Guia para esvaziar as expectativas

Na reunião do Copom dessa semana, com o consenso sobre a manutenção da Selic em 11%, novidade pode vir com orientação do BC sobre a trajetória futura da taxa de juros

Por O Dia

No momento em que os indicadores de crescimento econômico rateiam e a inflação perde volúpia, a dúvida para a reunião de amanhã do Comitê de Política Monetária (Copom) deixa de ser a Selic. Pelo consenso dos especialistas, a taxa básica de juros deve ser mantida em 11%, interrompendo o ciclo de nove altas iniciado em abril de 2013. Nos últimos dias, contudo, cresceu a curiosidade sobre qual será a comunicação do Banco Central (BC) após o encontro que termina na quarta-feira. É possível que o comunicado e a ata tragam orientações sobre a atuação futura da autoridade monetária, algo como uma indicação clara sobre o patamar da Selic até o fim do ano.

Essa estratégia, conhecida pela sigla em inglês forward guidance, esvaziaria as expectativas do mercado durante um período turbulento, com eleições no horizonte. Para Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners, a adoção da orientação futura pelo BC deixaria mais evidente não só a forma da autoridade monetária atuar como também a diferença entre o banco e outras partes da equipe econômica. “Essa administração do BC tem ideias modernas que encaminham o país para a vanguarda da política monetária, o forward guidance seria mais um exemplo disso. O problema é que o resto da administração não acompanha o passo do banco. O governo em geral precisa de reformas; isso ajudaria a conduzir a política econômica”.

O economista cita a Grã-Bretanha como exemplo. Após aproveitar um período de crescimento para fazer reformas, viu a economia voltar a se aquecer e então definiu forward guidances. O mais recente foi manter a taxa de juros em níveis baixos, mesmo com os sinais de recuperação se acumulando, já que a inflação persiste em patamar desconfortável, em torno de 0,5%. Pelas orientações de Mark Carney, presidente do Bank of England, a taxa permanecerá assim nos próximos 12 meses.

Há 10 dias, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tratou com simpatia o instrumento que adianta a atuação da autoridade monetária. “Em minha opinião, o forward guidance pode representar mais uma etapa no processo de aperfeiçoamento da comunicação dos bancos centrais, ao sinalizar com mais clareza a expectativa da trajetória da taxa de política”, discursou Tombini, durante o seminário que celebrava os 15 anos do regime de metas da inflação. O presidente notou ainda que, nos países que adotaram o instrumento, como o Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos, o forward guidance foi importante para controlar as expectivas.

Mas os especialistas destacam que o fundamental seria o BC sinalizar como pretende fazer a inflação chegar ao centro da meta de 4,5%. Sem deixar isso claro, apenas apontar a estabilidade do juro por um determinado período traria mais volatilidade, o contrário do que se espera dessa ferramenta.

“O forward guidance, nos países onde é usado pela autoridade monetária, costuma reduzir a volatilidade. Acho que qualquer mudança hoje seria mal encarada pelo mercado e não daria retorno direto para controlar a inflação, que está bem acima da meta”, afirma Eduardo Velho, da INVX. “Bom mesmo seria levar o índice aos 4,5% no prazo de um ano. Aí sim, outros instrumentos seriam bem recebidos. Apresentar a orientação futura nesse cenário seria saudável”.

Para Alexandre Schwartsman, economista que foi diretor do BC na década passada, não é o momento para a autoridade monetária estabelecer um forward guidance para a taxa de juros. “A única orientação futura que interessa no momento é o que será feito para trazer a inflação, hoje perto do teto, para o centro da meta. Falar em guidance para juro agora me parece um desvio de propósito inexplicável. É o motorista discutir a arrumação do porta-mala enquanto o carro desce a ladeira”.

Schwartsman vê qualidades no instrumento, que funcionou em países que enfrentaram a crise financeira mundial sem muito espaço para acelerar a economia, visto que estavam com a taxa de juros em níveis baixos. “A orientação futura foi bem-sucedida em economias que enfrentaram a armadilha da liquidez. Não é a situação do Brasil. Avisar que vai deixar o juro parado com a inflação em 6,5% trará volatilidade”.

Sidnei Nehme, diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, acredita que o forward guidance pode ser a oportunidade para o BC clarificar suas análises sobre o preço do dólar, ponto fundamental para o controle da inflação. “Com o consumo freando, a chave do que tem de ser feito a partir de agora está no câmbio, e sobre isso o BC não fala. No ambiente de Selic estacionada, se o dólar subir vai pressionar a inflação, já que a divisa barata segura os preços dos produtos importados”, explica.

Nehme vê o câmbio como pressão mais iminente na inflação por não acreditar que o patamar atual da moeda, que nos últimos dias tem se mantido em torno de R$ 2,2, será mantido nos próximos meses. “O apetite pelos contratos de swaps oferecidos pelo BC diminuiu quase à metade nos últimos dias. É um indicativo de que a demanda saiu do ambiente futuro, e irá para o mercado à vista”, aponta. Pelas contas de Nehme, o déficit no fluxo cambial acumulado no último ano, bem superior ao superávit de US$ 3,4 bilhões em 2014, deixou os bancos com US$ 14,7 bilhões em posições vendidas. “Mais importante do que dizer o que fará com os juros, é o BC começar a falar sobre o câmbio. Vejo o dólar se apreciando em 12% nos próximos meses. Quero saber se o BC vai usar as reservas para conter essa demanda”.

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