Por monica.lima
São Paulo - As investigações sobre irregularidades em contratos da Petrobras, que envolvem também as maiores construtoras do país, estão afetando seriamente os bônus da empresa negociados no exterior — e segundo analistas, a tendência é se alastrar. Ou seja, a insegurança dos investidores deverá ser estendida a outras empresas tanto dos setores de energia quanto de construção, assim como afetar a própria percepção de risco do Brasil — portanto, de papéis de outras empresas que negociam no mercado financeiro internacional.
Os US$ 3,5 bilhões em notas da Petrobras com vencimento em 2023 caíram 11% nos últimos três meses com vencimento em 2023 enquanto os rendimentos subiram 1,71 ponto porcentual, para 6,72%, no período. Ontem, ofereciam aos investidores 2,8 pontos porcentuais de rendimento extra em relação à dívida soberana brasileira do mesmo prazo - mais de duas vezes o nível de quando os papéis foram emitidos, em 2013, segundo a Bloomberg. Os spreads dos Credit Default Swaps brasileiros também subiram de 197 em janeiro do ano passado para 206 ontem, indicando que a confiança dos investidores estrangeiros no país também piorou.
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Tony Volpon, diretor executivo e chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes das Américas da Nomura Securities International em Nova York, o mercado está com um pé atrás em relação a Petrobras, ao setor e a todas as empresas ligadas a ela — e um pouco sobre o próprio Brasil. Com isso, o mercado está desfavorável não apenas a novas captações mas a rolagens de títulos de empresas brasileiras no exterior que estão vencendo. “Algumas já fizeram hedge e agora é mais negócio comprar dólar físico para quitar as obrigações, já que a rolagem não está atraente”, diz. “As notícias são ruins, com inflação ainda em alta e crescimento fraco. Mas apesar disso alguns investidores que estavam muito pessimistas com o Brasil nos últimos dois anos já começam a confiar que o novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, consiga resolver a questão fiscal”, afirma. No entanto, o ambiente desfavorável às captações agora vão prejudicar empresas bem no momento em que elas mais precisam captar: “Tradicionalmente o começo do ano é quando investidores colocam o dinheiro para trabalhar, é a hora dos investimentos - e portanto também um período de muita emissão de bônus. É quando os compradores compram e os vendedores vendem”, diz.
“A Petrobras criou um problema institucional enorme para o país. As construtoras estão paradas, pois parou o fluxo de pagamento para essas empresas. A OAS não pagou rendimentos dos bonds para investidores, por exemplo”, lembra. “Isso tudo gera incertezas e é natural que o mercado peça prêmio maior. O problema vai afetar crescimento total do país”, afirma Celson Placido, estrategista-chefe da XP Investimentos. Ele também ressalta que sem apresentar balanço a empresa, altamente endividada, não pode captar mais recursos e pode até perder o grau de investimento. “O caixa da Petrobras acaba em abril ou maio. A venda de blocos de exploração do pré-sal vai acontecer no no pior momento para a empresa que, de quebra, como não apresentou balanço vê seu custo de captação crescer - o que puxa o custo de outras empresas brasileiras com negócios com a Petrobras, diz. Além disso, o especialista da XP lembra que as emissões são em dólar, que também está subindo.
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Há quem considere a hipótese de socorro do governo pouco provável. É o caso de Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para a América Latina, que disse à Bloomberg ontem que o governo pensará duas vezes antes de ajudar a Petrobras em um momento em que sofre pressão para reduzir o déficit no orçamento, o maior em 11 anos.
O pessimismo contudo não é compartilhado por todos os analistas. “O apoio do governo permitirá que a Petrobras, maior produtora de petróleo em águas profundas, financie suas operações até que a resolução de uma investigação de corrupção permita que a empresa tome empréstimos nos mercados internacionais novamente”, disse Omar Zeolla, da Oppenheimer à Bloomberg. Segundo ele, o Brasil poderia oferecer “garantias de dívida, entre outras coisas, para tornar mais fácil para a empresa a tarefa de obter financiamento”.
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Zeolla admite que a diferença entre o que estão pagando os papéis da Petrobras e os juros dos títulos soberanos é muito ampla. “Mas quando as coisas começarem a se tornar um pouco mais claras, as notas começarão a ser negociadas a um nível melhor”.
Por e-mail, a presidência do Brasil informou que preferia não realizar comentários a respeito do apoio do governo à Petrobras, empresa controlada pelo Estado. A Petrobras não respondeu a um pedido para comentar o apoio do governo e o desempenho de seus bonds. A empresa tem nota Baa2 pela Moody’s.
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