Cenário econômico não traz boas perspectivas para a Bolsa

Dados econômicos ruins, risco de racionamento de energia e incertezas sobre Petrobras e seus fornecedores afetam os negócios no mercado de capitais

Por O Dia

São Paulo - As perspectivas do mercado de capitais do país, que já não estão boas, podem ficar ainda piores. Dados econômicos ruins, risco de racionamento de energia e sobretudo as incertezas sobre a evolução da crise da Petrobras desenham um cenário ruim para os negócios na BM&FBovespa, com o investidor fugindo de mais perdas.

Em janeiro, o segmento Bovespa movimentou R$ 133,30 bilhões, registrando uma queda de 14,7% ante R$ 156,22 bilhões registrados em dezembro. Com isso a média diária foi de R$ 6,34 bilhões, numa queda ainda mais acentuada de 18,8% na comparação com os R$ 7,81 bilhões do mês anterior. O valor de mercado (capitalização bursátil) das 362 empresas com ações negociadas na BM&FBovespa ao final do mês passado, atingiu R$ 2,13 trilhões, o que representa recuo de 4,9% sobre o mês anterior. Em dezembro, esse valor foi de R$ 2,24 trilhões, referente a 363 companhias.

Para o diretor de renda fixa e multimercados da SulAmerica Investimentos, Marcelo Saddi, é difícil falar em cenário promissor para a Bolsa. “É um mercado desafiador. Tem oportunidades? Lógico, que tem. Mas, no curto prazo o cenário é nebuloso. No médio prazo, pode melhorar”, diz. Saddi lembra que a Bolsa tem peso grande do setor financeiro e ainda é cedo para saber se a questão do crédito pode pesar nos bancos e também no Ibovespa. “Tem a questão do crédito. Não sei como vai ficar. Vamos esperar clarear. Sempre vai haver a dúvida se pode cair mais ou não”, diz.

A indicação de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, para assumir o comando da Petrobras ajudou a pressionar ainda mais a Bolsa para baixo. O anúncio não não foi bem recebido pelo mercado, que esperava um nome que entendesse de gás e óleo e, principalmente, com distanciamento político. Nenhuma das duas opções foi contemplada e o resultado foi mais um dia de forte queda para os papéis da petroleira, que acabou arrastando o Ibovespa para baixo também.

O principal índice da Bolsa encerrou a sexta-feira com queda de 0,9%, aos 48.792 pontos. Na semana, o Ibovespa subiu 4,01%. Já as ações da Petrobras encerraram o dia com recuo de 6,94% a preferencial e 6,52% a ordinária. Na semana, os papéis conseguiram acumular ganhos de 11,49% e 12,31%, respectivamente, refletindo a renuncia da ex-presidente Graça Foster e cinco diretores.

Para o estrategista da Guide Investimentos Luis Gustavo Pereira, a Petrobras continuará sendo a principal preocupação dos investidores. “A corrida contra o tempo continua. A empresa ainda tem que cobrir uma série de obrigações junto aos credores. O balanço tem que sair até meados de maio para evitar uma recompra automática de dívida”, lembra.

Pereira ressalta que o nome de Bendine ficou muito distante da expectativa construída pelo mercado. “O mercado via nomes com grande reputação que poderiam dar um choque de credibilidade na empresa. Ele tem um lado político grande e a independência esperada para a estatal sofreu um retrocesso”, afirma.
O estrategista ressalta que não há como separar os temores que pesam sobre a estatal do Ibovespa. Ele lembra que a empresa é extremamente relevante quando se olha para o Brasil e a cadeia de negócios da Petrobras responde por cerca de 25% dos investimentos do País. “Essa situação influencia a economia como um todo e pode chegar a outros setores, como os bancos que têm grande exposição em Petrobras”, diz, lembrando ainda que além da petroleira, a Bolsa ainda deve sofrer com o racionamento de energia e a queda das commodities. “No curto prazo, a Bolsa vai ficar reticente”, diz.

Segundo o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Plácido, o governo perdeu uma grande oportunidade de trazer credibilidade, assim como fez quando nomeou o ministro Joaquim Levy para a Fazenda. “O governo poderia ter esperado um pouco mais para anunciar o novo presidente da Petrobras”, diz, ressaltando que a falta de credibilidade é mais um ingrediente para agravar “o nosso mercado de capitais”. “Além disso, a Bolsa está cheia de fatores negativos. Racionamento de energia que, se confirmado, irá impactar o PIB e podemos ver uma recessão”, diz.

Plácido avalia ainda que o fato de o preço das ações estar barato não é suficiente para atrair o investidor. “A questão agora é falta de credibilidade. Não acho que só preço baixo vai trazer de volta o investidor. O investidor segue conservador. O mercado vai seguir volátil”, diz. A BM&FBovespa informou que o volume de negócios realizado na Bolsa em janeiro recuou.

Na semana passada, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu mais três processos para analisar informações da Petrobras, passando agora a acumular nove processos. Dois foram abertos na segunda-feira passada. Tudo indica que o primeiro, requerido pela Superintendência de Relações com Empresas (SEP), visa investigar informações do balanço divulgado com atraso e sem o aval da auditoria. Outro, aberto a pedido da Gerência de Orientação aos Investidores 2 (GOI-2), é baseado em reclamação de um investidor. O terceiro, também requerido pela SEP, foi aberto na quinta-feira e diz respeito à renúncia de Graça Foster e dos cinco diretores.

Na sexta-feira, superando as ações da Petrobras na ponta negativa do Ibovespa, os papéis da companhia de educação Kroton caíram mais de 10%, a R$ 10,25. No sentido oposto, a América Latina Logística (ALL) subiu 4%.

Com Mariana Pitasse

Últimas de _legado_Notícia