Por diana.dantas

Os US$ 179 milhões pagos por um colecionador anônimo pelo quadro "Les femmes d’Alger (version O)", de Picasso, em leilão realizado pela Christie’s na segunda-feira, provam que a grande farra da liquidez global está longe de terminar. A casa de Nova York avaliava a obra em US$ 140 milhões e especialistas em US$ 155 milhões. A liquidez injetada primeiramente pelo Federal Reserve (Fed), inchando seus ativos com um mico de US$ 4,5 trilhões, depois pelo Banco do Japão e agora pelo BCE, enche bolhas especulativas mundo afora. E, quando é excessiva, transborda para o mercado de arte, inflacionando preços. Todas serão furadas com estrépito quando os bancos centrais encerrarem o longo ciclo de políticas monetárias acomodatícias e iniciarem o movimento de alta das taxas de juros.

A corrida já começou? A venda do Picasso por preço equivalente a mais de meio bilhão de reais mostra que não. Mas não há gente mais desconfiada, arisca e medrosa que os grandes financistas globais. Ao menor sinal de perigo, acionam preventivamente os mecanismos de proteção de portfólios e patrimônios. O mercado que personifica à perfeição essa paranoia é o secundário de títulos do Tesouro americano. A taxa da T-Note de 10 anos bateu o fundo do poço recente no dia 27 de abril, a 1,91%. Dois dias depois aconteceu a última reunião de política monetária do Fed. Este dissipou os temores de uma alta da taxa básica de juros na reunião de junho. Pelo teor “dovish” do comunicado, considerou-se até remota a hipótese de o aperto iniciar-se em setembro. A economia dos EUA não está pujante, a inflação dormita e o emprego vacila a ponto de parte substancial do mercado aventar a possibilidade da alta só ocorrer em 2016.

Mas bastou o petróleo desgrudar-se das mínimas para os investidores passarem a vender “treasuries”, temendo efeitos inflacionários e reação tempestiva do Fed. A taxa de 10 anos fechou abril já acima de 2% e prosseguiu em maio em sua escalada. No dia 6 chegou a bater em 2,24%, mas perdeu ímpeto depois. Nesta semana, retomou a arrancada de forma assustadora. Na segunda-feira, fechou a 2,28% e ontem atingiu a máxima de 2,36%. Depois, voltou, baixando a 2,25% no fim da tarde. Quando os preços caem muito, sempre aparecem compradores, céticos em relação aos temores dos fundos “vendidos”. E o mercado se equilibra. Mas mesmo nos momentos de maior excitação altista, o mercado de “treasuries” não denuncia um movimento mais maciço de realocação global de carteiras. Ainda não, mas mostra que os profissionais do dinheiro grosso não tiram o dedo do gatilho.

Tal realocação afetaria gravemente a taxa de câmbio brasileira. O nervosismo das “treasuries” fez o câmbio colar nas oscilações do juro americano de 10 anos. Mais do que qualquer outro fator – fragilidade grega, desaceleração chinesa, ameaças ao ajuste fiscal interno —, é o receio de uma disparada da T-Note que move o dólar frente ao real. Uma alta consistente das taxas longas americanas provocará saída de capitais do país, seja para cobrir prejuízos resultantes do estouro de bolhas, seja para antecipar uma piora das condições macroeconômicas brasileiras. Ontem, bastou a T-Note descer de 2,36% para 2,25% para a moeda americana aprofundar sua queda. Fechou cotada a R$ 3,0195, em desvalorização de 1,08%. O BC não parece ter munição suficiente e de qualidade para lidar com uma nova escalada do dólar.

A corda monetária já está esticada ao máximo. Se um juro real de 7% não for capaz de seduzir o investidor de fora, outro de 10% daria conta do recado? Qual o preço recessivo que o BC está disposto a pagar? O comportamento do dólar depende da ferocidade da reprecificação de ativos mundo afora em função dos novos patamares dos “yields” dos bônus americanos. A despreocupação manifestada pelo BC com o estoque de US$ 113 bilhões em swaps cambais – não inquieta porque é um hedge perfeito para um terço das reservas internacionais – precisa ser melhor qualificada. O raciocínio tranquilizador é o de que o montante que o BC perde com a operação dos swaps ganha multiplicado por três nas reservas. Se o dólar sobe, a autoridade perde nos swaps e lucra nas reservas. Está correto. Mas o contraponto fiscal não é nada confortável.

Os prejuízos com swaps impactam negativamente o custo da dívida bruta, enquanto que o ganho nas reservas reduz a dívida líquida. Acontece que o mercado e, mais importante, as agências de rating só observam agora o comportamento da dívida bruta em relação ao PIB. A líquida é um mero dado de curiosidade estatística, não melhora a solvência do país. O BC conhece a limitação do seu arsenal. Por isso, neste exato instante, age com rigor para que a expectativa de inflação do mercado para 2016 esteja mais próxima possível dos 4,5% perseguidos por ele antes de setembro. Melhor dizendo, antes da reunião do Fed de setembro. Mas, dependendo do tamanho da realocação de portfólios e da magnitude da valorização do dólar, o esforço monetário poderá ter sido inútil.

A relevância das “treasuries” para dimensionar a oscilação da taxa de câmbio pode ser aferida pelo fato de que o dólar caiu ontem não obstante a constatação de que é muito grave a crise grega. Para pagar uma parcela de 750 milhões de euros de sua dívida de longo prazo com o FMI, a Grécia sacou recursos de uma conta emergencial aberta pelo próprio FMI ao país. Ou seja, para pagar o CDC, a Grécia usou o cheque especial. Ou o Syriza cede e faz as reformas conservadoras exigidas pelos credores ou não receberá a última parcela de 7,2 bilhões de euros da renegociação assinada em 2012. A escolha na verdade é entre permanecer na eurolândia, aceitando as condicionalidades, ou sair dela. Esta segunda via agrada aos alemães.

A queda do dólar não conseguiu comover o pregão de juros futuros da BM&F. Prevalece a certeza de que depois de parar de subir a Selic, provavelmente quando a taxa chegar a 14% em julho, o BC irá sustentá-la nesse patamar até que as expectativas inflacionárias estejam alinhadas com os 4,5% da meta. O DI curto até subiu um pouco. A taxa para a virada do ano avançou de 13,79% para 13,80%, enquanto que os contratos com vencimento em janeiro de 2017 e janeiro de 2021 permaneceram estáveis em 13,55% e 12,78%, respectivamente.

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