Dois anos depois da promessa histórica do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, de defender seu bloco monetário, há sinais de que os investidores em títulos estão ficando muito complacentes sob sua proteção.
Embora a promessa de Draghi, apoiada com a implementação de políticas sem precedentes, tenha mantido a zona do euro unida, o recente movimento dos preços sugere que ela também imunizou os investidores contra riscos. O rendimento médio dos títulos dos países mais endividados da Europa atingiu um recorde negativo nesta semana, mesmo depois da derrubada de um avião de passageiros na Ucrânia, da intensificação do conflito de Gaza e das penúrias financeiras do Grupo Espírito Santo de Portugal.
“Foi um exercício dos bancos centrais de insensibilização dos mercados”, disse Mark Ostwald, estrategista da ADM Investor Services International Ltd. em Londres, em entrevista por telefone em 23 de julho. “É uma complacência imposta, porque internacionalmente há uma liquidez enorme. Todos veem tudo como um problema localizado”.
Os mercados de títulos mostram que a promessa de fazer “o que for necessário” para proteger o euro, feita por Draghi em 26 de julho de 2012, foi o momento decisivo da crise da dívida da região. No dia anterior à mensagem, transmitida em um discurso em Londres, os rendimentos dos títulos espanhóis a dez anos tinham quebrado um recorde para a era do euro com 7,751%, acima do nível de 7% que levou os governos grego, irlandês e português a procurarem ajuda internacional.
Estímulo do BCE
Essas palavras, seguidas de um enfático “e acreditem em mim, isso será suficiente” e apoiadas por uma série de medidas de estímulo sem precedentes do BCE, alimentaram um rali nos títulos dos países mais endividados da Europa. Esse rali reduziu os custos de tomar empréstimos a dez anos da Espanha para o recorde de 2,524% hoje e possibilitou que a Grécia, a Irlanda e Portugal recuperassem o acesso aos mercados de capital.
A força do rali, e a fé no poder do apoio do Banco Central, é tanta que se manteve apesar dos choques geopolíticos e financeiros deste mês. A agitação nos mercados foi contida por um pacote de estímulo anunciado pelo BCE no mês passado, que incluiu cobrar uma taxa dos credores por deixarem seu dinheiro no BCE overnight e empréstimos baratos e específicos.
O rendimento médio até o vencimento de títulos da Grécia, da Irlanda, da Itália, de Portugal e da Espanha caiu para 1,8856%, o menor valor desde a formação do bloco monetário em 1999, segundo índices do Bank of America Merrill Lynch. Os títulos deram um retorno de 0,5 % em julho, prontos para seu 12° mês consecutivo de ganhos.
Reação silenciosa
A reação silenciosa a choques financeiros também pode incentivar os governos a voltarem atrás em seus esforços de reforma a fim de acalmar eleitores pressionados por impostos mais altos. Depois que partidos eurocéticos e antiausteridade avançaram nas eleições do Parlamento Europeu deste ano, os rendimentos ancorados dos títulos correm o risco de incentivar governos assediados a cancelar planos para reformar tudo, dos salários do setor público em Portugal ao endividamento da Itália. Isso iria contra os esforços dos funcionários para controlar as finanças dos países e evitar a ameaça da deflação.
Embora a promessa de Draghi possa acabar gerando complacência entre investidores e governos, o sucesso em preservar o bloco monetário é muito mais importante, segundo Stuart Edwards, gerente de recursos da Invesco Perpetual, com sede em Henley-on-Thames, a oeste de Londres. A empresa faz parte da Invesco Ltd., que possuía cerca de US$ 802 bilhões sob gestão em 30 de junho.
“Sempre existe o risco de que esses países se tornem complacentes ou de que exista uma pressão política interna sobre eles que retarde o processo de reforma – ou até mesmo o reverta –”, disse ele em entrevista por telefone em 22 de julho. “Mas havia um risco muito maior antes: o resultado catastrófico que teria acontecido se a zona do euro tivesse se dividido; ou se o statu quo vigente há alguns anos tivesse prevalecido”.