Crise amplia sensação de risco

A arrecadação de maio reforça a certeza de que a meta de superávit primário é impraticável. Levy reluta em admitir isso oficialmente. Mas o mercado dispensa a confissão explícita

Por O Dia

As notícias ruins de cada dia não permitem a instalação de uma trégua nos mercados financeiros. As crises política e econômica — uma municiando a outra de um vasto estoque de foguetes — não dão sinais de arrefecimento. De tão ruim, é difícil saber se o quadro está piorando. Os investidores só não entram em pânico, porque o sedativo do juro real elevado (e em alta) ainda funciona. O juro efetivo para um ano negociado na BM&F está em 14,30%, taxa que proporciona um ganho de 7,7% acima do IPCA de 6,13% previsto pelo Focus para o mesmo período. É esse juro real recordista mundial que impede o dólar de refletir toda a dimensão da crise. Embora tenha fechado em alta de 0,86%, cotado a R$ 3,1281, a valorização pareceu acanhada diante da ampliação do risco.

Os analistas se surpreendem a cada novo dado negativo. Não estão conseguindo precificar a real extensão do atual declínio da atividade econômica. Os dois indicadores divulgados ontem comprovam o fato de que o mercado subestima o grau de contração da economia, talvez porque assuma como sua a tese tranquilizadora de que o país atravessa uma “ressaca” passageira, fruto do voluntarismo desenvolvimentista malsucedido da gestão anterior, e por acreditar, também, na tese de que a política liberal-conservadora, por ser fundamentalmente correta, renderá bons dividendos no futuro. Ao contrário, a economia afunda e esperar por uma rápida recuperação é ilusão que afasta a necessidade de correções de rumo imediatas. Exemplo: os analistas consultados pela agência Reuters esperavam um número bem ruim para a arrecadação federal de maio, algo perto de R$ 94 bilhões. A Receita Federal informou ontem que o total arrecadado foi de R$ 91,5 bilhões, uma queda real de 4,03% em relação a igual mês do ano passado. No acumulado de janeiro a maio — ou seja, os cinco primeiros meses da gestão fiscalista de Joaquim Levy — a arrecadação encolheu, já descontada a inflação, 2,95%. O dado de maio reforça a certeza do mercado de que a meta de superávit primário para o ano, equivalente a 1,1%, é impraticável. Levy reluta em admitir isso oficialmente, para não rebaixar a confiança em sua política econômica. Mas o mercado dispensa a confissão explícita.

O segundo dado negativo do dia veio do mercado de trabalho, aquele mesmo que o Banco Central considera em estágio de “distensão”. A taxa de desemprego medida pelo IBGE subiu de 6,4% em abril para 6,7% em maio. Os analistas projetavam piora para 6,6%. Em relatório, o Banco Fator nota que há “sensível queda da massa de rendimento real” do trabalhador. Ela caiu 1,1% em maio, após leve avanço de 0,4% em abril e quedas perto de 3% nos meses anteriores. Na comparação interanual, o rendimento real caiu 5,8%. Tal baixa é um golpe mortal na inflação de serviços. As empresas tentam repassar o aumento dos custos e não conseguem. Como a recessão e o desemprego são de fato mais fortes do que as projeções, a inflação em 2016 pode sofrer um tombo mais acentuado do que o consignado pelos modelos do BC e do mercado. O Copom pode estar subindo a Selic para nada. E o pior: todo o atual hiperativismo altista chegará às fábricas e lojas apenas no início do ano que vem. Nos seus textos oficiais, o Copom suprimiu a antiga referência aos “efeitos cumulativos e defasados” da política monetária, uma expressão utilizada para indicar a propensão da autoridade em não exagerar na dose. A expressão pode ter saído dos documentos, mas não deixou de agir sobre a economia.

Não bastasse a deterioração da economia, a atmosfera política satura-se cada vez mais. A aprovação pela Câmara de uma MP que estende para o conjunto dos aposentados o benefício de concessão de reajuste pela variação do salário mínimo, limitado então para a faixa mais baixa, é apenas uma provocação, um exercício de força política. Sabe-se que a medida, se passar no Senado, será vetada pelo Executivo, mas é justamente isso o que a Câmara quer, desgastar a imagem de Dilma Rousseff junto aos aposentados.

A exacerbação da Operação Lava Jato joga um manto de incertezas sobre as operações do mercado. O dólar inverteu ontem o seu viés de queda no momento em que piscou nas telas a informação que um habeas-corpus preventivo havia sido impetrado na Justiça paranaense com o objetivo de impedir a prisão do ex-presidente Lula. Trata-se de um ruído imaginário: nem Lula está sendo investigado no âmbito da Lava Jato, nem o impetrante tinha autorização dos advogados de Lula para tanto. Mal refeito do susto, o câmbio foi pego de surpresa por outra informação, a de que a Polícia Federal tinha pedido autorização, negada pelo Superior Tribunal de Justiça (STF), para promover diligências na residência oficial do governador de Minas, Fernando Pimentel. A possibilidade de se abrir uma crise institucional, em conjunção com a crise parlamentar e a economia, joga o risco de se fazer negócios no Brasil às alturas, desencadeando operações defensivas de compra de dólar e pleitos por prêmios extravagantes nos juros futuros.

A evidência maior de que o risco mudou de patamar é revelada pela assimetria entre as velocidades de alta dos vários contratos de DI futuro. O risco implícito em uma economia cresce quando os contratos de prazo mais longo sobem em ritmo mais acentuado que os de prazo mais curto. Foi assim ontem. Enquanto a taxa para a virada do ano avançou 0,06 ponto (de 14,23% para 14,29%), o contrato para janeiro de 2017 subiu 0,12 ponto (de 13,94% para14,06%) e o com vencimento em janeiro de 2021 saltou 0,16 ponto (de 12,66% para 12,82%). Isso não tem a ver com uma política monetária desastrosamente pesada, mas com a percepção de que o país ficou mais perigoso.

E ao risco interno se agrega o externo. Em setembro, há um encontro marcado com um movimento de rearranjo global de portfólios. Indicadores sobre o desempenho da economia americana melhores do que o esperado pelos analistas reforçaram a aposta, já majoritária, de que o Federal Reserve (Fed) encontrará em sua reunião de política monetária de setembro plenas condições para o início do processo de elevação dos juros básicos. O rendimento do título de 10 anos do Tesouro americano subiu de 2,37% para até 2,42% após a divulgação do aumento de 0,9% nos gastos com consumo dos americanos em maio, superando a expectativa de uma expansão de 0,7%. A renda pessoal expandiu-se 0,5%. Ajudou à alta da T-Note a informação de que houve na semana passada três mil novos pedidos de auxílio-desemprego, ampliando o total para 271 mil, um número aquém do projetado pelo mercado, de 273 mil. Os sinais são de que o Fed vai agir antes de os índices de inflação começarem a captar a recuperação econômica.

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