Por marta.valim

Inflação arrefecida, consumo claudicante e indústria cogitando demissões apontam que o ciclo de alta da Selic começa a surtir efeito. Mas a fartura de indícios não tem sido suficiente para a construção de uma unanimidade nas projeções para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), entre 27 e 28 de maio.

Ainda há especialista acreditando em mais uma alta na taxa básica de juros. Até mesmo a proximidade do calendário eleitoral, vista como restritiva para a manutenção do ciclo, pode incentivar o Banco Central (BC) a aumentar o aperto monetário. Por trás dessa expectativa, está a reconstrução da credibilidade da instituição, arranhada pelo descaso com o centro da meta inflacionária (de 4,5%) durante os últimos anos.

“Temos hoje uma convergência entre o interesse político e o cálculo econômico. O que afeta mais o brasileiro atualmente é o preço das coisas. O BC se mostrar ativo no controle da inflação seria um trunfo eleitoral. Se os atores forem racionais, teremos mais uma subida”, cogita Marcos Fernandes, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Vejo o BC tentando recuperar sua credibilidade também”.

Na pesquisa Focus — consulta feita pelo BC com economistas - divulgada ontem, o consenso entre os especialistas foi a manutenção da taxa básica em 11% na próxima reunião. O resultado abaixo do esperado do IPCA de abril (0,67%) afastou o índice anualizado do teto da meta de 6,5% e deu mais argumentos para que o Banco Central pare de elevar a Selic neste mês. Nem isso faz Fernandes acreditar no fim do ciclo. “A fragilidade fiscal continua a forçar o BC a atuar de maneira restritiva. Nesse momento ele precisa ser mais real do que o rei, quase draconiano”. Apesar de ter recuado em relação à março (0,92%), o IPCA de abril foi o maior para esse mês desde 2011.

Fernandes conta que a sua expectativa para a decisão do Copom, de mais um ajuste de 0,25 ponto percentual, se encontra com a que acredita ser a melhor decisão para o momento. Isso nem sempre acontece. Alexandre Schwartsman, professor do Insper e diretor da consultoria Schwartsman & Associados não crê em novo aperto. “O ciclo já parou. Acreditava em mais uma alta de 0,25 ponto até o IPCA de abril vir abaixo do que esperava o mercado. Como esse BC reage à inflação de curto prazo, perdi a esperança”, conta o economista.

O consenso dos economistas ouvidos pelo Focus acredita em mais uma alta da Selic, de 0,25 ponto, no fim do ano, após o período eleitoral. Schwartsman também acredita na volta do aperto após as eleições. “O período eleitoral afeta bastante a minha previsão de que o ciclo se encerrou. O governo atual tem uma preocupação: ganhar a eleição. O resto é secundário. Não fosse isso, os preço da energia e da gasolina não estariam represados. A única coisa feia para esse governo é perder”, atacou.

Mesmo com a preocupação eleitoral, pelos cálculos de Schwartsman, a inflação romperá o teto da meta este ano.
Economista e professor da PUC-SP, Antônio Corrêa de Lacerda pensa diferente. O especialista acredita que o índice de preços perdeu volúpia com as doses de juros aplicadas desde abril do ano passado, que já somam 3,75 pontos percentuais. “O choque na Selic já foi dado. Estamos entre as maiores taxas de juros do mundo, em termos reais. Seria inócuo elevar a Selic de novo. Vai encarecer a dívida e desincentivar o investimento no momento em que mais precisamos dele, já que investir pode aumentar a oferta”, conta o professor. “Temos problemas de preço, como o dos alimentos, que não são afetados pela demanda”.

As vendas do comércio no Dia das Mães em 2014 parece corroborar a posição de Lacerda. A Boa Vista SCPC, que presta serviço de proteção ao crédito para lojistas, detectou crescimento de 2,7% no faturamento do comércio. O avanço é mais modesto do que registrado no ano anterior, quando as vendas saltaram 4,5% no comparativo.

Rodrigo Alves de Melo, economista-chefe da Icatu Vanguarda, também acredita em manutenção da Selic na próxima reunião. “Uso como base a comunicação recente do BC. Diretores têm falado sobre os efeitos defasados da política monetária e na última reunião mudaram um pouco a ata”, conta Melo, cuja gestora está entre as cinco instituições que mais acertam projeções do Focus. “O cenário da atividade econômica ruim começa a derrubar a confiança de empresários e consumidores também”.

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