Depois de ano fraco, empresas reabrem apetite para captar

Número de operações com títulos domésticos de renda fixa surpreendeu positivamente em dezembro, mas balanço do ano passado ficou estável; expectativa é de realizar este ano investimentos reprimidos em 2014

Por O Dia

São Paulo - Depois de represar ao longo de 2014 os investimentos, as empresas já começam a dar sinais de que irão se preparar para quando a economia encontrar novamente o trilho do crescimento. Apesar do ritmo menos intenso observado em todo o ano de 2014, o volume de operações com títulos domésticos de renda fixa surpreendeu positivamente em dezembro.

No mês passado, o total das ofertas no segmento de dívida alcançou R$ 18,1 bilhões, ante R$ 16,6 bilhões no mesmo período de 2013. O destaque ficou para as debêntures, que chegaram a R$ 9,1 bilhões — o segundo maior volume mensal de 2014, atrás apenas do resultado de junho, de R$ 11,5 bilhões e abaixo dos R$ 8,6 bilhões de dezembro 2013, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Também contribuíram para o bom resultado do mês as captações com notas promissórias, de R$ 5,7 bilhões, e as de Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRIs), de R$ 3,4 bilhões, ambos os maiores volumes mensais de 2014 para cada um destes instrumentos. No ano, a expansão no segmento de dívida foi de 7,6%, para R$ 141,7 bilhões.

De acordo com sócio na área de mercado de capitais da TozziniFreire Advogados Alexei Bonamin, as empresas que ficaram em ‘stand by’ ao longo do ano passado, em razão das incertezas sobre o rumo da economia e também sobre o desfecho eleitoral, começaram a voltar ao mercado. Bonamin revela que do Natal até a primeira semana de janeiro o escritório já liquidou operações de Certificado de Recebíveis do Agronegócio CRA), de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), uma emissão de debêntures e uma de Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI).

“Fora isso, estamos discutindo novas propostas de CRA, CRI e debêntures. O volume de negócios no início de janeiro já é maior que o verificado no início de 2014, mas menor do que os de 2013 e 2012”, diz, ressaltando, ainda, que o movimento é bastante positivo. “É uma notícia animadora para o começo de ano, principalmente porque estamos passando por um processo de ajustes fiscais. Além disso, algumas emissões estão tendo os seus ratings revisados. Tudo isso cria um cenário de instabilidade”, diz.

De acordo com o executivo, há um grande apetite por papéis incentivados, como as debêntures de infraestrutura. “Estamos discutindo três mandados neste segmento”, diz. No entanto, ele pondera que embora a expectativa seja de um maior número de debêntures, as empresas só irão a mercado se encontrarem taxas interessantes.

Além disso, Bonamin acredita que as emissões relacionadas a alongamento de dívidas devem crescer de forma significativa este ano, mas não deve superar as de investimentos. “Acho que as emissões de repactuação de dívida serão maiores que a do ano passado. Setores com dificuldades, como o de construção e o sucroalcooleiro devem optar por essa alternativa”, diz. No entanto, ele avalia que as taxas devem ficar um pouco mais pesadas dentro deste contexto, mas, por outro lado, as empresas podem conseguir um alongamento nos prazos.

O sócio da área bancária e financeira da Veirano Advogados Alberto Bragança também concorda que há uma demanda reprimida que deve ser colocada para fora este ano. No entanto, ele estima que o movimento deve começar somente a partir de março, após o governo ter anunciados as medidas que irá adotar para estimular o crescimento da economia.

“Depois das medidas econômicas divulgadas o empresário pode ter um estímulo. A captação de debêntures é sempre importante, há chances de incremento neste segmento”, diz, ressaltando ainda que este é um caminho necessário para o empresário que não quiser ficar de fora quando a economia voltar a crescer. “As empresas vão precisar fazer mais investimentos. Dois anos de não investimento é um período muito longo. Já enfrentamentos inúmeros momentos difíceis e as empresas não vão parar”, avalia.

O sócio do setor societário da Siqueira Castro Advogados Leonardo Cotta Pereira, acredita que o setor de infraestrutura deve demandar várias operações com debêntures. “Existe um gargalho na infraestrutura. O setor vai ter muitas emissões de debêntures considerando, tenho visto o interesse das empresas em emissões nesta área. Muito projetos que o Brasil pretende embarcar são desta área”, diz.

De acordo com a Anbima, as debêntures foram os papéis mais usados para captação de recursos em 2014. Foram R$ 70,6 bilhões captados em 255 emissões durante todo o ano, representando cerca de 58% do total de emissões de renda fixa no mercado doméstico. Os prazos dos títulos, no entanto, foram reduzidos, tendo passado de 5,8 anos em 2013 para 5,3 anos em 2014.

Segundo a diretora da Anbima, Carolina Lacerda, a diminuição já era esperada pelo mercado. “É comum que em cenário de taxa de juros muito alta as corporações optem por captar em prazos mais curtos, com a visão de que voltem a captar em prazos mais longos em um futuro com um cenário menos volátil”, diz.

“Também podemos observar essa preferência por emissões de prazo mais curto pelo aumento do volume captado por meio de notas promissórias,” explica. O volume de debêntures de infraestrutura chegou a R$ 4,3 bi, 29,5% inferior ao montante emitido em 2013 (R$ 6,1 bilhões).

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