O BC vai sair da arapuca?

O juro real absurdo mina o ajuste fiscal. É essa a cilada na qual o BC se enredou. O desarmedo gatilho precisa ser feito o mais rapidamente possível

Por O Dia

Os juros caíram ontem no mercado futuro da BM&F porque os analistas esperam para hoje o desmonte da arapuca monetária em que o Banco Central voluntariamente se meteu. O BC exagerou não só na dosagem do aperto monetário como subiu demais o tom de suas ameaças. A bravata consiste na garantia de que só irá parar de elevar a Selic no dia em que as expectativas inflacionárias do mercado consignarem como certeza consumada IPCA de 4,5% no final de 2016. O mercado não se cansa de responder: nem que a vaca tussa o BC conseguirá uma desinflação desse tamanho em tão curto espaço de tempo. O mercado espera que o BC encontre uma forma honrosa de escapar dessa armadilha no Relatório Trimestral de Inflação (RI) que será divulgado hoje cedo.

Os analistas torcem para que o BC encontre uma maneira tecnicamente crível e fundamentada para, alterando o seu ponto de vista, assegurar ao mercado que, à luz dos fatos mais recentes (ou seja, considerando informações de desabamento da atividade econômica às quais ele não tinha acesso até então), o ciclo de aumento da Selic já realizado — uma cacetada de 6,5 pontos desde abril de 2013 —, já se mostra capaz (seria bom evitar a palavra “suficiente”, um dos “guidances” do Copom) de promover a convergência da inflação à meta no horizonte da política monetária. Há nessa torcida do mercado dois problemas.

O primeiro é que a redação precisa agregar variáveis novas que permitam revisar o cenário monetário prospectivo sem perda de credibilidade. O BC não pode dizer simplesmente que exorbitou em seu terrorismo monetarista. Mas não se sabe o que arranha mais a reputação de uma autoridade monetária: se o excesso de leniência anterior ou se a exacerbação do rigor agora. Nos dois casos, a credibilidade sai chamuscada. Não será absurdo levar o argumento às suas últimas consequências e ponderar que, se num ato de contrição, o BC admite que a persistência na meta cega de 4,5% é inaplicável e recua, estará agindo nesse momento para salvaguardar a confiança, pois estará fazendo exatamente aquilo que o mercado recomenda. O segundo é que, se o BC alongar o horizonte de perseguição da meta, estendendo-o para o tempo normal de eficácia da política monetária — dois anos — impedirá que, amanhã, o Conselho Monetário Nacional (CMN) decida em favor da redução da meta inflacionária para 2017. O assunto não está oficialmente na pauta, mas o CMN deixou vazar, à guisa de sondagem de opiniões, que estudaria baixar de 4,5% para 4,25% a meta de 2017. Se a meta for ajustada para baixo, o BC não poderá adocicar o seu discurso de ferocidade monetária, pois o Focus está prevendo para 2017 IPCA de 4,6%. Se o Copom tiver de ir atrás de uma inflação de 4,25% em 2017, terá de obter 4,5% no ano que vem. Volta-se, portanto, à estaca zero de hoje.

E o impasse continuará. Ele consiste no seguinte: as vozes mais sisudas do santuário neoliberal alertam que, no ambiente atual de dominância fiscal, a deliberada política de elevação do juro real provoca a expansão da dívida pública não só porque aumenta o custo do serviço da dívida, mas também porque diminui a receita fiscal ao exacerbar a retração econômica desencadeada primariamente pelas medidas de ajustamento fiscal, como o corte de subsídios, a redução das desonerações e o aumento de impostos. O juro real absurdo mina o ajuste fiscal. É essa a cilada na qual o BC se enredou. O desarme do gatilho precisa ser feito o mais rapidamente possível.

Hoje é um bom dia para isso. Como ontem o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, evitou anunciar uma meta mais baixa de superávit primário, o BC pode hoje tomar a iniciativa de sinalizar um cenário menos nefasto. O mercado acha que, mais cedo ou mais tarde, Levy terá de tornar o alvo fiscal mais exequível. Meta factível seria algo entre 0,6% e, no máximo, 0,8%. Não há como economizar R$ 66 bilhões se a arrecadação não para de murchar. Um ajuste fiscal bem feito só é possível mediante um choque de credibilidade, que inclua corte drástico de despesas correntes, condições favoráveis para o investimento privado substituir o público e aumento da arrecadação.
A complicação resulta do fato de que, depois de reduzida a meta fiscal, torna-se mais distante o objetivo de estabilizar a dívida como proporção do PIB, a menos que o BC flexibilize a política monetária. Com isso, o compromisso do regime de metas terá de ser deixado de lado. O momento é de difíceis e cruciais escolhas. Elas precisam ser feitas, caso contrário as agências de rating vão rebaixar a nota de crédito brasileira e, o que é pior, impor um viés negativo rumo à categoria “junk”. Após um brutal choque monetário, com o IPCA finalmente descendo aos 4,5%, o rebaixamento irá disparar o dólar e a inflação de novo rumará ao teto de 6,5%. O radicalismo monetarista não terá servido para nada.

Se o BC, no RI de hoje, repisar integralmente o script do “exterminador do futuro”, os contratos futuros de juros negociados na BM&F, que ontem cederam à espera da restauração da racionalidade, voltarão a subir. A taxa para a virada do ano recuou de 14,19% para 14,14%. O contrato com vencimento em janeiro de 2021 fechou a 13,84%, ante 13,92% no encerramento anterior.

Diminuída a tensão com a Grécia, o dólar valorizou-se ontem globalmente por conta de novos reposicionamentos de carteira em função da contagem regressiva para a alta do juro básico americano. As apostas estão convergindo cada vez mais para a reunião de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve. Ontem, membro da junta de governadores do Fed, Jerome Powell, deu uma ajuda nesse sentido. Na opinião dele, o Fomc deveria iniciar a alta em setembro e fazer outra em dezembro. Em setembro, a inflação ao consumidor não estará ainda na meta de 2% do Fed, mas Powell — um diretor muito próximo de Janet Yellen — defende que a autoridade se posicione à frente da curva de juros. Contra o real, o dólar acompanhou durante a maior parte do pregão o viés externo de alta, mas perdeu força na meia-hora final de negociações e fechou a R$ 3,0779, em queda de 0,12%.

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