Por diana.dantas

 o resultado recente do monetarismo radical do Banco Central? Do final de abril até o começo de junho, elevou a Selic em um ponto percentual, de 12,75% para 13,75%. Com esta ação, ampliou em R$ 30 bilhões o custo de carregamento da dívida pública, tornando mais árdua a tarefa da Fazenda de fazer um ajuste fiscal equivalente a 1,2% do PIB. Para quê? Se o objetivo era rebaixar as projeções do mercado para o IPCA do ano que vem, o BC fracassou. A estimativas se mantém em 5,5% há quatro semanas, um ponto acima do alvo ao qual a autoridade quer conduzir, no cabresto, os analistas. Se o objetivo era atrair mais capital estrangeiro e usar o câmbio como âncora inflacionária, também fracassou. Do começo de maio até sexta-feira passada, as saídas de dólares da economia superaram as entradas em US$ 2,73 bilhões.

Trata-se de um buraco aberto na balança cambial devido principalmente às remessas de capital estrangeiro de investimento financeiro. Parece que o investidor externo não se deixa mais seduzir pelo canto da Selic. Não basta mais pagar a maior taxa real de juros do mundo. Se o país não cresce, se a política monetária não deixa a política fiscal reduzir a dívida bruta, o país se torna arriscado demais. Como sempre, o alerta de agências de rating de que a situação se encaminha para um inevitável “downgrade” foi precedido por uma fuga de capital. As classificadoras de risco apenas sancionam movimentos de mercado.

Abaixo de R$ 3,10, a cotação do dólar não reflete o movimento de entrada e saída de capitais estrangeiros de investimento por causa da especulação com o “day trade”. O fluxo cambial foi negativo em US$ 1,03 bilhão na semana passada, graças, sobretudo, às remessas de capital no valor de US$ 614 milhões. No período precedente, relativo à primeira semana de junho, o resultado só foi positivo em US$ 382 milhões porque o superávit na conta comercial neutralizou o déficit financeiro. No acumulado do mês até o dia 12, a balança cambial contabiliza um rombo de US$ 647 milhões, depois de amargar uma perda de US$ 2,08 bilhões em maio. O preço do dólar está, portanto, fora do lugar.

O BC, ao invés de admitir que foi longe demais e “realizar” o seu fracasso, está disposto a dobrar a aposta. De radical, o seu monetarismo já assume características suicidas. O diretor de Assuntos Internacionais do BC, Tony Volpon, além da reiteração habitual da trilha ascendente da Selic, vez outra ameaça, esta nova: quando for estabilizada no patamar que tiver de chegar para forçar as expectativas de IPCA a se acomodarem em 4,5% no fim de 2016, a taxa básica permanecerá por um longo período nesse degrau elevado. Trata-se de um convite para o Focus rever para cima o seu prognóstico de Selic a 12% em dezembro do ano que vem. Recado do diretor: juro alto pouco é bobagem.

O léxico ultraliberal de Volpon permitiu o nascimento de um raciocínio monstruoso entre operadores posicionados na ponta pós-fixada dos contratos futuros de juros da BM&F: o BC precisa manter-se “perseverante e determinado” na escalada da Selic porque não pode mais, no seu embate sem trégua contra as expectativas negativas, contar com o auxílio fiscal. Naufragado pelas tormentas políticas, o ajuste fiscal não pode ajudar a conter a demanda, impondo ao BC todo o trabalho sujo. A lógica altista, como sempre, está invertida. Quem amarrou um bloco de cimento à perna fiscal foi a abusiva alta do juro. É a política monetária quem soterra a arrecadação federal. Não adianta a Fazenda, aos trancos e barrancos, cortar gastos e elevar impostos, pois a velocidade de queda da arrecadação é maior. E quanto mais o BC fizer o seu trabalho sujo, mais dejetos fiscais irão se acumular.

Antes da divulgação, às 15 horas, das decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve, as taxas dos DIs estavam com viés de alta por causa das declarações de Volpon e das hipóteses deformadas que suscitou. O contrato com vencimento em janeiro de 2017, que antes do Fed havia subido de 13,96% para 14,07%, caiu depois da reunião e fechou a 13,93% como resultado do discurso “dovish” da autoridade americana. O dólar aprofundou a sua queda e fechou em baixa de 1,21%, cotado a R$ 3,0579.

Apesar de o Fomc ter ratificado o alerta da presidente Janet Yellen de que a taxa básica de juros (a FFR) irá subir este ano, tanto o comunicado da reunião quanto as projeções dos membros do Comitê sugeriram um processo bem calmo e moderado de normalização monetária. O pendor “dovish” ficou patente nas novas projeções dos votantes. A mediana das previsões sobre a taxa de juros para o ano que vem recuou de 1,875% na reunião de março do Fomc para 1,625% agora. Para 2017, a projeção cedeu de 3,125% para 2,875%. Os juros não precisam subir muito porque o desempenho da economia será mais modesto. O Fomc reduziu a expectativa de crescimento do PIB este ano da faixa de 2,3% a 2,7% para o intervalo entre 1,8% e 2%. A FFR não precisa avançar muito porque a inflação (medida pelo Fed pela variação do PCE, o índice de preços dos gastos com consumo pessoal) ficará entre 1,3% e 1,4% quando considerado o seu núcleo, abaixo, portanto, da meta de 2%.

“Aparentemente, o Fomc vai conseguindo criar o clima para elevar a taxa de juros de modo lento e gradual, sem causar grandes traumas”, comentou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Se o Fed obtiver êxito em sua empreitada de conduzir o mercado de forma ordenada e pacífica em meio ao ajustamento da FFR, impedindo a disparada dos juros de longo prazo dos títulos do Tesouro americano, os investidores só encontrarão nas incertezas europeias motivos para inquietações e fuga dos ativos de risco. Antes do Fed, a taxa da T-Note de 10 anos chegou a subir de 2,31% para 2,39%, mas no final da tarde voltou ao patamar do fechamento anterior.
Como uma política monetária austera não é exercida apenas por meio das decisões do Copom – os discursos dos diretores do BC muitas vezes visam puxar para cima os DIs futuros, pois estes são os reais formadores do custo primário do dinheiro – pode-se dizer que ontem Janet Yellen avinagrou o champanhe de Volpon.

Você pode gostar