'A Iosco deveria ter poder de punir como a OMC', diz David Wright

O secretário-geral da organização, que reúne órgãos reguladores dos mercados de capitais no mundo, quer ter mais poder para combater operações irregulares nos mercados financeiros globais

Por O Dia

“O mercado está crescendo%2C mudando%2Ccom novos riscos. Precisamos de instituições fortes. As regras nunca vão impedir totalmente as fraudes e os riscos"%2C diz David WrightDivulgação

Madri, Espanha - O britânico David Wright, secretário-geral da International Organization of Securities Comission (Iosco), a organização que reúne mais de cem órgãos reguladores dos mercados de capitais no mundo, quer ter mais poder para combater operações irregulares nos mercados financeiros globais. A Iosco não faz regras, apenas discute princípios e estabelece padrões a serem seguidos pelas suas 125 associadas, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), no Brasil, e a Securities and Exchange Commission (SEC,) nos Estados Unidos. Segundo Wright, os ativos financeiros estão e continuarão cada vez mais migrando do setor bancário para o mercado de capitais, uma vez que as exigências em relação aos bancos só tendem a aumentar, tornando a atividade de emprestar dinheiro muito mais cara.

Quinta-feira, o secretário recebeu o Brasil Econômico na sede da entidade em Madri, na Espanha, pouco antes da abertura do encontro anual com cerca de 70 representantes de diversos países, associações e entidades do mercado financeiro — uma espécie de prévia da reunião global que neste ano será realizada em setembro no Rio de Janeiro.

Quais são os desafios e prioridades da Iosco neste momento? Qual será o foco das discussões na próxima reunião da organização, que acontecerá no Brasil? 

Nosso papel é garantir proteção aos investidores globalmente, para que problemas em um mercado não prejudiquem investidores de outro; é zelar para que as regras sejam claras e simétricas, para impedir arbitragens, limitar riscos. Estamos preocupados com várias questões, desde a regulamentação dos mercados derivativos, dos riscos dos “shadow banks”, com derivativos de balcão, com novos riscos como ameaças cibernéticas. Mas nosso poder é limitado, não fazemos regras, apenas discutimos princípios, fazemos recomendações, coordenamos debates, estabelecemos padrões. Mas eu acho pouco, acho que deveríamos ter o mesmo poder da Organização Mundial do Comércio (OMC) que leva a julgamento e pune casos de abusos no comércio internacional.

O senhor acha possível que isso aconteça?

Acho que infelizmente nunca vai acontecer. Eu posso convencer meus colegas no seu país, e em muitos outros — mas nunca convenceria os Estados Unidos. Para eles não interessa, nunca interessou ter uma instituição globalmente forte no mercado de capitais. Mas não digo que a Iosco deva se intrometer nos assuntos internos. Como o Brasil trata seus próprios investidores é uma questão soberana. Queremos ter mais poder sobre o ambiente para os investidores globais, porque são relacionamentos com grande potencial de contágio. Por isso chamamos de sistemicamente importantes. O valor adicionado global do sistema financeiro representa cerca de 8% do valor total. Mas eu me preocupo com o que esses 8% podem fazer aos 2% restantes da economia...

Por que dar poder de regulador à Iosco poderia ajudar? Mais regulação poderia impedir novas crises?

O mercado está crescendo, mudando, com novos riscos. Precisamos de instituições fortes. As regras nunca vão impedir totalmente as fraudes, os riscos, os lunáticos. Mas veja a Europa: os países aqui tem vários problemas, mas existem instituições fortes, como uma Comissão Europeia, que tem poder para aprovar leis, julgar e punir. Há dois anos, esperava-se uma catacombe aqui, o que não ocorreu. Além disso, está havendo uma mudança muito importante: o mundo bipolar, dividido entre Estados Unidos e Europa que ainda predomina no mercado financeiro e de capitais não vai durar muito mais tempo. Outros “cozinheiros” farão cada vez mais parte dessa cozinha, principalmente os de países emergentes como o Brasil. Ao mesmo tempo, os ativos financeiros estão e continuarão migrando cada vez mais do sistema bancário para o mercado de capitais. São duas grandes mudanças.

O que está determinando esses movimentos?

Em relação à migração, as crescentes exigências dos reguladores por mais capital nos bancos está tornando os financiamentos bancários cada vez mais caros, empurrando boa parte dos grandes negócios para os mercados de capitais. Com isso a Iosco vai ganhar um papel maior globalmente. No caso da maior participação dos emergentes, é a necessidade de financiamentos de longo prazo que vem empurrando o desenvolvimento dos mercados de capitais. O mundo financeiro esta mudando, de bilateral para multilateral. Isso é bom, mas também embute um risco de ficar muito fragmentado, de cada país acabar se fechando nas suas próprias regras e entendimentos... As 125 “CVMs” associadas à Iosco respondem por 95% do movimento no mercado de capitais global — e 7% dos associados já são de países emergentes. Em função disso é que a Iosco está também empenhada em dar seu apoio ao desenvolvimento dos mercados nesses países.

Em relação a derivativos, o que vem sendo proposto e o que já foi alcançado?

Nossa preocupação para trazer para a formalidade os chamados derivativos da balcão (“over the counter” ou OTC, na sigla em inglês). Hoje estimo que 67% das operações com derivativos já seja liquidada em “clearing”, com contraparte central, com mais garantias e margens de segurança. Nunca chegaremos a 100%. O problema é que não é possível padronizar todas as operações. Além disso, os dois maiores mercados, EUA e Europa, têm regras diferentes.

E sobre “shadow banks”? Por que preocupam a Iosco?

É uma questão de fato preocupante, porque é relativamente nova, e surgiu exatamente para driblar os custos e a regulamentação que cresceram após 2008. Hoje 40% do movimento financeiro está nas mãos dos “shadow banks”, bancos que vivem à sombra, à margem das regras. E essa parcela ainda vai crescer. E apesar das preocupações com o segmento na China, é na Europa e nos EUA que eles prosperaram mais. Precisamos acompanhar.

E o combate a fraudes?

Hoje elas ainda preocupam, mas eu diria que estão mais sob controle. Nesse front, a nova ameaça vem da internet. Fora isso, eu acho que todo candidato a presidente de banco grande, seja em países da Europa ou no Brasil, deveria fazer uma visita ao chefe da policia da cidade antes, para conhecer a realidade da cadeia. Se não andar na linha, cadeia nele. Sabendo como é a vida na cadeia, acho que pensaria duas vezes antes de roubar... Mas além dos fraudadores, há todo tipo de lunático, neófito e megalômano no comando de instituições financeiras, e muitos deles estavam por trás das que quebraram na crise de 2008. Outros, como Madoff, continuam aprontando por aí.

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