Dólar sobe muito por nada

O tom empregado pelo Copom em sua última ata já produziu resultados positivos; a narrativa bem mais “hawkish” conseguiu trazer para o lado do BC recalcitrantes e incrédulos

Por O Dia

Sem liquidez, o mercado de câmbio quis aparentar nervosismo ontem. A cotação disparou 2,31%, para R$ 3,0525. Os operadores tentaram elencar, sem convencer, algumas justificativas: baixa dos juros na China, ratificando a percepção de que as coisas não vão bem por lá; alta dos juros dos títulos longos do Tesouro americano; incertezas sobre a renegociação da dívida grega; depoimento do doleiro Alberto Yousseff à CPI da Petrobras implicando no esquema de propinas dois ministros (Gilberto Carvalho e Ideli Salvatti) do primeiro mandato de Dilma Rousseff; temor de recaída na crise política se o Senado rejeitar hoje a indicação de Luiz Fachin para o STF; e compras oportunistas de moeda por importadores seduzidos pela cotação abaixo de R$ 3,00.

Não há nenhuma novidade na maior parte dessas questões. Quando o mercado arrola dezenas de pretextos é porque tem a esperança de que algum deles poderá ser convincente. O único fato evidente por si mesmo foi a liquidez muito estreita — o giro com ativos cambiais na BM&F foi inferior a US$ 1 bilhão —, propícia a tacadas especulativas.

A demanda de importadores é sempre pontual e não costuma fazer preço, principalmente numa época como a atual, de recessão e consumo insatisfatório. As denúncias de Yousseff, todas sem provas, não são novas. Já tinha tentado antes, sem sucesso, emplacar a ideia de que o Palácio do Planalto tinha ciência da corrupção na estatal. A arrancada do rendimento da T-Note de 10 anos — de 2,15% do fechamento de sexta-feira para até 2,27% — é o efeito de um movimento de vendas de “treasuries” motivado mais pela volta do apetite global por ativos de risco do que pelo medo do retorno iminente de uma inflação nos EUA capaz de exigir pronta resposta monetária do Federal Reserve (Fed). Carece de comprovação a tese segundo a qual os rendimentos sobem como antecipação dos investidores a um repique inflacionário nos EUA a ser supostamente causado pela alta recente do petróleo e do minério de ferro. E a China está fazendo exatamente aquilo que dela se espera.

Os mercados emergentes reagiram ontem ao terceiro corte seguido das taxas de juros chinesas da forma classicamente doentia: depois que saem dados ruins sobre o desempenho da segunda economia do planeta, os investidores passam a operar de maneira otimista antecipando a inevitável adoção de medidas destinadas a ampliar o afrouxamento monetário e combater o desânimo, mas quando elas finalmente chegam, consumando a profecia, os mercados se deprimem. O raciocínio se transmuda em puro pessimismo: se o Banco do Povo da China fez isso é porque a economia está mais ruim do que se pensava. Mas, essencialmente, nada mudou muito por lá.

O crescimento deste ano, mesmo se o PIB conseguir se expandir 7% como prevê o governo, será o menor dos últimos 25 anos. A economia perde dinamismo por causa do excesso de endividamento, sobretudo dos governos locais, pelo esgotamento do sistema de crédito turbinado pelo “shadow banking”, pelo fim do barateamento da mão-de-obra forjado pela migração de trabalhadores do campo para a cidade e pela presença de bolhas especulativas no mercado de ações. A queda do juro básico – para 2,25% nos depósitos e 5,10% nos empréstimos – alivia esse quadro, mas não resolve. Até porque a inflação chinesa está muito baixa -- 1,5% ao ano no consumo. No atacado, a deflação já é crônica.

A acomodação dos preços até poderia autorizar cortes mais ousados de juros. Os investidores globais anseiam por medidas mais radicais capazes de sinalizar a interrupção do movimento de queda da PIB. Mas sabem que elas não virão. Os dirigentes chineses mexem muito suavemente na política econômica, pois têm consciência do tamanho das distorções. Uma alteração precipitada pode transformar um pouso de emergência controlado num desastre de grandes proporções. Devem persistir no caminho já escolhido, o da substituição do modelo exportador por outro ancorado agora na expansão do consumo interno. E essa troca leva tempo.

No mercado futuro de juros, o vazio da alta do dólar não foi retorquido. Os DIs subiram para reverberar o câmbio. Mesmo os contratos de vencimento mais distante subiram, quando deveriam, em queda, reconhecer a vitória do Banco Central na guerra das expectativas. A taxa para janeiro de 2017 avançou de 13,52% para 13,55%. O contrato com liquidação em janeiro de 2021 subiu de 12,68% para 12,78%.

O tom mais rude empregado pelo Copom em sua última ata já produziu resultados positivos. A narrativa bem mais “hawkish” que a esperada pelos analistas, sinalizando que o aperto monetário que já dura dois anos ainda não terminou, conseguiu trazer para o lado do BC economistas recalcitrantes e incrédulos. Fechado na tarde de sexta-feira, a pesquisa Focus divulgada ontem no site do BC mostrou uma atenuação das expectativas inflacionárias para o ano que vem. A projeção de IPCA para 2016, congelada teimosamente em 5,60% há cinco semanas, recuou para 5,51%.

Pouca coisa, mas já é um começo. Como os prognósticos do Focus são a mediana de um universo de 100 instituições, as alterações de uma semana para outra não costumam mesmo ser acentuadas. O mercado precisa encontrar um consenso antes de desenvolver nova rota. Mas qualquer baixa já serviria para mostrar que o BC conseguiu quebrar as resistências.

As instituições vinham olhando com indisfarçável ceticismo a promessa da autoridade de que o IPCA iria, graças aos esforços de uma política monetária vigilante e insatisfeita com os resultados já alcançados, convergir para o centro de 4,5% da meta de inflação no final de 2016. Ao reduzir sua estimativa, o mercado dá um voto de confiança ao BC. Mas para continuar merecendo a confiança, consolidando o rumo declinante da previsão, o Copom não pode, de novo, mudar de pensamento no meio do caminho. Ou seja, vai ter de entregar o que prometeu. Para o mercado futuro de juros da BM&F, o compromisso é incontroverso: pelo menos mais duas altas da Selic, uma de 0,50 ponto na próxima reunião do Copom (3 de junho) e outra de 0,25 ponto no seguinte (29 de julho). Se o Comitê fizer o combinado, a taxa básica subirá dos atuais 13,25% para 14%. É essa taxa a que está, por enquanto, precificada na curva dos DIs futuros. Por enquanto, porque as perspectivas podem se alterar dependendo da trajetória do dólar e do curso das negociações para aprovação do ajuste fiscal.

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