Fuga de investidores estrangeiros derruba ações da Petrobras

Empresa acumula queda de 40% na Bolsa de Nova York no ano, perda maior entre as petroleiras impactadas pela retração do preço do petróleo, refletindo efeitos da crise de governança da estatal

Por O Dia

Com um desempenho no mercado de ações bem pior do que suas concorrentes no mercado internacional este ano, a Petrobras enfrenta uma debandada de investidores estrangeiros, responsável por uma queda de 7,34% no valor de suas ações apenas nos dois primeiros dias da semana. Os efeitos da crise de governança da empresa se agravaram na segunda-feira, com o início de uma ação movida por minoritários na Justiça dos Estados Unidos, pedindo ressarcimento pelas perdas obtidas com investimentos na estatal. Analistas ouvidos pelo Brasil Econômico divergem sobre a evolução dos papéis no curto prazo, em um sinal do grau de incertezas que envolve análises sobre o futuro da companhia.

Em um ano, os ADRs (American Depositary Receipt) da Petrobras perderam 40% de seu valor, desempenho duas vezes pior do que o da britânica BP — entre as maiores petroleiras do mundo, a que mais sofreu no período. Com a queda abrupta dos preços do petróleo, todas as empresas do setor vêm registrando perda de valor de mercado mas, no caso da Petrobras, o movimento ganha intensidade à medida em que surgem novas medidas sobre os escândalos de corrupção. “A crise atual é a cereja do bolo, que confirma a desconfiança do mercado com os problemas de governança na companhia”, diz Bruno Piagentini, analista da corretora Coinvalores.

Ele evita fazer projeções de curto prazo para a companhia e recomenda aos seus clientes que não mudem suas posições, embora reconheça que os papéis estão sendo negociados em um patamar muito baixo — 0,4 vezes o valor patrimonial. “Quem tem ação e olha para longo prazo, mantenha. Quem não tem, não compre. É difícil prever um piso, porque não sabemos o que vai sair das investigações, quais são os números do balanço do terceiro trimestre e se haverá mudanças nos planos de investimento”, argumenta.

A ação movida por minoritários na Justiça dos Estados Unidos adicionou um novo fator de incerteza, dado o risco de pagamento de indenização aos minoritários. “Dependendo do número de instituições envolvidas, pode ser uma ação bilionária”, diz o advogado André de Almeida, que representa no Brasil o escritório autor da ação, Wolf Popper. Por enquanto, o processo congrega 10 fundos de investimento, mas há um prazo de 60 dias para a adesão de novos investidores. Os minoritários alegam que a Petrobras vem reiteradamente, divulgando informações fraudulentas, ao omitir a corrupção e seus efeitos sobre as finanças da companhia.

“É um papel para ficar de fora neste momento”, diz um gestor que prefere não ser identificado. “As ações não estão no fundo do poço, podem cair ainda mais à medida em que esse processo se desenrole na Justiça americana”, completa. Segundo ele, o grosso das vendas de ações esta semana — na qual os papéis acumulam queda de 7,34% — foi provocada por estrangeiros, com o aumento da aversão ao risco da empresa, em particular, e de mercados emergentes, em geral. “Por enquanto, não tem ninguém voltando, dado o nível de incerteza. Só vamos ter uma ideia mais clara no início do ano”, concorda Piagentini.

Na contramão deste movimento, o Deutsche Bank iniciou sua cobertura de Petrobras no fim de novembro com recomendação de compra, diante da evolução dos dados de produção de petróleo da companhia. “A performance operacional deve ocupar espaço central na análise de investimento da Petrobras, dado que as preocupações com os preços internos dos combustíveis se reduzem com a queda dos preços do petróleo e da necessidade de importações”, dizem analistas do banco, em relatório. Por este motivo, dizem analistas, as ações da Petrobras deveriam estar subindo com a queda das cotações do petróleo, e não em um desempenho inferior a seus pares internacionais.

A queda das cotações do petróleo para a casa dos US$ 60 por barril derrubou as ações de todas as principais petroleiras do mundo. Entre o dia 31 de dezembro de 2013 e a última terça-feira, as ações da Shell, da Exxon, da Total e da Chevron caíram 7,96%, 9,39%, 11,67% e 14,5%, respectivamente. Parte delas considera rever projetos no médio prazo, para adequar seus planos de investimentos ao novo cenário de oferta e demanda no mercado internacional.

Últimas de _legado_Notícia