Expectativa de alta de juros nos EUA leva dólar a R$ 2,68

Investidores buscam a proteção da divisa americana, enquanto aguardam a sinalização do Fed na quarta-feira sobre o momento em que novo ciclo de aperto terá início

Por O Dia

As moedas dos países emergentes despencaram ontem, com o rublo russo atingindo mínima histórica, a lira turca caindo 1,35%, o dólar australiano perdendo 0,30%, com pior cotação desde 2010. O real não ficou de fora da onda baixista, com desvalorização de 1,29% cotado a R$ 2,6853.

Além da queda do preço do petróleo — e no caso do Brasil, das incertezas internas em relação à política cambial da nova equipe econômica da presidente Dilma Roussef — a pressão sobre o câmbio reflete a expectativa em relação a decisão do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Na reunião que termina amanhã em Washington, a autoridade monetária pode sinalizar uma mudança crucial, ampliando espaço para o início do ciclo de aperto monetário, afetando diretamente os movimentos no mercado global.

A reação defensiva dos investidores globais reflete a expectativa de que o Fed, amparado pelo fortalecimento da economia e pela evolução do mercado de trabalho, sinalize a alta dos juros para o primeiro semestre de 2015 ao retirar o termo "tempo considerável" de sua ata, apesar da inflação abaixo da meta e da estagnação da economia na Europa e na Ásia.

Para o diretor de Regulação e de Assuntos Internacionais do Banco Central, Luiz Awazu Pereira da Silva, que participou de evento no Rio de Janeiro momento é delicado, e vai exigir que Banco Central brasileiro seja “especialmente cauteloso” em virtude do “momento complexo das economias internacionais”. Segundo ele, o cenário é delicado, com recuperação dos Estados Unidos em oposição aos problemas enfrentados na Europa e no Japão, cujas economias teimam em não crescer apesar dos estímulos, e da China, que deve fechar o ano com a pior expansão desde 2010.

Essa assimetria está levando o economista americano, prêmio Nobel de 2008, Paul Krugman a desafiar o consenso dos especialistas. Krugman acha improvável a elevação dos juros em 2015, devido a dificuldade dos EUA em impulsionar a inflação em um cenário de crescimento global lento e queda na cotação do petróleo.

“Quando chegar a hora da verdade, eles (os membros do Fed) vão olhar e dizer: ‘a economia mundial lá fora está bem fraca, nós não vemos nenhuma inflação e o risco de elevarmos as taxas e acabarmos nos enganando é simplesmente enorme’”, disse ele. “Certamente existe uma possibilidade real de que eles sigam em frente e façam isso, mas provavelmente não o farão, e como isso é importante, eu e outras pessoas estamos tentando convencê-los a não fazerem”.

Recentemente, em artigo, o economista afirmou que o Fed corria o risco de “deixar-se convencer a fazer a coisa errada” aumentando as taxas de juros prematuramente.

Para alguns membros de peso do Fed, incluindo o vice-presidente, Stanley Fischer, e o presidente do Fed de Nova York, William C. Dudley, a expectativa é de que a queda do petróleo impulsione o consumo doméstico, o que pressionaria os preços, ao invés de empurrar a inflação mais abaixo da meta de 2% do banco central.

“Há provas muito contundentes de que os EUA ainda são uma economia muito deprimida”, disse Krugman, durante uma apresentação sobre o estado da economia mundial em Dubai. Segundo o economista, a perspectiva para o crescimento econômico global poderá se deteriorar em 2015, com os riscos de crises na China e na zona do euro, pois o Banco Central Europeu (BCE) não consegue evitar a deflação e a segunda maior economia do mundo apresenta dificuldades para reforçar a demanda doméstica.

E enquanto o Fed discute a possibilidade de iniciar o aperto, na zona do euro, a batalha em torno da flexibilização quantitativa está quase ganha, dizem os economistas.

Mais de 90% dos consultados na pesquisa mensal da Bloomberg previram que o BCE começará a aquisição de bonds do governo em grande escala no ano que vem, frente a 57% no mês passado. O mais provável é que um anúncio seja realizado no primeiro trimestre.

A campanha do presidente Mario Draghi para encurralar os dissidentes contra mais estímulos está adquirindo maior urgência. O desmoronamento dos preços do petróleo ameaça empurrar a economia de 18 países para uma deflação, e os bancos estão mostrando pouco apetite para usar o dinheiro barato do Banco Central a fim de impulsionar o crédito.

“Com certeza o BCE vai ampliar a magnitude das políticas expansionistas, é só questão de escolher um momento”, disse Duncan de Vries, economista do NICB Bank NV em Haia. “O BCE continuará sob muita pressão para proteger sua credibilidade e cumprir a missão de estabilizar os preços”. 

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