Por diana.dantas

O mercado futuro de juros da BM&F operou ontem sob efeito da nova dinâmica das reuniões com economistas do mercado mantidas com o diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Awazu Pereira, ontem e anteontem. Diferentemente das anteriores, durante as quais os representantes do BC mais ouviam do que falavam, buscando subsídios do mercado à elaboração do Relatório Trimestral de Inflação (RI), desta vez o diretor foi bem mais proativo. Foi enfático ao repisar a determinação do BC em conduzir a inflação ao centro da meta de 4,5% ao final de 2016. Os analistas saíram do encontro com a certeza de que a Selic vai subir mais 0,50 ponto na reunião do Copom de 3 de junho, para 13,75%. Ao reforçar o objetivo, o BC mudou o desenho da curva futura de juros. 

O comportamento exibido ontem pelos contratos futuros de juros foi bem mais favorável ao BC: enquanto a taxa curta subiu, as longas declinaram. Tal assimetria significa o resgate da credibilidade da política monetária. Se o BC fizer tudo o que for possível para já no ano que vem enquadrar o IPCA na meta, poderá promover reduções mais acentuadas na Selic a partir de 2017. Esse raciocínio instalou duas rotas nos DIs: enquanto o contrato com vencimento na virada do ano subiu de 13,82% para 13,83%, as taxas para janeiro de 2017 e janeiro de 2021 recuaram, respectivamente, de 13,49% para 13,47% e de 12,61% para 12,57%.

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, notou que Awazu desenvolveu dinâmica mais “interativa” com os participantes. “Reiterou a meta no fim de 2016 e adotou certas expressões e ênfases originais: foco, determinação, perseverança, ajuste padrão, tanto fiscal quanto monetário, ajuste conforme a literatura. Finalmente, o clássico ‘dever de casa’. Difícil que a alta da Selic em junho não seja de 50 pontos”, comentou o economista.

A disposição monetária do BC atenuou a influência de alta sobre o dólar vinda de fora. Frente ao real, valorizou-se 0,76%, para R$ 3,0412, enquanto que o Dollar Index subia 1,23% no momento em que o câmbio encerrava suas atividades no Brasil. O mercado secundário de títulos do Tesouro americano saudou com entusiasmo ontem dois dados inesperadamente positivos vindos do setor imobiliário. Com eles, pode ter se iniciado a quebra do enigma indecifrável que juntava expansão da renda real do trabalhador e apatia do consumo. Até parecia que os EUA se encaminhavam para se encaixar no molde engessado da economia japonesa, caracterizada há décadas por retração da demanda e alta do volume poupado. Para o caso americano, a interconexão dos dois fatores poderia indicar uma falta de confiança de empresas e famílias na solidez do processo de retomada econômica cantada até o ano passado com ufanismo pelos agentes do mercado e governo.

O consumidor tinha mais dinheiro no bolso, mas, ao invés de lotar os shoppings, preferia acessar as opções de investimento. O raciocínio parece não estar valendo para o setor de “housing”, aquele mesmo que, por seu histórico dinamismo, permitiu o uso da imaginação fraudulenta que desencadeou a crise de 2008.

A quantidade de novas moradias cujas construções foram iniciadas em abril deu um salto de 20,2%, quando a previsão dos analistas era de um incremento já ótimo de 10,2%. Começaram a ser construídas 1,14 milhões de unidades, o patamar mais elevado desde novembro de 2007. Não se via uma disparada acima de 20% desde o distante fevereiro de 1991. Ratificando esse indicador, outro veio igualmente forte. As licenças legais para novas obras cresceram 10,1% no mês passado, ante estimativa dos especialistas de alta de 1,7%.

Esses dados ascenderam as esperanças de que a fraca evolução do PIB dos EUA no primeiro trimestre do ano, de 0,2% na primeira prévia, tenha sido o fundo do poço. As taxas do título de 10 anos do Tesouro saltaram de 2,24% para 2,29%. Só não subiram mais porque as boas novas do setor habitacional precisam ser ratificadas por indicadores gerais de atividade, emprego e inflação. Como está fora de cogitação a hipótese de alta da taxa básica americana — a “fed funds rate”, congelada perto de zero desde o fim de 2008 — já na próxima reunião do comitê de política monetária do Federal Reserve, marcada para 17 de junho —, pelo menos o mercado conseguiu reintroduzir a expectativa de uma elevação, mesmo que de 0,15 ponto, ainda este ano, ou na reunião de setembro ou na de dezembro.

O movimento de normalização das condições monetárias americanas terá de ser natural, imposto das ruas para as salas do Fed, não o contrário. O que os gestores globais mais debatem hoje é o inverso: o que fazer se o crescimento não deslanchar uma vez que tudo já foi feito? Como o mercado brasileiro em relação à acurácia do ajuste fiscal, o americano cultiva ceticismo em relação à eficiência das políticas ultra-acomodatícias já realizadas pelos bancos centrais. No caso do Fed, depois de injetar US$ 4,5 trilhões na economia e de segurar o juro básico perto de zero por seis anos e meio o máximo que colheu foi a promessa de um crescimento econômico perto de 2% este ano e sem gerar inflação.

Esse quadro de incertezas amplia a responsabilidade da ata da reunião de 29 de abril do Fomc que será divulgada hoje. Os analistas torcem para que o documento não se restrinja ao cenário do final do mês passado, bem mais promissor do que os números divulgados ao longo da primeira quinzena de maio. Embora a ata se refira ao que o Fed sabia apenas até o dia 29, alguma ginástica prospectiva já poderia incluir os dados mais recentes, menos auspiciosos. E, com isso, poderia ser fornecida uma sinalização mais consistente. Se o redator encontrar uma maneira elegante de incorporar os indicadores de atividade (mais débil) e de inflação (mais baixa), minimizando o discurso de que a economia fraqueja por culpa do clima adverso, irá impedir que o mercado tenha a sensação de estar diante de uma ata obsoleta — uma peça que só desperta curiosidade histórica, sem fins mercadistas.

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