Por marta.valim

Pela primeira vez em dez trimestres, a soma do saldo da carteira de empréstimos dos três maiores bancos privados diminuiu, passando de R$ 1,034 trilhão em 31 de dezembro do ano passado para R$ 1,032 trilhão em 31 de março. A queda é pequena, mas é muito raro acontecer — e pode apontar uma tendência para o ano.

A queda maior foi verificada no Santander: 1,54%. No Itaú, o recuo foi de 0,65%. O Bradesco apresentou aumento tímido, de 1,6%. O presidente da instituição, Luiz Carlos Trabuco Cappi, avisou que a puxada aconteceu em março, depois de o banco fazer esforço para aumentar a oferta principalmente para pequenas e médias empresas. Já no Itaú, ao contrário, os empréstimos para esses clientes foram os que mais caíram, entre os voltados a pessoas jurídicas: 1,9%. Na semana passada, Marcelo Kopel, diretor de relações com investidores, disse que o banco tem planos de retomar a oferta para essas empresas. Para veículos, a retração continua, e uma virada deve ocorrer apenas em 2015. No primeiro trimestre, a queda foi de 8%.

Há um fator sazonal e também o efeito calendário - o trimestre tem menos dias úteis. Mas queda no saldo dos empréstimos significa que o pé no freio em algumas linhas, como as para automóveis, não está sendo compensado pela aceleração de outras. “O motivo é a fraca atividade econômica”, diz Erivelto Rodrigues, presidente da Austin Rating. Para ele, os bancos públicos não devem mostrar queda no saldo mas, também, não exibirão mais o mesmo ritmo de aceleração visto no ano passado. Mas o especialista ainda acredita em uma recuperação: “É possível que a alta do crédito fique entre 10% e 12% neste ano”.

A demanda por parte das empresas foi realmente inferior a de outros trimestres: no Bradesco e no Santander, por exemplo, a linha que mais caiu foi a de capital de giro: 5% no primeiro e 5,3% no segundo. No Itaú, a queda foi 4,2%, para R$ 104,6 bilhões. Para o Santander, capital de giro é uma linha bastante representativa, dentro das oferecidas a empresas: equivalia a 61% dos R$ 111 bilhões emprestados para esses clientes em março. Durante a apresentação do balanço, a diretoria do banco justificou a queda pelo menor apetite ao risco e também pela queda na atividade econômica.

A queda também pode ser um sinal de que a procura por empréstimos consignados e imobiliários, linhas nas quais os bancos vem investindo mais nos últimos trimestres por conta do menor risco de inadimplência, está chegando a um limite. Depois de aumentar mais de 30% ao ano na maioria dos grandes bancos, é possível que o ritmo agora diminua. No primeiro trimestre, ainda foram as locomotivas: no Itaú o crédito consignado cresceu 9,2%; e no Bradesco, o imobiliário para construtoras, nada menos do que 31,5%. No Santander, o crédito imobiliário para pessoas físicas aumentou 6,3%. Para empresas, a maior alta foi no crédito rural, no qual o banco já avisou que quer crescer.
A redução das carteiras de empréstimos tem ainda outro lado negativo: como a prioridade agora são linhas de menor risco, a margem vem caindo. O relatório de estabilidade financeira do Banco Central divulgado em março previa que esse movimento seria acentuado no início de 2014.

A margem financeira gerencial do Itaú totalizou R$ 12,5 bilhões no primeiro trimestre de 2014, com redução de R$ 215 milhões em relação ao quarto trimestre de 2013. Essa redução foi causada, principalmente, pela queda de R$ 125 milhões na margem com o mercado (que totalizou R$ 614 milhões). A margem financeira com clientes reduziu apenas 0,8%, por conta da quantidade menor de dias do trimestre, entre outros fatores, e somou R$ 11,9 bilhões. Mas as margens mostram expansão em relação aos R$ 11,5 bilhões no primeiro trimestre de 2013.

Rodrigues, da Austin Rating, acredita, porém, que as margens devem se recuperar a partir do segundo semestre, quando os efeitos da alta da Selic começarão a aparecer. No Bradesco, a margem financeira total passou de R$ 11,3 bilhões no último trimestre de 2013 para R$ 10,9 bilhões em 31 de março. A margem líquida de crédito ficou praticamente estável, em R$ 4,85 bilhões, ante R$ 4,89 bilhões. No Santander, a margem financeira bruta atingiu R$ 7 bilhões no primeiro trimestre de 2014, queda de 8,6% em relação ao mesmo período do ano anterior e 2,9% no trimestre. As receitas oriundas das operações de crédito apresentaram queda de 5,6%.

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