Por parroyo

Um mês e meio após a divulgação da primeira pesquisa eleitoral que apontou para uma queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff, o mercado financeiro parece já ter feito suas apostas quanto aos resultados das eleições presidenciais de outubro.

O desempenho de algumas ações, do dólar e dos juros desde que começaram a ser divulgadas as pesquisas mostra que a campanha eleitoral já chegou ao mercado.

Como lembra o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, conselheiro na área econômica do governo petista, antes de ser eleito, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva também sofreu com um ataque especulativo. "Não há nenhuma razão essencial para este movimento. É puramente uma avaliação do futuro, e, portanto, especulativa", afirma. "E o resultado geralmente é ruim para quem especula", conclui.

Isso porque, na sua opinião, não há fundamentos sólidos para o movimento. "É uma aposta que pode não se concretizar. Há quem perca e ganhe". Belluzzo aponta que o Brasil continua bem avaliado para investimentos estrangeiros, e que a Petrobras realiza investimentos de longo prazo no pré-sal.

A intensidade do movimento de valorização das ações, segundo Belluzzo, é causada pela assimetria de informações disponíveis no mercado financeiro. "As grandes instituições financeiras acabam levando os pequenos investidores. É um efeito manada".

Ações acompanham resultado de pesquisas eleitorais

No dia 18 de março, o Ibope registrou que a presidente tinha 40% das intenções de votos. O resultado mostrou perda de espaço de Dilma entre os eleitores. Em uma pesquisa anterior, divulgada no final de fevereiro pelo Datafolha, Dilma tinha 47% da preferência do eleitorado. Desde então, a bolsa de valores já registra valorização de 13,66%.

Desde a pesquisa que indicava a queda na intenção de votos de Dilma, o Ibovespa, principal índice de ações, saltou de 46.150 pontos para 53.446 pontos no pregão desta segunda-feira, após a publicação da pesquisa mais recente, no último sábado, do Instituto Sensus.

A pesquisa do Instituto Sensus aponta que a presidente tem agora 35% das intenções de votos. Um dia antes da divulgação, na sexta-feira, a bolsa atingiu seu maior patamar desde novembro de 2013. Em 17 de abril, a presidente já havia aparecido com 37% das intenções de votos, segundo o Ibope. No dia 5 de abril, Dilma tinha 38% de preferência do eleitorado.

Entre os papéis que tiveram maior valorização, estão os de empresas estatais, principalmente do setor elétrico, Petrobras e Banco do Brasil.

O comportamento de algumas ações importantes mostra a influência que as apostas eleitorais têm sobre o mercado de ações. Segundo levantamento da consultoria Economatica, que levou em consideração a variação dos papéis no dia anterior e no dia da divulgação de quatro pesquisas eleitorais (entre 17 de março e 29 de abril), a bolsa teve alta de 4,59%, enquanto a Eletrobras subiu 11,16%, seguida pelo Banco do Brasil (8,49%), Copel (8,18%), Petrobras (8,03%), Eletropaulo (6,99%), Cemig (6,45%) e Cesp (5,72%).

Nos pregões de quarta-feira e sexta-feira da última semana, pouco antes da pesquisa do Instituto Sensus ser divulgada, a subida na cotação destas ações continuou a ser observada: a Petrobras apresentou valorização de 6,22% nos dois pregões, enquanto a Copel subiu 5,29%; comportamento que confirma como a expectativa pré-eleitoral tem pontuado as apostas do mercado financeiro.

Se for considerado todo o período, entre 17 de março e 2 de maio, o valor das ações da Eletrobras saltou de R$ 7,82 para R$ 10,87, um aumento de 28,06%. Já os papéis da Petrobras passaram de R$ 11,82 para R$ 17,60, um aumento de 32,85%.

O impacto positivo já é registrado até em fundos de investimento que investem nestas ações. A categoria de fundos que têm em sua carteira ações que pagam bons dividendos, e que costumam ter ações de estatais na carteira, tiveram rentabilidade de 6,16% apenas nos últimos 30 dias quando, no ano, ela ainda é negativa em 1,14% e, nos últimos 12 meses, perdem 1,32%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Os investidores acreditam que uma mudança no cenário eleitoral pode ter efeito maior sobre estas empresas por conta de intervenções realizadas pelo atual governo, como a edição da Medida Provisória nº 579, em 2012, que reduziu a conta de luz e teve impacto na receita das empresas do setor elétrico; o congelamento dos preços dos combustíveis, que influenciou a operação da Petrobras; e a ordem para que bancos públicos, como o Banco do Brasil, baixassem as taxas de juros aos consumidores em 2012, quando houve queda da taxa básica de juros, a Selic.

Contágio é generalizado

O câmbio e os juros também são alvos de especulação em um momento pré-eleitoral, posto que uma mudança de governo poderia alterar políticas relativas aos investimentos.

O dólar, que se mantinha no patamar de R$ 2,35 desde novembro de 2013 até o dia 18 de março deste ano, iniciou um movimento de queda e vale agora R$ 2,24. Enquanto isso, as taxas futuras dos juros iniciaram uma queda mais contida. A maior oscilação pode ser observada nas taxas de juros mais longas, de dez anos, que passaram de 13,28% para 12,71% até 29 de abril.

Aposta mira ganho maior

Diante de uma atividade econômica menos robusta e taxas de juros mais altas, que dão maior rendimentos para investimentos em renda fixa, é natural que o mercado financeiro aposte onde pode ter ganhos maiores. Neste caso, nas estatais, cujas ações se desvalorizaram nos últimos anos.

Isso porque a alta recente de algumas das ações que sofreram maior interferência do governo nos últimos anos ainda está longe de compensar as perdas nos últimos anos. "Algumas ações do setor elétrico chegaram a cair 50% logo após o anúncio da MP 579", aponta Lenon Borges, analista do setor elétrico da corretora Ativa.

A Eletrobras, que reagiu de forma mais positiva à especulação, é vista por analistas como uma empresa que sofre maiores interferências políticas. Como não houve alterações significativas no setor elétrico no período, Borges acredita que 90% do movimento destas ações é especulativo e baseado nas eleições de outubro. "Quem está apostando em um cenário negativo para Dilma está ganhando".

Para o analista, o setor elétrico reage mais à queda de popularidade do atual governo não apenas porque registrou as maiores perdas, mas também a incertezas com relação a limitação de alta das tarifas. "Se o governo não consegue repassar todos os custos que o setor vem registrando para o consumidor, acreditamos que o governo tem de arrumar um jeito de financiar as empresas".

“É uma aposta, mas também um recado para que haja regras mais claras sobre preços administrados" (Karina Freitas, analista-chefe da corretora Concórdia)

É por isso que a analista-chefe da corretora Concórdia Karina Freitas acredita que as oscilações no mercado apontam também para um desgaste do mercado financeiro com o governo, bem como uma reação a interferências. "É uma aposta, mas também um recado para que haja regras mais claras sobre preços administrados, como o do combustível e o da energia elétrica".

Especulação é considerada precoce

Para o economista Antonio Madeira, da LCA Consultores, o simples fato de ter aumentado a probabilidade de outro candidato ganhar a eleição mexeu com o câmbio. Porém, o mercado agora aguarda mais resultados no cenário político. "Ainda há muito tempo até o período eleitoral. O momento é desfavorável para a presidente, mas pode ser revertido".

No mercado de juros, Madeira indica que é mais difícil que grandes oscilações sejam registradas, pois elas dependerão das políticas fiscais dos outros candidatos à presidência, que ainda não são conhecidas pelos eleitores. "Se for verificado que o candidato que deve ganhar irá combater a inflação de forma mais incisiva, as taxas mais longas poderiam recuar mais".

Karina, da corretora Concordia, acredita que as especulações no cenário político estão sendo decisivas para a performance da bolsa desde março. Porém, concorda que é cedo para apostas. "O mercado joga mais com a perda da popularidade do que a intenção de votos. Mesmo porque os eleitores ainda não conhecem o programa dos outros candidatos".

Para a analista, a Copa do Mundo, por exemplo, pode ter ainda um grande efeito sobre o resultado das eleições. "O evento tem influência sobre a satisfação da população. Precisamos aguardar".

Como consequência, a Concórdia mantém uma postura de cautela em suas ações recomendadas. "Por enquanto, apenas recomendamos ações de estatais que possam ter bons resultados no médio e longo prazo, e que sofram menor influência de resultados eleitorais". A corretora já tinha ações do Banco do Brasil em sua carteira de recomendações e incluiu, desde o início deste mês, papéis da Cemig.

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