Por marta.valim

O Banco Central fez ontem um esforço de comunicação com o mercado, agendando uma rara aparição de três dos seus oito diretores em eventos públicos que lhes permitiram fazer defesas enfáticas da eficácia da política monetária, que desde abril de 2013, já subiu a taxa básica de juros em 3,75 pontos percentuais para conter a inflação. 

A aparição simultânea dos seus principais diretores — o de Regulação e de Assuntos Internacionais, Luiz Awazu Pereira da Silva; o de Política Monetária, Aldo Luiz Mendes, e o de Política Econômica, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo — foi percebida pelo mercado como preparação para o fim do ciclo de alta da Selic, cuja taxa atual de 11% será avaliada em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no próximo dia 28. Mas a coincidência também abriu especulações sobre a sucessão do atual presidente do BC, Alexandre Tombini, em eventual nomeação para o Ministério da Fazenda, em mandato tampão até a eleição do novo governo.

“Não vou responder a essa pergunta. O presidente do Banco Central é Alexandre Tombini”. Assim o diretor Luiz Awazu Pereira respondeu a pergunta de um dos empresários da plateia lotada da sua palestra na Câmara de Comércio França Brasil ontem, em São Paulo. O questionamento foi o que ele mudaria, caso Tombini fosse para o lugar do atual ministro Guido Mantega — e ele assumisse a presidência do BC. Essa hipótese considera um aumento do desgaste da equipe econômica com o mercado com a aproximação das eleições presidenciais e por consequência o debate sobre a troca de comando para viabilizar a reeleição da candidatura da presidenta Dilma Roussef.

“Estou por fora dos bastidores. Mas Luiz Pereira é superpreparado para o cargo e, se ele fosse escolhido, teria aceitação imediata do mercado financeiro internacional e dos empresários estrangeiros. Ele é muito conhecido no exterior”, disse Louis Bazire, organizador do Observatório Econômico, ciclo de debates realizado mensalmente pela Câmara e presidente do Banco BNP Paribas. Bazire era um dos 69 presentes ao almoço realizado na Casa Saint Gobin, uma mansão no bairro nobre dos Jardins. Segundo os organizadores, o interesse pela palestra de Awazu deu “overbooking” — eram esperados 50 pessoas.

O presidente da empresa francesa dona da Telhanorte, Benoit d'Iribarne, é também presidente da Câmara França-Brasil. Entre eles, representantes de empresas francesas como Alstom e Crédit Agricole, do Bradesco e de escritórios de advocacia.

A palestra de Pereira, “Cenário Global e os Desafios para o Brasil”, aconteceu no mesmo dia em que outros dois diretores do BC também falaram em público - Aldo Mendes, de Política Monetária, que falou também em São Paulo para uma plateia de executivos de banco mergulhados em temas áridos como controle de riscos e alavancagem de capital, no encerramento de evento da International Capital Market Association (ICMA) realizada com o apoio da Anbima; e Carlos Hamilton, de Política Econômica, que falou em Fortaleza sobre dados econômico-financeiros regionais apurados pelo BC.

Com funções diferentes, perfis diferentes e falando para plateias diferentes, os discursos dos três deixaram claro um posicionamento em comum: passar a mensagem de que está tudo bem na economia. Para Eduardo Velho, economista-chefe da Invx Global Partners, a ofensiva de comunicação do BC é motivada pela próxima reunião do Copom, nos dias 27 e 28 de maio. 

Mas, além disso, o aumento da exposição dos diretores do BC também pode estar disfarçando uma disputa entre eles para ver qual atende melhor o perfil desejado para o comandante do BC no lugar de Tombini. Se a intenção for reforçar o foco no combate à inflação, Hamilton é uma boa escolha. Se o objetivo for atrair mais investimentos estrangeiros para o país, em um momento em que se fala em mais de meio trilhão de reais em leilões de infraestrutura, Pereira é o nome perfeito. Se a ideia for agradar ao sistema financeiro em geral, Mendes é o ideal.

Os perfis de cada um também podem contar pontos na decisão. “Pereira é brilhante. Muito qualificado — estudou nas melhores escolhas francesas, inclusive na Sorbonne — e muito sereno, costuma ser imparcial nas avaliações. É um verdadeiro privilégio para o setor público brasileiro ter alguém como Pereira nos seus quadros”, disse Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco. Qualificação, preparo e serenidade são muito importantes. Mas ao contrario do eloqüente Mendes, a timidez de Pereira é notável. Ao fim da sua palestra, em pé equilibrando uma xícara de café na mão, cercado por jornalistas, mais uma vez se recusou a responder perguntas. “Tudo o que importa está no discurso, uma cópia dele está no site do BC”. Durante a apresentação, fez varias citações eruditas e a outros economistas e pensadores da atualidade, brasileiros e estrangeiros.

Já Mendes demonstrou mais desenvoltura — mesmo falando de assunto que não é exatamente a sua “praia”. Começou logo explicando que pediu ajuda aos universitários” (colegas de outras áreas). Citou alguns nomes — entres eles não estavam os de Pereira nem de Hamilton. Conseguiu brincar mesmo sendo o tema tão árido – mudanças globais nas regulamentações do setor bancário. Mas assim como Pereira, saiu sem falar com a imprensa. Alias, foi ainda mais reservado, pois nem abriu espaço para perguntas da plateia.

Os três diretores não desperdiçaram suas chances de defender as ações do BC e de tentar agradar os públicos. Pereira disse que esta controlando a inflação acima da meta enquanto não consegue fazer convergi-la ao centro, “devido a pressões temporárias” — e voltou a afirmar que o ciclo de aperto monetário (alta dos juros básicos, a Selic) iniciado em abril do ano passado tem efeitos defasados mas logo vai surtir efeitos sobre os preços. “O Brasil não está condenado a ter inflação alta e crescimento baixo”, disse. Para aumentar a confiança e fomentar investimentos que o país tanto precisa para voltar a crescer, Pereira falou em dialogo e transparência na relação com os empresários e investidores.

Já Mendes disse mais de uma vez em seu discurso o quanto o BC brasileiro é conservador em relação a regras para estabilidade do sistema financeiro. “Estamos na vanguarda. Muitas das coisas que os países europeus estão discutindo desde 2008, em termos de regulamentação, já eram aplicadas aqui antes”. Mendes informou, contudo, que falta adaptar essas regras internacionais às leis brasileiras, e para isso precisamos discutir com o mercado. Até o fim deste mês, o BC coloca em audiência pública suas propostas para novas regras sobre liquidez dos bancos; até o fim do ano, deve sair a audiência pública sobre níveis de alavancagem, informou Mendes. Mas as regras para determinar quais as instituições locais devem ser enquadradas como “sistemicamente importantes” ficam para o ano que vem.

Em Fortaleza, Hamilton afirmou que "a demanda crescendo mais que a oferta é refletida nos preços", com inflação próxima a 6%."A absorção doméstica tem crescido mais que o PIB", ponderou. Outra consequência deste descompasso é o déficit de transações correntes. No ano passado, esse indicador foi equivalente a 3,6% do PIB. Contudo, ele demonstrou enxergar uma luz no fim do túnel: “Vejo uma tendência de redução desse saldo negativo das contas externas do país”.

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