com a operacional. A categoria dos “rentistas-trabalhadores” saca recursos dos seus fundos de investimento e consome bens duráveis e imóveis, promovendo o descompasso entre demanda e oferta. E os grandes rentistas iniciam a caça de opções melhores mundo afora.

4) O juro é alto para que o país possa financiar seu déficit em conta corrente mesmo nos ciclos de expansão das commodities, já que a economia ainda é considerada excessivamente “fechada”. Quando as commodities estão valorizadas, a atração de capitais exige que o BC compre dólares e os esterilize por meio da emissão de títulos públicos, que só serão adquiridos se o juro for compensador. Com isso, gera uma despesa fiscal, cujo abatimento será feito por mais superávit ou por mais dívida.

5) O juro é alto porque a inflação é alta, e os sucessivos governos só sabem combatê-la por meio da política monetária, ao invés de políticas coordenadas abrangendo todas as áreas (custo tributário, custo de infraestrutura, taxa de câmbio, ampliação de oferta, ataque à inércia inflacionária).

No caso presente, o tom mais “hawkish” da ata publicada ontem, sem abrir mão de todo esse fardo monetário histórico, se explica de forma mais prosaica: sem apoio político e de amplas fatias da sociedade, fragilizado por escândalos de corrupção, o governo decidiu buscar aliança e proteção junto ao mercado (aqui no seu sentido mais amplo, incluindo os empresários). O caminho escolhido é o da ortodoxia fiscal e monetária no seu sentido mais puro para que não tenha de abrir mão de bandeiras essenciais ao projeto petista, como o regime de partilha do pré-sal e a exigência de conteúdo nacional. O ministro Joaquim Levy fará este ano um superávit primário de R$ 66 bilhões – não importando quanto isso represente do PIB – e o BC vai cumprir a meta de inflação de 4,5% em 2016. A Selic correta não será aquela capaz de trazer o IPCA para o alvo de 4,5%, mas a que granjear a boa vontade do mercado. Nem os analistas nem o BC estão muito dispostos a discutir seriamente a eficácia do instrumento monetário, muito menos políticas alternativas.

O dólar hesitou ontem em seguir a tendência externa de queda. Alternou altas e baixas ao longo do pregão e só se decidiu pelo declínio na hora final. Fechou cotado a R$ 3,0275, em desvalorização de 0,63%. Não poderia ser diferente: o juro básico continuará subindo, o que atrai contingente maior de investidores externos, com isso o dólar cai e eleva a rentabilidade desses aplicadores de fora, que, por isso, se sentem estimulados a aumentar suas aplicações no Brasil... Trata-se da roleta viciada do lucro fácil.

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