BC se elege salvador do Brasil

Levy levou seis meses para descobrir que o retrato fiscal é mais horripilante que a face que se mostra em público. Será preciso uma vasta reforma estrutural

Por O Dia

Criticado tanto pelos analistas do mercado financeiro quanto pelas lideranças petistas, o Banco Central não se intimida. O Relatório de Inflação (RI) referente ao segundo trimestre redobra a aposta na continuidade do ciclo de aperto monetário. O seu discurso severamente monetarista foi reafirmado em todas as análises técnicas e em suas crenças e certezas. O RI desenha dois mundos. O de 2015 é sombrio, ano de recessão e superinflação. O de 2016 é o da redenção: volta do crescimento e inflação na meta. Como o documento é reticente sobre o grau de sucesso do ajuste fiscal, o BC se alça à condição do paladino solitário que vai salvar o Brasil. Ele se considera investido de poderes divinos capazes a um só tempo de domar a inflação, restaurar a credibilidade e evitar o rebaixamento do rating a “junk”. Insatisfeito com os rumos fiscais, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, já deu o sinal verde para o cumprimento da missão sagrada do BC ao repetir a falácia neoliberal de que só há crescimento com inflação na meta.

Diante do RI, o mercado futuro de juros da BM&F só teve a única reação possível: puxou violentamente para cima a taxa dos contratos de DI. Para a virada do ano, a taxa avançou de 14,14% para 14,23%. E o contrato com vencimento em janeiro de 2017 fechou a 13,94%, ante 13,84% na véspera. A disputa entre os tesoureiros que acreditavam em uma alta da Selic de 0,25 ponto no Copom do mês que vem e encerramento do ciclo com taxa em 14% e os que apostavam em mais um tranco de 0,50 ponto sem ainda se divisar o teto, foi resolvida pelo RI em favor dos segundos.

O mercado se convenceu de que enquanto o BC detiver os poderes exercitados a cada reunião do Copom e a cada divulgação de documento oficial, não adianta brigar com ele, de nada servem as críticas à esquerda e à direita. Só há uma pessoa capaz de segurá-lo, a presidente Dilma Rousseff, mas todos os sinais são de que, como o BC goza de escassa autonomia, a inspiração básica à prepotência perseverante e determinada vem justamente dela. Alguém lhe vendeu muito bem esse cenário de que 2016 será o ano da remissão. Não será difícil imaginar a sua irritação quando descobrir, daqui a um ano, que foi enganada.

A presidente queria resolver logo a situação. Colocou na Fazenda o mais linha-dura dos fiscalistas brasileiros e liberou o Banco Central das amarras pseudodesenvolvimentistas do passado. Levy assumiu confiante no cumprimento das metas de superávit fiscal de 1,2% este ano e 2% no próximo. Levou seis meses para descobrir que o retrato fiscal alojado nos porões da República é mais horripilante que a face que se mostra em público. Trata-se de um Dorian Gray medonho que não requer apenas cirurgias plásticas reconstrutivas. Será preciso uma vasta reforma estrutural do tamanho do Estado. O seu ajuste fiscal, mesmo que não tivesse sido limado pela crise política, ainda assim se mostraria encabulado e risível. Não há solução de curto prazo, não dá mais para aumentar a carga tributária em face não somente da resistência da sociedade mas principalmente por causa do declínio da arrecadação federal. Não dá mais para contingenciar despesas e a tarefa atual, exaustiva, de poda de gastos miúdos apresenta resultados insignificantes comparativamente ao aumento do custo de carregamento da dívida pública agregado a cada 45 dias pelo paladino monetário.

A ressaca do ministro Levy resulta da constatação de que o ajuste será longo e doloroso. E o BC se empenha em alongá-lo ainda mais. Mas o “monetariopata” é insensível à dor alheia. Ao apresentar ontem o RI, o diretor de Política Econômica, Luiz Pereira, repetiu a aberração contida na última ata do Copom - a de que hoje o mercado de trabalho mostra uma “distensão”. E tal “distensão” é tratada como uma bênção que comprova a eficiência da política monetária. O desemprego galopante vai sanar a distorção representada pela inflação de custos forjada pelos salários. E a inflação de custos resultante da elevação dos custos financeiros das empresas?

Ao sustentar a sua retórica ameaçadora — tudo será feito para que a inflação feche 2016 na meta de 4,5% — o BC se revela incapaz de enxergar os números que ele mesmo exibe no RI. A coisa é simples: pelo seu cenário de referência (Selic de 13,75%, dólar a R$ 3,10, considerando IPCA de 9% este ano e queda do PIB de 1,1%), a inflação de 2016 será de 4,8%. Não está bom? Baixar o IPCA de 9% para 4,8% não é um feito que poderia ser considerado glorioso até pelo mais empedernido monetarista? Diante desse sucesso, não está na hora de manter a Selic em 13,75%? Para o BC, não basta, é o tudo ou nada: ou é 4,5% ou não é nada. Ele promete subir a Selic dos atuais 13,75% para 14,5% para ver se consegue diminuir a projeção de IPCA de 4,8% para 4,5%. Para reduzi-la em 0,3 ponto (diferença vista como “relevante” pelo RI), vai elevar a taxa básica em pelo menos 0,75 ponto. Está disposto a ampliar em R$ 22,5 bilhões o gasto com a dívida para cumprir um capricho. Um capricho que vai exacerbar a recessão e aumentar a ressaca ministerial.

Os investidores estrangeiros já perceberam que a política econômica está errada. Se o governo insistir nela, estará condenando o país a um longo período de retrocesso econômico, com nebulosas consequências sociais e políticas. Há hoje um forte movimento de realização de lucro e retirada.

Estatísticas divulgadas ontem pelo BC sobre o movimento de saída de capitais estrangeiros na semana passada são impressionantes. Do dia 15 ao 19, US$ 2,82 bilhões deixaram o país pela conta financeira. A emigração diária assusta: na segunda-feira, 15, foi embora US$ 1,07 bilhão; na terça, US$ 840 milhões; na quarta, US$ 785 milhões; na quinta, entraram US$ 16 milhões; e na sexta, 19, fugiram US$ 142 milhões.

O dólar não reflete essa saída porque está sendo puxado para baixo por operações “day trade” e pelo “carry trade” envolvendo dólares sintéticos, que não entram nem saem do país. Mas, há dias, como ontem, em que a cena externa impõe um viés de alta inescapável. As negociações gregas parecem ter azedado de novo. E os investidores se refugiaram no dólar. Contra o real, a moeda subiu 0,76%, cotada a R$ 3,1014.

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