Presidente do BNP Paribas mostra otimismo com investimentos no Brasil

Para Louis Bazire, ‘Investidores que achavam o país caro em 2011 já estão voltando'

Por O Dia

O presidente do banco BNP Paribas no Brasil e América Latina%2C Louis Bazire diz que o Brasil é um dos grandes ‘game changers’ do futuro e é importante estaraquiPatricia Stavis / Agência O Dia

Louis Bazire tem pai francês, nome francês e sotaque francês, mas é carioca - nasceu em Laranjeiras, na capital fluminense. Ainda criança partiu com seus pais para a Europa. Há seis anos, voltou ao país para presidir o banco BNP Paribas (o maior da França) para o Brasil e América Latina. Depois de ver investidores estrangeiros tornarem-se arredios com o Brasil nos últimos anos, agora vê um movimento de volta. "Quem ia entrar aqui em 2011 e desistiu por causa dos preços altos dos ativos está voltando agora. Tem muitas operações para sair neste ano", diz.

Como o senhor vê o ambiente de negócios no Brasil neste ano de eventos esportivos, eleições e, agora, rebaixamento da nota de crédito do país por uma das três maiores agências de risco?

Com certeza o ano será de muita volatilidade, mas também de oportunidades. No BNP Paribas não ‘compramos' exageros e extremos. Não concordei quando os investidores viam o Brasil decolando - lembra da capa da revista The Economist com a estátua do Cristo Redentor decolando? - nem vejo o Cristo afundando na Lagoa Rodrigo de Freitas agora. É curioso que, quase em abril, ainda não haja um consenso dos economistas quanto ao crescimento do Brasil neste ano. Isso é um forte sinal de que o cenário continua incerto, volátil. Acho que o crescimento neste ano será menor, mas como não somos um banco de varejo no Brasil, esse aspecto pouco impacta os negócios do banco.

Essa sua visão é compartilhada por investidores estrangeiros?

O Brasil está crescendo pouco há três anos, já foi a era de bombar o crescimento com consumo. Essa estratégia produz efeitos rapidamente, mas tem limite - no caso do Brasil, foi o limite da inadimplência dos tomadores de crédito. Agora, o governo precisa incentivar investimentos, e isso leva mais tempo. Mas esse cenário de menor crescimento tem um lado positivo: o real ficou mais fraco e os preços das empresas aqui, mais baratos. Com isso, investir no Brasil volta a ser interessante. Estamos entrando em contato novamente com clientes europeus que tinham intenção e planos para investir aqui há dois ou três anos, e desistiram porque os ‘múltiplos' das empresas estavam altos e a moeda brasileira também. A reação tem sido muito boa. Muitos recuperaram o interesse. Tem várias operações no ‘pipeline' para este ano.

E na sua opinião, a volta do interesse é apenas uma questão de preço?

Além de não estar mais tão caro, o Brasil tem 200 milhões de pessoas e se a empresa estrangeira tem ‘know how' em determinado mercado, aconselho a vir investir no país agora. O Brasil é um dos grandes ‘game changers' do futuro e é importante estar aqui. Existem ainda outros indicadores positivos - um dos mais importantes para mim é o índice Gini, de qualidade de vida da população, que melhorou muito nos últimos seis anos. O país se beneficiou, também, do dinheiro para investimentos em emergentes, que ainda não secou - afinal a alta dos juros nos Estados Unidos ainda demora, uma vez que a economia não está crescendo tão rapidamente quanto se previa. Isso é bom para o Brasil.

E as manifestações e passeatas, aqui, assustaram os investidores europeus?

Assustaram em um primeiro momento. Temia-se que fosse inspirada pela Primavera Árabe, ou pelos movimentos na Turquia. Mas depois, o saldo foi positivo. Para os investidores, a mensagem que ficou foi a do amadurecimento da democracia. Os brasileiros agora exigem mais seus direitos, e não vão deixar o governo fazer o que quiser, mudar as regras do jogo. Isso é extremamente reconfortante para os investidores estrangeiros.

São empresas de quais setores que estão voltando a investir no Brasil?

Não posso revelar nomes antes do fechamento dos negócios - às vezes, dependendo dos envolvidos, nem depois -, mas digo que há setores parados enquanto outros continuam bombando. Atividades ligadas ao consumo ainda vão bem, assim como o agronegócio. Já a indústria automobilística está na berlinda. Estamos acompanhando muito de perto, porque é um setor muito importante pela quantidade de empregos, impostos que paga e pela cadeia produtiva. Mas como banco de atacado, também estamos envolvidos em grandes negócios de financiamento para infraestrutura.

Como o BNP vê as oportunidades nesses financiamentos?

No ano passado, fomos anfitriões do BNDES em uma rodada de apresentações feita pelo banco na Europa para ‘vender' o programa de leilões de concessões - e a reação dos operadores e investidores estrangeiros foi muito positiva. Aqui, somos o banco da Invepar, que ganhou a concessão do aeroporto internacional de São Paulo (em Guarulhos), e realizamos uma das maiores operações de ‘project finance' securitizada , no valor de R$ 2,7 bilhões, da Odebrecht Oil & Gas. Também atuamos, junto com o Bradesco, na venda da grife Osklen e na entrada mais efetiva da Body Store no Brasil.

Quais outras áreas o BNP Paribas está investindo no Brasil atualmente?

Temos planos de lançar duas ou três novas áreas de negócios neste ano aqui, mas ainda não posso revelar quais. Assim como aconteceu com a custódia institucional, essas áreas novas surgem por demanda dos nossos clientes europeus, que tem filiais aqui. Fazemos custódia de títulos e valores para clientes globalmente, e não fazíamos aqui. Agora fazemos. A área foi aberta há um ano e meio e no ano passado já deu lucro.

Qual a participação de clientes estrangeiros nos resultados do BNP no Brasil?

Passamos a ter uma atuação mais proativa junto a filiais brasileiras de nossos clientes europeus no ano passado. Atuamos com assessoria, prestação de serviços e também crédito para esses clientes. Como somos um banco muito importante na Europa - na grande maioria dos casos, somos o primeiro banco dos nossos clientes lá - os que tem negócios no Brasil naturalmente nos procuravam aqui. Sempre prestamos serviços a eles, mas em 2013 ampliamos a oferta, e aumentamos nossa equipe de atendimento. Como resultado, grande parte do aumento de 30% que registramos no saldo da nossa carteira de crédito, por exemplo, veio desses clientes.

Quais negócios o banco tem no Brasil?

Aqui, diferentemente da França, somos um banco só de atacado. Não fazemos nem queremos fazer varejo, nem atendemos empresas de porte médio. Temos uma gestora de recursos, a área de ‘project finance' (que envolve financiamento e assessoria em grandes projetos), a seguradora Cardif, a empresa de leasing e aluguel de frota Arval e a empresa de cartões Cetelem - mas todas elas só vendem produtos e prestam serviços no mercado corporativo, são negócios B2B. No ano passado, o banco aumentou o crédito mas o lucro ficou estável em R$ 187,7 milhões.

Como vai a área de gestão de recursos?

Este é realmente um grande desafio para este ano. Com os juros em alta, poucas opções são mais atraentes para o investidor do que títulos públicos - rendem bem, são seguros e tem alta liquidez. Mas temos observado aumento do interesse por investimentos no exterior - oferecemos aqui aos investidores brasileiros produtos dentro da família batizada de Access.

Quais os planos de crescimento do BNP no Brasil? E na América Latina, como vão os negócios?

As operações nos países da América Latina ainda representam apenas 3% do total global para o banco. A meta é crescer em torno de 15% ao ano até 2016 - a taxa é o dobro do previsto para o grupo como um todo. Além do Brasil, estamos presentes na Argentina, como o banco comercial e a seguradora Cardif; no Chile, temos um escritório de representação e uma forte operação da Cardif também. No Peru, idem. Na Colômbia, estamos investindo mais na Cardif, pois o mercado ficou fechado por muitos anos e estamos agora implantando o conceito de seguradora junto aos bancos locais. Queremos também ter um banco de investimento completo. Fomos o primeiro banco estrangeiro a pedir licença para operar na Colômbia assim que o governo conseguiu isolar as facções ligadas tráfico de drogas do país.

O BNP tem unidades no México?

O México é um caso à parte. É totalmente aberto, não tem controle cambial, a convertibilidade entre peso e dólar é total. Isso beneficia muito os bancos americanos. No varejo, é quase impossível concorrer. Vamos montar um banco de atacado lá, em associação com o Banorte, o maior banco mexicano. A visão global de mercado já era. O multilocal é o novo global. O "one size fits all" não funciona mais. É preciso se associar com ‘players' locais para exercer sua visão global. Da mesma forma, desde a crise de 2008 inovações financeiras estão fora de moda. O mercado está voltando ao básico.

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