Por diana.dantas

O Copom subiu a Selic de 12,75% para 13,25% no dia 29 de abril e sinalizou que iria continuar subindo a taxa, possivelmente até atingir 14%. Na semana seguinte, a primeira de maio, US$ 3,192 bilhões saíram do país pela conta financeira da balança cambial, por onde transitam as aplicações estrangeiras em renda fixa e ações. Trata-se de uma fuga surpreendente e contraditória. Afinal, o Brasil se esforça para não perder a láurea, embora dificilmente ameaçada, de o maior pagador de juros reais do mundo.

Ainda bem que o Banco Central não aperta a política monetária com o objetivo específico de atrair capitais de investimentos, necessários para financiar o déficit em transações correntes. Ou será que doravante terá de fazer exatamente isso? A surpresa trazida pelos dados do fluxo cambial da semana passada, divulgados no início da tarde pelo BC, fez o dólar inverter a seta até então cadente, passar a afrontar o viés externo de queda e valorizar-se frente ao real. Fechou com alta de 0,63%, cotado a R$ 3,0385.

Nem os executivos do mercado de câmbio esperavam por um comportamento tão negativo da balança cambial nos primeiros dias do mês. A volatilidade do dólar durante o período não denunciou nenhuma anormalidade no fluxo, tanto é que, no acumulado de 4 a 8 de maio, a moeda cedeu 0,98%.
Mas o fato é que, depois do megassuperávit de US$ 13,1 bilhões registrado em abril, o fluxo contabilizou uma perda líquida de US$ 2,558 bilhões. Só não foi pior porque a conta comercial registrou um saldo de US$ 634 milhões. A saída não é numericamente expressiva, já que largamente compensada pelo superávit de US$ 15,312 bilhões no acumulado do ano até o dia 8. As entradas financeiras ainda superam as saídas em US$ 11,285 bilhões de janeiro até a última sexta-feira. Mas preocupa. Está nascendo uma nova tendência, uma nova direção para os investimentos estrangeiros de portfólio? Os títulos públicos brasileiros estão entrando no circuito mundial de operações de venda de bônus soberanos, fenômeno que já provocou altas acentuadas nas taxas de longo prazo dos EUA, da Alemanha e do Japão?

Os analistas ainda não têm uma explicação uníssona e cabal para o fenômeno para lá de intrigante. Nos EUA, a T-Note de 10 anos saltou de 1,91% no final de abril para patamares perto de 2,30%. O “bund” alemão de mesmo prazo saiu do fundo do poço de 0,07% em 17 de abril para os atuais 0,65%. E, de um mês para cá, o título similar do Japão saltou de 0,35% para 0,45%. A explicação mais em voga é de que os investidores globais vendem os papéis não por temerem a volta de um processo inflacionário nas economias desenvolvidas, mas porque a liquidez já não é, apesar do afrouxamento quantitativo do BCE, tão abundante quanto foi no tempo do QE3 americano. E precisam fazer dinheiro para cobrir posições ruinosas assumidas em mercados de risco. Ou a queda do preço dos bônus pode ser resultante apenas de manobras especulativas de superfundos “vendidos”, interessados em ampliar os “yields” dos papéis. Ou pode ser uma artimanha destinada a forçar o BCE a aumentar o volume mensal de compra de títulos, hoje de 60 bilhões de euros. Tem gente que aposta no sentido inverso. Como a eurolândia voltou a crescer – preliminar do PIB do primeiro trimestre divulgada ontem aponta uma expansão de 1% em relação ao mesmo período de 2014 --, o BCE pode reduzir sua oferta de dinheiro e os investidores já estão se antecipando a isso. Os analistas não sabem ao certo. E esta incerteza deixa todo mundo nervoso.

Um dado ruim divulgado ontem sobre a economia americana ameaçou furar essa onda de alta dos bônus soberanos. Só ameaçou. As vendas varejistas não cresceram em abril, quando o mercado apostava em alta de 0,2%. A frustração, que age para deslocar para um futuro mais remoto o momento da alta do juro básico do Federal Reserve (Fed), fez a “treasury” de 10 anos recuar, num primeiro momento, de 2,25% para 2,19%. Depois, apareceram resolutos os vendedores e o papel pulou para 2,29%, taxa que se manteve até o fechamento.

A China não colabora para a elucidação do enigma. O país continua divulgando indicadores aquém das expectativas. A produção industrial cresceu em abril, em termos anuais, 5,9%, abaixo dos 6% esperados. As vendas no varejo cresceram 10%, menos do que os 10,4% previstos. E os investimentos em ativos fixos desaceleraram de 13,5% em março para 12% em abril. Se dependesse apenas da China, a demanda por “treasuries” e assemelhados permaneceria aquecida.

O pregão de juros futuros da BM&F – o maior privado do país em volume de negócios – opera a retoque da onda de alta dos rendimentos soberanos. Os contratos sobem para manter alinhadas as taxas domésticas às internacionais. O BC não faz oficialmente aperto monetário para angariar simpatizantes na comunidade financeira internacional. Mas já fez muito isso num passado não muito distante. Como o canal do câmbio sempre foi o mais eficaz para difundir as decisões monetárias, inflação se combatia com apreciação cambial. Hoje, a prioridade é atacar o canal das expectativas, frequentemente entupido por preconceitos ideológicos. O BC se esforça atualmente por evitar que o dólar caia abaixo de R$ 3,00. A opção, correta, é equilibrar o balanço de pagamentos por meio de uma taxa de câmbio competitiva. Mas se o contexto atual junta discurso “hawkish” do Copom e alta dos mais importantes juros globais, não será o DI quem irá derrubar as taxas. O contrato para a virada do ano subiu de 13,80% para 13,81%.

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