Por diana.dantas

Sossegados, os mercados de câmbio e juros mostraram-se ontem insensíveis ao noticiário econômico e político adverso ao governo Dilma Rousseff. As informações segundo as quais não restará outra saída ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a não ser a revisão para baixo de sua meta de superávit fiscal equivalente a 1,2% do PIB, apenas ratificaram uma impressão já disseminada nas mesas de operações. Se o ministro conseguir uma economia de 0,6% já era de bom tamanho. E a possibilidade de a presidente ser enquadrada em crime de responsabilidade em função das irregularidades apontadas pelo TCU não faz preço no mercado porque se trata de matéria jurídica e política controversa e questionável. Câmbio e juros só se preocuparam ontem com a descompressão global advinda do posicionamento ao mesmo tempo sereno e dúctil do Federal Reserve (Fed). As visões apocalípticas associadas a alta do juro básico americano dissipam-se rapidamente.

<MC0>Pelo relato dos corretores, o fluxo de capitais estrangeiros de portfólio começa a soprar a favor do Brasil depois das volumosas saídas ocorridas de meados de maio até a última sexta-feira. O grande capital financeiro global está perdendo o medo de o Fed conduzir canhestramente a transição do período de sete anos de ampla liquidez e juro zero para outro que será caracterizado por taxa básica mais alta e alguma retirada de dinheiro do mercado por meio da revenda dos títulos que hoje entopem o balanço da autoridade monetária americana. Janet Yellen e os seus pares no Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) são profissionais cuja credibilidade não está em discussão. Os investidores acreditam que farão a coisa certa e apenas no momento oportuno, nem antes nem depois.

Os mercados chegaram a algumas conclusões tranquilizadoras ao término da reunião de junho do Fomc. “Se” a economia melhorar, a “fed fund rate” (FFR) vai subir em setembro e dezembro ao ritmo de 0,25 ponto. Pode encerrar 2015 em 0,75%, uma taxa anual ainda negativa (o núcleo do CPI roda a 1,7%). O certo é que não passará de 1% este ano. “Se” a economia não melhorar a ponto de sugerir no horizonte do Fed o preenchimento das duas pré-condições essenciais — pleno emprego e inflação de 2% —, a FFR subirá apenas 0,25 ponto em dezembro, fechando o ano a 0,50%. E “se” a expectativa de retomada não se confirmar, não haverá elevação de juro este ano.

Para regozijo dos financistas adeptos dos ativos de risco, mesmo na presença do melhor dos mundos, a FFR não chegará a 1% nos próximos seis meses. Há tempo à beça para se ganhar dinheiro grosso e fácil no Brasil – um país abstruso que, em meio a uma contração econômica de 2%, e cujo maior problema é sua imensa dívida pública, não para de subir sua taxa de juros. E como o rebaixamento desse país a grau “junk”, considerado hoje altamente provável, embora ainda não inevitável, não virá nos próximos seis meses, há tempo de sobra para se armar operações especulativas envolvendo o real e os títulos públicos do governo.

O encantamento dos investidores com a postura “dovish” do Fed sancionou certa negligência no trato da questão grega. De manhã, o rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano recuou de 2,32% para 2,26% porque surgiram indicadores chancelando o cenário médio do Fed, aquele que contempla apenas uma alta de 0,25 ponto até o fim do ano. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI) subiu 0,4% em maio, ante previsão dos analistas de alta de 0,5%. Também o núcleo do indicador, ao avançar 0,1%, ficou aquém da expectativa de 0,2%. E as solicitações semanais de auxílio-desemprego cederam de 279 mil para 267 mil na semana passada quando se espera por uma redução menos acentuada, para 277 mil. Mas, à tarde, novo endurecimento do FMI — se não receber do governo grego o pagamento de 1,6 bilhão de euros até o dia 30, em 10 de julho irá declarar a falência do país — fez a taxa da T-Note de 10 anos avançar a 2,33%.

O dólar atrelou-se ao movimento internacional de baixa e nem notou a decisão do Banco Central de reduzir ainda mais a oferta de swaps cambiais destinados a rolar os que irão vencer no dia 1°. Foi a segunda correção em menos de uma semana. O BC iniciou junho disposto a renovar 80% dos US$ 8,742 bilhões que irão vencer em julho. Depois, diminuiu a oferta de swaps de 7 mil contratos por dia para 6,3 mil, indicando disposição de rolagem de 75%. E ontem ofereceu apenas 5,2 mil títulos, quantidade que, se mantida até o fim do mês, possibilitará a renovação de 70% do lote. Nessa hipótese, levará ao vencimento US$ 2,64 bilhões, retirando hedge cambial na mesma proporção. O BC quer evitar que o dólar cai abaixo de R$ 3,00. Na mínima do dia, a moeda chegou a ser cotada a R$ 3,0390. Fechou a R$ 3,0588, praticamente estável (a alta foi de apenas 0,03%). Trata-se de um objetivo pouco ambicioso. O BC deveria aproveitar a distensão pós-Fomc para reduzir agressivamente a oferta de swaps e, com isso, reduzir o estoque desses papéis, cujos efeitos fiscais são nocivos.

O pregão de juros futuros da BM&F tentou seguir a tendência do dólar. Mas relutava em cair quando a moeda americana aprofundava a desvalorização. Ainda ecoa na cabeça dos tesoureiros as advertências pesadamente monetaristas do BC. Em princípio, o mercado não crê nos comentários de que o governo poderá suavizar e posteriormente prolongar o ajuste fiscal para evitar uma queda excessiva da arrecadação tributária. Por decorrência lógica, para adequação a essa estratégia mais gradualista, seria pedido ao BC comedimento nos próximos passos monetários. O DI fingiu que não era com ele: a taxa para a virada do ano subiu de 14,23% para 14,24% e o contrato para janeiro de 2017 avançou de 13,93% para 13,98%.


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