Por marta.valim
Maciel, do BC, acha que o juro ao consumidor, acompanhando a Selic, vai parar de subir, mas não agoraWilson Dias / ABR

Apesar do fim do ciclo de altas da Selic, anunciado na quarta-feira pelo Banco Central (BC), as consequências do aperto monetário continuarão afetando a economia, exatamente no momento em que diversos indicadores mostram piora na atividade e no consumo. Isso se deve à defasagem dos efeitos da política monetária, que ficarão mais intensos nos próximos meses, como adiantou o Conselho de Política Monetária (Copom) na ata do último encontro. Nesse cenário, analistas já prevêem que o próximo ciclo da Selic pode ser de corte, diferentemente do que era esperado nas últimas semanas.

Na divulgação da nota de crédito, ontem, o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, disse esperar que os juros praticados pelo mercado, seguindo a manutenção da Selic, parem de subir, mas não agora. “Sempre que tem uma mudança no ciclo, tem reação nas taxas ativas. Às vezes, não exatamente no mesmo momento. A tendência é que essa elevação das taxas de juros no ritmo que foi observado nos últimos 12 ou 13 meses não se mantenha”, disse Maciel. A estabilização nas taxas praticadas pelo mercado, entretanto, talvez chegue tarde para reativar a economia. Em abril, o juro bancário para a pessoa física, em 42%, estava no maior nível desde 2011, e o fluxo de crédito novo recuou 4% naquele mês.

Também indicando o menor apetite por consumo, 30,5% da renda das famílias está comprometida com pagamento de dívidas, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada ontem com números de maio, mês em que o Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M) apresentou deflação de 0,13%. A propensão ao consumo medida pelo Índice Nacional de Expectativa do Consumidor (INEC) também recuou no mês, se aproximando dos níveis de 2009.

“A avaliação pontual de qualquer indicador não é o suficiente para mudar a política econômica. É preciso analisar o comportamento desses números ao longo do tempo. Mas a combinação desses três indicadores adianta que o desempenho da economia nesse trimestre não está sendo satisfatório. A atividade está parando, e o BC olhou isso para parar com o aperto nos juros”, explica João Costa Filho, economista-chefe da Pezco Microanalysis. “O Copom sabe dos efeitos defasados da política monetária. A intenção do BC nesse momento é notar com qual velocidade isso acontece”, disse.

Tatiana Pinheiro, economista do Santander, concorda que os efeitos defasados devam ser medidos antes de qualquer nova movimentação do Copom. “O comitê na última ata, inclusive, disse que os efeitos das altas passadas ficarão mais intensos”.
A economista consegue identificar os primeiros passos de uma mudança na pauta de discussões sobre a Selic. Se há algumas semanas as projeções eram sobre quando ela voltaria a subir depois da iminente parada decidida na quarta-feira, ontem já havia colega especialista projetando que o próximo ciclo seria de cortes.

“No curto prazo, a discussão sobre política monetária vai ficar bastante focada no rumo da taxa básica. Acredito que a vertente que aposta no corte dos juros vai ganhar força com os dados que estão porvir”. A série, ressalta Tatiana, começa hoje com a divulgação do PIB do primeiro trimestre. “O crescimento da atividade nos primeiros três meses do ano deve vir fraco. Os próximos índices de inflação também serão muito importantes para medir o efeito defasado dos 3,75 pontos percentuais de aperto na Selic. Na ata da última reunião, o Copom adiantou que a maior parte do efeito ainda não chegou”, aponta.

Mesmo confiando na eficácia do aperto monetária para frear a atividade, Tatiana continua acreditando que o próximo ciclo será de aperto. “Consigo identificar que a atividade está fraca, afetada também pelas altas da Selic. Mas a política é de meta de inflação, e ela continua alta. Faz tempo que essa relação entre inflação e juro está se enfraquecendo”.

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