Por douglas.nunes

Os mercados de câmbio e juros futuros reagiram contemplativamente ao crescimento da aversão global a risco decorrente do “corralito” grego. A razão tem menos a ver com a tragédia grega e mais com a China. No sábado, o PBOC — o banco central da China – reduziu os juros básicos e o compulsório bancário para tentar tapar o furo aberto na bolha acionária. O PBOC se assustou com o tombo de 7,4% sofrido por Shanghai na sexta-feira, ampliando para 20% a perda em duas semanas. A redução do custo do dinheiro e a liberação de liquidez não deram muito certo, e ontem a bolsa chinesa cedeu mais 3,34%. Pequenos e médios investidores liquidam suas ações para atender às chamadas de margem, o típico movimento que precipitou o fim de Wall Street em 1929. O que o Brasil tem a ver com isso? Tudo e mais um pouco.

Há, em princípio, um efeito benéfico, absolutamente ilusório. Depois que o PBOC cortou sua taxa de referência de 5,1% para 4,85%, no quarto corte de juro desde novembro, o maior juro real do mundo, o brasileiro, agigantou-se ainda mais comparativamente. Mesmo antes deste quarto corte, a taxa real brasileira — de 7,7% pelo critério de 12 meses à frente — já era o dobro do segundo colocado, justamente a China. Agora, então, não tem pra ninguém mesmo. O Brasil é o paraíso absoluto e incontestável dos especuladores internacionais. Não há terrorismo em nossas praças e praias. Em Nova York, a presidente Dilma Rousseff se exibe a uma plateia composta pela porção mais central e restrita do concêntrico círculo dos megafinancistas mundiais, tendo à sua esquerda (apenas um equívoco do protocolo) um ministro egresso da Universidade de Chicago recém-diagnosticado com uma embolia pulmonar, o que fornece a dimensão exata da importância simbólica da presença de Joaquim Levy. O Brasil paga um juro desmedidamente alto e não é a Grécia. A política econômica aqui — apesar de não haver nenhum constrangimento de dívida externa, pelo contrário —– é das mais ortodoxas do mundo.

Não é por mero acaso, portanto, que o real, em meio ao atropelo dos investidores globais, esnobou ontem a desvalorização geral das moedas emergentes. A fuga à qualidade desencadeada pela visão do desfecho do drama grego fez o título de 10 anos do Tesouro americano despencar de 2,47% na sexta-feira para 2,33%. No mercado de câmbio brasileiro, reinou a preponderância dos “vendidos” em dólar. Somente na abertura do pregão, a moeda americana conseguiu subir 0,79%, cotada a R$ 3,1528. Mas logo voltaram os vendedores. E o dólar encerrou o dia em baixa de 0,28%, cotado a R$ 3,1195, contrastando com o desempenho positivo frente a outras moedas emergentes. Comportamento similar de bate-e-volta foi mostrado pelo pregão de juros futuros da BM&F. O contrato para janeiro de 2017 avançou, no início do dia, de 14,05% para 14,15%, mas fechou a 14,02%, em queda em relação à sexta-feira.

Para o Brasil, a crise chinesa é várias vezes pior do que a grega. Se o PBOC não conseguir evitar o estouro do mercado de ações do país, desencadeando um efeito dominó sobre o mercado imobiliário e o sistema de “shadow banking”, a desaceleração da economia será acentuada. Parceira geopolítica e economicamente estratégica do Brasil, a China pode precipitar uma rearrumação dos portfólios globais só esperada para quando o Federal Reserve (Fed) iniciar o deslocamento para cima do juro básico americano. O Fed é hoje o último dos problemas do mercado. A travessia vem sendo conduzida pela “chair” Janet Yellen com uma surpreendente maestria, caracterizada ao mesmo tempo pela suavidade e pela segurança. Se a pessoa é competente, não precisa dar murros na mesa. O problema é a China. Se os investidores globais se arrepiarem com o pouso chinês, os “vendidos” em dólar contra o real podem reverter rapidamente suas posições. O dólar vai disparar de novo, o que é muito bom para o balanço de pagamentos, mas péssimo para a inflação. E o nosso generoso Banco Central pode se sentir de novo desafiado e tentar impedir o que chama eufemisticamente de realinhamento dos preços domésticos aos internacionais, ou seja, o repasse da variação cambial ao IPCA. E tome paulada na Selic.

A julgar pelo Focus divulgado ontem, o BC precisa aumentar a letalidade dos seus ataques monetários se de fato quiser rebaixar as expectativas inflacionárias dos analistas. Os tiros crescem sucessivamente de calibre, mas só ricocheteiam na grossa blindagem construída pelos departamentos econômicos das instituições. Depois da ata feroz do último Copom, o Relatório de Inflação tentou, na semana passada, furar o bloqueio. Não conseguiu. As instituições apenas fizeram a concessão de elevar a expectativa de Selic para 14,50%, taxa que está, nos textos e falas do BC, sacramentada. Mas naquilo que interessa — a projeção de IPCA para 2016 — o mercado sustenta impassível o ceticismo. O prognóstico foi mantido em 5,5% pela sexta semana em sequência. Os analistas mantiveram-se irredutíveis, indiferentes aos comentários do RI sobre a reduzida inércia inflacionária projetada pelos técnicos da autoridade. O máximo de benevolência foi a diminuição da estimativa de inflação para 2017, de 4,75% para 4,7%. O alvo central de 4,5%, que o BC jura que irá cravar já no ano que vem, o mercado considera atingível somente em 2018.

Os contratos de derivativos cambiais de junho vencem hoje na BM&F. Interessa aos “vendidos”, detentores este mês da supremacia, segurar o dólar até a divulgação pelo BC da “Ptax” de fechamento do mês, o que deve ocorrer no início da tarde. A moeda estará livre depois para refletir o grau de tensão internacional. O destino da Grécia não estará decidido hoje, quando consumar-se o calote de 1,54 bilhões de euros ao FMI. A Troika vai esperar o resultado do plebiscito de domingo. Se a população apoiar a austeridade, as negociações serão reabertas. A data fatal para a permanência ou não do país na eurolândia será 20 de julho, quando terá de pagar ou rolar 3,5 bilhões de euros emprestados pelo BCE.

Você pode gostar