Por diana.dantas

Os juros dispararam ontem no mercado futuro da BM&F. A taxa para a virada do ano subiu de 14,25% para 14,31%, e o contrato para janeiro de 2017 avançou de 13,88% para 14,05%. De tanto ler as “fontes palacianas” consultadas pelos jornais, a ficha do mercado finalmente caiu: a política de severa contração monetária do Banco Central não é do BC, mas do Palácio do Planalto. O Copom não está exagerando na dose de alta da Selic para, provando a sua autonomia, restaurar a credibilidade.

Extrapola porque não tem autonomia. Alguns analistas já começam a desconfiar de que a mega-austeridade atual denuncia uma pesada mão política. Tecnicamente, o aperto já passou do ponto. Se fosse de fato independente, o BC já teria suspendido o ciclo de alta. Não o faz porque há uma ordem de cima para mantê-lo.

Toda vez que a presidente Dilma Rousseff fala, agoniada, da inflação, o diagnóstico remonta àquele país dos surtos hiperinflacionários pré-1994. Nos corredores do Planalto, vaga uma assombração dos tempos anteriores ao Plano Real, um espírito maligno responsável por todas as desgraças atuais, da queda na aprovação popular ao governo à crise na base parlamentar de apoio. E que bastaria trazer o IPCA para 4,5% para o país voltar a crescer e o deputado Eduardo Cunha perder seu poder de influência. Não se é capaz de entender que a inflação resulta dos erros do passado e também das políticas elaboradas para saná-los. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo: para corrigir as contas públicas, a inflação é necessária. Não há que se combatê-la com esse rigor todo, caso contrário o ataque sabotará as correções. Mas quem não entende isso, o BC ou o Planalto? Quem manda no Copom?

O mercado não cansa de fazer advertências sobre as extravagâncias monetárias. Pela nona semana seguida, ele ajustou para cima suas projeções de IPCA acumulado este ano. Na edição de ontem do Focus, a estimativa avançou de 8,46% para 8,79%, mas ainda não bateu no teto: começa a se generalizar a expectativa de uma taxa bem próxima de 9%. A forte revisão feita na semana passada decorreu da surpresa negativa trazida pelo índice de inflação de maio. Mas, “contraditoriamente”, as cem instituições que alimentam o Focus de dados mantiveram em 14% sua projeção de Selic para o fim do ano e em 12% para dezembro de 2016. Elas ignoraram os novos alertas “hawkish” introduzidas na ata do Copom publicada na quinta-feira. O documento sinalizou que o Copom está motivado a fazer nova elevação da taxa básica no ritmo atual de 0,50 ponto. A Selic subiria a 14,25% já em julho. E como o Comitê não gosta de encerrar ciclos de aperto com a mesma velocidade utilizada em cruzeiro, tendendo a desacelerá-la num típico procedimento de descida, estaria contratando previamente um aumento final em setembro de 0,25 ponto. Ou seja, no mínimo, a Selic de encerramento do ano seria 14,5%. Então por que o Focus manteve a taxa em 14%?

Há duas explicações. A primeira, menos cotada, é técnica. O BC divulgou a ata na quinta-feira e, apesar da coleta de projeções ser diária, as instituições não tiveram tempo para atualizar suas estimativas de Selic. O ajuste para a taxa de 14,5% sinalizada pelo BC só será consignado no Focus que sairá na segunda-feira, 22. A segunda resulta da prevalência da ideia de que o BC está indo longe demais. Ao subir a projeção de IPCA e, ao mesmo tempo, manter a da Selic, o mercado estaria mandando um recado à autoridade monetária — o de que ela não precisa exagerar na dose do aperto se a preocupação for a reconquista da credibilidade. A questão não é mais salvar ou não uma reputação arranhada ao longo dos anos. Um BC não seria digno de confiança se, para lograr a obtenção da meta de 4,5% no ano que vem, puxasse a Selic para 17%, provocando recessão e crise social brutais. Seria um BC crível gerindo um cemitério.

O mercado resiste em elevar seu prognóstico de Selic também porque ainda não abandonou a hipótese de que o discurso pesadamente linha-dura não é para valer. O BC não fará “tudo o que for preciso” para conseguir um IPCA acumulado em 2016 de 4,5%. A confissão foi feita veladamente pelo diretor de Assuntos Internacionais, Tony Volpon. Se o BC já tivesse suavizado a gravidade do seu tom, a expectativa de IPCA para o ano que vem não estaria, como está, congelada em 5,5% há quatro semanas. Já teria subido. O que impede a alta da inflação esperada para 2016 é justamente a teimosia do BC em garantir que está perseverantemente determinado a chegar a 4,5% no curto prazo. Na verdade, o mercado sabe que se a inflação conseguir acomodar-se em 5,5% no ano que vem, depois de ter fechado perto de 9% este ano, já era um feito a ser efusivamente festejado na larga mesa de reuniões do Copom. De sua parte, o BC sabe que se afrouxar o discurso, a meta de 4,5% — de fato perseguida para 2017 — ficará para o último ano do segundo mandato de Dilma Rousseff. Aí vai ser mais difícil, em face das exigências de elevação de gastos públicos impostas pelo imperativo eleitoral. BC e mercado se entretêm num jogo de faz-de-conta: o BC finge que o alvo de 4,5% em 2016 é para valer e o mercado finge que acredita na sinceridade dele, mas sabe que o objetivo só pode ser alcançado, na melhor das hipóteses, em 2017.

BC e mercado sabem que a Selic não pode ir além de 14,50%. Mesmo nesse patamar, sinalizado pela última ata do Copom, a taxa já passou das fronteiras conhecidas. Se o céu for o limite para o BC, a meta de superávit primário terá de ser continuamente revista para baixo. O tombo da arrecadação federal torna impraticável o cumprimento do compromisso de 1,2%. Se a política monetária se mantiver inflexível, a arrecadação cairá ainda mais. As duas coisas juntas provocam a elevação da dívida bruta em relação ao PIB. Recessão e dívida bruta alta resultam em rebaixamento do rating brasileiro. Nessa hipótese, surgiria a ameaça de uma crise cambial. Ou seja, a exacerbação de uma política monetária destinada a amenizar os efeitos inflacionários de uma correta política de ajuste das tarifas públicas, será capaz de agregar a mais mortal de todas as crises ao já extenso rol delas.

A prioridade à inflação impede o ajustamento da taxa de câmbio. O BC está de novo — vício histórico desinflacionário — promovendo a apreciação do câmbio. O ajuste requer um dólar hoje acima de R$ 3,50. O BC não deixa por causa do inimigo n° 1. Ontem, no mercado doméstico, só no fim da tarde o dólar concordou em obedecer à tendência global de alta. Caiu durante a maior parte do dia por causa da expectativa de Selic mais elevada no futuro. E fechou em valorização de 0,30%, cotado a R$ 3,1273. No mundo todo, o dólar subiu durante toda a sessão por causa de uma fuga de ativos para os títulos do Tesouro americano. Os investidores temem as consequências do virtual calote grego e do rompimento dos laços monetários com os demais países da eurolândia. E se refugiam na dupla dólar-treasury.

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