Por parroyo
Risco de racionamento de energia, agravamento da crise hídrica no Sudeste e os impactos da corrupção na Petrobras formam o conturbado cenário do ambiente de negócios do Brasil. O principal índice da Bolsa, como não poderia deixar de ser, reflete tais incertezas e termina o primeiro mês do ano com queda acumulada de 6,20%. De acordo com analistas, a expectativa é que a tendência vendedora ganhe ainda mais força nos próximos pregões.
Na sexta-feira, o Ibovespa terminou em queda de 1,79%, aos 46.907 pontos, e perdeu a importante resistência dos 47.350 pontos. “O movimento reafirma o viés de baixa e abre espaço para o índice cair até os 45 mil pontos”, afirmou o analista da Clear Raphael Figueiredo. As ações da Petrobras foram as principais vilãs da Bolsa nas últimas cinco sessões. Após a empresa decepcionar o mercado ao não apresentar as perdas contábeis referentes à corrupção no balanço, as ações derreteram. Na sequência, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou todas as notas de crédito da estatal e os papéis caíram ainda mais. No ano, os papéis preferenciais (PETR4) acumulam queda de 18,36% no ano.
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“O assunto Petrobras ainda está longe de ser resolvido. Provavelmente o mercado vai pressionar para que as baixas contábeis referentes à corrupção sejam apresentadas junto com os números do quarto trimestre”, pontuou Figueiredo. Já a corretora Planner, em nota aos clientes, afirmou que “a redução do rating seguramente vai impactar os custos de captação de dívida, elevando as despesas financeiras no futuro, o que reduz o lucro e os dividendos a serem distribuídos aos acionistas”.
Os desdobramentos das adversidades na estatal, assim como as notícias referentes à crise hídrica em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e a discussão sobre a possibilidade de racionamento de energia vão centrar a atenção dos investidores, de acordo com o economista da Guide Investimentos, Ignácio Crespo. “O baixo nível dos reservatórios deve afetar o desempenho da economia este ano. Tudo indica que o Boletim Focus, a ser conhecido na segunda-feira, traga projeção negativa para o PIB em 2015”, disse.
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A agenda de indicadores econômicos traz, ainda no fim de semana, a divulgação do Índice Gerente de Compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria e do setor de serviços da China. “Espera-se que a indústria do país asiático mostre fraqueza, o que deve levar um viés negativo aos papéis ligados às commodities”, disse Crespo.
Entre os indicadores domésticos, o destaque fica para a produção industrial de dezembro, a ser conhecida na terça-feira. De acordo com projeção da consultoria LCA, a atividade deve mostrar recuo de 2,7% na comparação mensal. Já na sexta-feira, a inflação oficial de janeiro será conhecida e a LCA projeta aceleração de 1,23% em relação a dezembro, quando o indicador variou 0,78%. “O próprio Banco Central reconhece que a inflação será forte no primeiro trimestre, em grande parte como reflexo da alta dos preços administrados”, lembrou Crespo.
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Na agenda norte-americana, as atenções devem se voltar para os números do mercado de trabalho – na sexta-feira, será divulgado o relatório geral de emprego referente a janeiro. O indicador é utilizado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) como um importante parâmetro que baliza a decisão da data de início do aperto monetário.
No quarto trimestre, o PIB do país cresceu 2,6%, mas mostrou desaceleração em relação ao período anterior, quando havia subido 5%. Esse dado, somado à queda nos salários verificada em dezembro, leva os agentes do mercado a apostarem em uma alta de juro somente no segundo semestre, em detrimento das apostas anteriores de que o ajuste aconteceria até junho.
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“A economia dos Estados Unidos está titubeando. As incertezas podem levar a autoridade monetária a adiar a escalada dos juros para o fim do ano. Acredito ainda que existem 30% de chances de acontecer somente em 2016”, avaliou o diretor de pesquisas da GO Associados, Fabio Silveira.
Em meio ao complicado cenário para o ambiente de negócios no Brasil, Figueiredo acredita que o compasso de espera nos EUA é um fator positivo. “Enquanto os Estados Unidos adiam a data do aperto monetário, os recursos continuam migrando para os países emergentes e principalmente para o Brasil, que oferece uma taxa de juro atrativa. Isso mantém a liquidez e nos dá fôlego para fazer as mudanças necessárias para retomar a trajetória do crescimento da economia”, disse o analista da Clear.