Fuzilaria entre BC e mercado

Há hoje uma queda de braço entre a autoridade monetária e os economistas que trabalham em instituições financeiras. A primeira não quer derrubar o IPCA corrente, o que já está acontecendo

Por O Dia

A ata da reunião do Copom realizada na semana passada sai na quinta-feira, um dia depois de o IBGE divulgar o IPCA de maio. O índice vai desacelerar de 0,71% em abril para 0,55%, segundo a projeção do Focus. O que um fato tem a ver com o outro? Nada: enquanto a inflação desacelera seu ritmo de alta (a estimativa para junho é de 0,40%), o Banco Central eleva a taxa básica de juros. O BC não faz política monetária de olho na economia real. Pouco importa que o desemprego já seja de 8% ou que a produção industrial tenha desmoronado 7,6% em abril sobre o mesmo mês de 2014. O BC só tem um foco de interesse: as expectativas inflacionárias do mercado. Há hoje uma queda de braço entre a autoridade monetária e os economistas que trabalham em instituições financeiras. A primeira não quer derrubar o IPCA corrente, o que já está acontecendo. Age apenas para que as projeções de inflação para o ano que vem dos segundos caiam dos atuais 5,5% para o centro da meta, 4,5%.

No meio do tiroteio entre o BC e o mercado, a economia real — aquela que, da calçada, apenas assiste bovinamente o duelo — definha. Não é problema dos pistoleiros. O único objetivo da sanha obsessiva do BC é restaurar sua reputação: quer consignar na mesma carta de desculpas que escreverá no começo do ano que vem para justificar ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o estouro do teto de 6,5% da banda inflacionária — uma exigência legal do regime de metas, uma vez que, tudo indica, a meta central não será ajustada para um patamar mais confortável — a certeza salvadora, que o redime dos pecados pretéritos, de que em 2016 o alvo será atingido na mosca. Para que seja, precisa trazer para o seu lado os economistas das instituições do mercado. Eles também precisam acreditar na viabilidade da missão. Relutam porque os disparos do BC não lhe causam danos. Ao contrário, as perdas de receitas provocadas pelo desaquecimento econômico são largamente compensadas pelos ganhos de tesouraria.

A fuzilaria encontra-se num impasse: o BC sobe a Selic, o pregão de juros futuros da BM&F responde com novas altas do DI, enquanto os economistas protelam sua revisão para baixo das expectativas de IPCA para 2016.

A desculpa é que estão sempre à espera de um dado mais recente ou de um documento oficial mais conclusivo. Aguardam, agora, a ata de quinta-feira e depois vão ficar na espreita do Relatório Trimestral de Inflação (RI), que sairá em três semanas. Na sexta-feira, no primeiro pregão depois da decisão do Copom de aumentar a taxa básica de 13,25% para 13,75%, os DIs subiram generalizadamente. A taxa para a virada do ano passou de 13,99% para 14,07%. E o contrato para janeiro de 2017 avançou de 13,60% para 13,66%.

Economistas liberais consideram truísmo elementar, que dispensa a prova da verdade, a afirmação de que a atual contração da economia brasileira resulta das sandices desenvolvimentistas cometidas no primeiro mandato de Dilma Rousseff. O ajuste fiscal da Fazenda e a ultraortodoxa política monetária do BC estão restituindo a racionalidade às decisões governamentais. Não são as culpadas pela recessão, são a solução dos problemas que conduziram ao esfriamento. Os estímulos à demanda (desonerações tributárias, crédito subsidiado, redução artificial da taxa básica de juros, desvalorização forçada do real, cruzada contra o custo do crédito privado, intervenções setoriais, proteção à indústria nacional e congelamento de tarifas públicas) exacerbados a partir de 2011 estão na raiz do atual processo recessivo, pois minaram a confiança do empresariado. Foram medidas a favor dos empresários produtivos, mas estranhamente provocaram efeito oposto ao desejado.

De tanto repetirem as suas crenças na esperança de que se transformem em verdade inquestionável, os liberais invariavelmente chegam a uma conclusão tautológica: em algum momento do futuro, a austeridade irá infundir novo ânimo aos agentes produtivos, os investimentos voltarão e, de carona, o consumo. No ano que vem tudo vai ser diferente. Eles não admitem nem remotamente a hipótese de a contração gerar a perpetuação da incredulidade. Não se permitem colocar uma questão banal: qual empresário vai tomar financiamento a juros crescentes para tocar um novo projeto, se a demanda despenca e as expectativas de retorno são desencorajadoras? Quando acontecerá o ponto de mutação, o momento da virada milagrosa, aquele instante prodigioso em que o empresário abrirá mão de um juro real de 7% em suas aplicações financeiras de renda fixa e decidirá investir numa fábrica, num comércio ou num serviço?

Se esse empresário leu a nota emitida na quarta-feira pela classificadora americana Moody’s, pode ter concluído que não será em 2016. A instituição faz alertas graves. O juro alto amplia os níveis de endividamento, a arrecadação federal murcha e os cortes fiscais precisam se intensificar para anular os dois efeitos. Isso tudo enfraquece o perfil de crédito soberano. A agência considera improvável que o governo consiga obter superávit primário de 1,2% este ano e de 2% e 2016. O rating atribuído por ela ao país é “Baa”, com perspectiva negativa. Para bom entendedor, o recado é claro: se o plano Levy-Tombini fracassar, se não sofrer alterações que visem o restabelecimento rápido da rota do crescimento, o rating será cortado.

O plano de austeridade atual poderá se transformar num colossal equívoco por excesso de dosagem, o mesmo mal que fez naufragar as políticas desenvolvimentistas anteriores. É um fato óbvio que Levy precisa trocar o sinal das contas públicas, de um déficit primário para um superávit. A maneira mais eficiente para fazer isso é por meio do crescimento da arrecadação. E isso não tem nada a ver com aumento de tributação, mas com expansão do PIB. Não dá para fazer isso quando prevalece a ideia matriz de que só é possível atacar a inflação por meio de uma política recessiva. O BC tem certeza absoluta que a sua atual política monetária provocará recessão e desemprego. Mas nem ele nem o mercado sabem ao certo qual o resultado efetivo da contração sobre o ritmo da inflação. Na dúvida, a tentação do exagero da dose é irresistível às mentes liberais. Se for assim, a atual marcha à ré da economia só está começando.

Na sexta-feira, um caçador de recompensas estrangeiro se meteu no meio da refrega entre o BC e o mercado. Ele ameaça prolongar e tornar mais sangrento o embate. O relatório oficial sobre o mercado de trabalho americano em maio veio melhor do que previam os executivos. Foram adicionados à economia novos 280 mil empregos, quando o acréscimo esperado era de 226 mil. A taxa de desemprego subiu de 5,4% para 5,5% por um bom motivo: um número maior de trabalhadores afastados do mercado por desânimo e descrença em encontrar emprego, estão, revigorados, voltando a procurar uma colocação. O mercado secundário de títulos do Tesouro americano iniciou seriamente a precificação do risco de o juro básico do Federal Reserve (Fed) ser elevado na reunião de setembro. O rendimento da T-Note de 10 anos pulou de 2,31% para 2,44% em reação ao “payroll”. E o dólar disparou globalmente. Contra o real, chegou a bater em R$ 3,1836, mas fechou a R$ 3,1506, em alta de 0,51%.

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