Por douglas.nunes

O que dizem esses adendos? Que os efeitos do tarifaço público diretamente sobre o IPCA e sobre os demais preços da economia perduram por apenas quatro trimestres, que o estrago da alta do dólar é sentido ao longo de 12 meses, que o ajuste fiscal tem impacto positivo sobre a inflação um ano depois de ser implementado e que a potência máxima das decisões de política monetária ocorre somente dois anos após tomadas. Se o estudo estiver correto, como o brutal reajuste das tarifas públicas aconteceu com maior intensidade no primeiro trimestre deste ano, já no final de 2015 não exercerá mais pressão de alta sobre o IPCA. Ou seja, 2016 vai começar zerado, sem inércia inflacionária provocada pelo tarifaço. Mesma coisa com o câmbio. Se não houver nova arrancada do dólar em setembro como resultado da esperada alta da taxa básica americana, não haverá efeito da mudança de patamar do dólar sobre a inflação do ano que vem. O mesmo raciocínio vale para o ajustamento fiscal. Por menor que seja o superávit primário alcançado em dezembro, as contas públicas abandonarão o estágio de descontrole verificado no final de 2014. E, a partir de 2016, deixam de pressionar a inflação.

Tudo junto e misturado: então porque o Copom insiste em continuar elevando a Selic, se todo o cenário está montado para se colher um IPCA bem perto da meta de 4,5%? A questão torna-se dramática se for verdadeira a conclusão de que o grau máximo de eficiência de uma alta da Selic acontece dois anos depois. Ou seja, a elevação de 0,50 ponto, com a Selic subindo de 13,75% para 14,25%, que será feita pelo Copom em sua próxima reunião, dia 29 de julho, baterá no peito da economia em julho de 2017. O estado de guerra permanente contra a inflação corre o risco de manter a economia em eterno sono letárgico.

O BC faz isso por sadismo ou por birra? Na verdade, por ambos. Na raiz da doutrina neoliberal subjaz a crença de que a economia precisa padecer sofrimentos atrozes para que a inflação se vergue ao chão. As políticas corretivas dessa igreja impõem uma via-crúcis à maioria da sociedade não-rentista. Também faz o que faz por caturrice. A gestão do BC quer mostrar que nos últimos anos só não cumpriu a meta central de inflação porque a Fazenda desenvolvimentista não deixava. Livre desse constrangimento, o BC pode ser ele mesmo. Quer mostrar agora que tem plenas condições de cumprir o seu mandato, nem que para isso tenha de desempregar um milhão de trabalhadores no acumulado do ano.

O RI comprova que será muito factível atingir em 2016 o alvo central do regime de metas sem precisar fazer mais nenhuma alta adicional da Selic. Tudo conspira para derrubar a demanda, a produção e os empregos. A crise de confiança, a secagem dos recursos públicos e o terrorismo monetário derrubaram as expectativas e as esperanças. O estado atual da economia sugere até que o IPCA pode definhar abaixo dos 4,5% perseguidos sem que o Copom precise fazer mais nada. Mas ele fará, porque pode e porque gosta.

Os estudos sobre a inércia inflacionária mitigada e a potência da política monetária minam o impacto psicológico da decisão do CMN de reduzir a banda de flutuação inflacionária de 2 pontos para 1,5 ponto. Os contratos de juros futuros de prazo mais longo negociados na BM&F caíram, na sexta-feira, com maior intensidade que os de curto prazo — a taxa para janeiro de 2017 cedeu apenas 0,1 ponto, de 14,06% para 14,05%, enquanto que o contrato para janeiro de 2021 refluiu 0,13 ponto, de 12,82% para 12,69% — porque o mercado entendeu que a medida fortalece o compromisso do BC com o combate à inflação. Não será, em 2017, um grande feito impedir que o IPCA estoure o novo teto de 6%. O BC já trabalha para isso desde agora e a economia ainda estará deprimida, se debatendo com a maior taxa real de juros do mundo.

Os DIs futuros podem refletir sem medo as sinalizações internas de política monetária porque o mercado de câmbio persiste anestesiado. Nada parece ter capaz de tirar o dólar do seu sossego. Na sexta-feira, a taxa da T-Note de 10 anos disparou de 2,41% para até 2,49%, e a moeda americana mal se mexeu. Fechou o dia cotado a R$ 3,1282, praticamente estável em relação aos R$ 3,1281 do encerramento de quinta-feira.

A explicação para a letargia pode ser encontrada nos pregões de derivativos cambiais da BM&F. Há este mês uma notável supremacia das posições “vendidas” líquidas em cupom cambial e dólar futuro. Bancos e fundos de investimentos nacionais carregam contratos vendidos (que ganham com a queda do dólar) no valor de US$ 39,37 bilhões, superando em US$ 5,8 bilhões as posições “compradas” detidas pelos investidores estrangeiros, de US$ 33,57 bilhões. O lucro dos vendidos já está robusto no mês. No acumulado de junho até sexta-feira, faltando apenas os pregões de hoje e amanhã para o encerramento das posições, o dólar já desvalorizou-se 1,85%. Amanhã, após o vencimento dos contratos de derivativos, o BC vai sinalizar o percentual dos US$ 10,7 bilhões em swaps cambiais que vencem no início de agosto que pretende rolar. Este mês, ele iniciou a rolagem indicando a disposição de levar ao resgate 20% do lote, depois elevou a fatia para 25% e, em seguida, para 30%. Enquanto houver a hegemonia dos “vendidos”, o BC se sentirá encorajado a ampliar a liquidação, desde que isso não provoque disparada do dólar. A ele é muito conveniente a atual apreciação cambial. Esta ajuda no ataque à inflação e proporciona ganho financeiro na operação com os swaps cambiais, o que, de quebra, reduz o efeito fiscal negativo do estoque desses contratos.

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