Por marta.valim

A Semana Nacional de Educação Financeira, evento que pretende popularizar a cultura do investimento no país, começou ontem com um banho de água fria no mercado de ações. Quem comandou o anticlímax foi o próprio presidente executivo da BM&FBovespa, Edemir Pinto, que acredita ser improvável novas ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) em 2014, já que os problemas fiscais do país estão abalando as expectativas do investidor - notadamente o estrangeiro.

Com isso, a projeção feita e refeita pela bolsa de contar com 5 milhões de investidores registrados até 2018 pode ser adiada mais uma vez já que o maior salto de participantes acompanhou o boom de ofertas entre 2006 e 2007 — atualmente são 571 mil pessoas físicas na bolsa. Outros participantes do evento lembraram que o foco da educação financeira é um projeto mais longo, de gerações.

“Caso as expectativas mudem, os IPOs podem voltar ainda este ano. Se não, é bem provável que não tenhamos estreias em 2014”, disse o presidente executivo da BM&FBovespa. A maior razão para o desânimo de Pinto é o desequilíbrio fiscal da economia brasileira, que estaria afastando o investidor estrangeiro de novas apostas no mercado acionário do país.

Desde a crise financeira de 2008, a participação desse tipo de aplicador vem subindo, representando atualmente mais da metade do volume negociado no pregão. Na contramão desse movimento, o total de CPFs registrados recuou de 611 mil, no início dessa década, para 571 mil no fim de abril.

No fim de 2006, eram 220 mil pessoas físicas atuando no pregão. Um ano depois, o número de CPFs chegou a 456 mil, impulsionado pelas 64 estreias do período, montante inigualável até agora no mercado brasileiro.

A esperança de Pinto de alcançar os 5 milhões de pessoas físicas operando na bolsa - objetivo cujo prazo passará a ser revisto ao fim de cada ano - reside em parte na volta das ofertas iniciais. “É o componente maior de atração de novos clientes”, lembrou. O foco hoje são as ofertas com ticket menor, entre R$ 50 milhões e R$ 70 milhões, mercado praticamente virgem no Brasil, onde a bolsa abarca apenas as companhias gigantes. Para tanto, a bolsa pede ao Ministério da Fazenda e à Receita Federal isenção fiscal para ofertas com esse perfil. O pleito, contraditoriamente, traria mais desgaste fiscal ao país.

“A gestão do Edemir à frente da BM&FBovespa vai ficar marcada por ter feito a bolsa perder investidores”, cutucou Carlos Antônio Magalhães de Almeida, presidente da seção fluminense da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-RJ). “Hoje, o pregão é um negócio de bancos. Virou um clube restrito a poucos investidores. A gestão atual da BM&FBovespa afastou os autônomos da bolsa, que tinham décadas de atuação e muitos clientes”. O presidente da Apimec também ressalta a falta de concorrência como um fator enfraquecedor do mercado.

“O presidente da bolsa quer que a empresa dele ganhe dinheiro. Se as outros perdem dinheiro, não é problema dele. O tipo de companhia que ele ainda respeita, que se preocupa, são os bancos. O emprego dele é garantido pelos bancos. Não por acaso, a liquidez do Itaú e do Bradesco vão se tornando cada vez maiores, o que deve se intensificar com esse novo Ibovespa. Por incrível que possa parecer, os bancos se tornaram o setor mais seguro para investidor”, ataca Magalhães de Almeida.

O processo de registro de uma nova bolsa segue em análise na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). De acordo com a assessoria de imprensa do grupo, o pedido para a abertura de uma clearing, empresa que faz a liquidação dos negócios, ainda não foi feito ao Banco Central.

A CVM, que capitaneia o evento, e outras instituições integrantes do Comitê Nacional de Educação Financeira se preocuparam mais em implantar projetos duradouros, como o lançamento de uma plataforma com um curso completo de finanças para alunos do ensino médio, aplicável a várias das disciplinas do currículo tradicional. “Quando assumi a presidência da CVM, no fim de 2012, listei cinco desafios, e a educação financeira foi um deles. É uma jornada longa, extremamente desafiadora,mas que precisa ser trilhada passo a passo”, lembrou Leonardo Pereira, presidente da CVM. Até sexta-feira, 17 cidades em 14 estados recebem eventos da Semana.

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