Por parroyo

O dólar fechou em alta de mais de 2% nesta terça-feira, na máxima em mais de dez anos, refletindo o estresse do mercado com a possibilidade de a Grécia deixar a zona do euro e com a desaceleração econômica da China.

Embora parte dos fatores que vêm pressionando a divisa norte-americana nos últimos dias tenham origem nos mercados externos, a deterioração dos fundamentos macroeconômicos brasileiros, dúvidas sobre o futuro da Petrobras e fatores técnicos garantiram que a pressão cambial fosse mais intensa aqui.

O dólar subiu 2,12%, a R$ 2,836 na venda, maior nível desde 1º de novembro de 2004, quando fechou negociado a R$ 2,85. Na máxima da sessão, a divisa alcançou R$ 2,839. "As moedas emergentes têm sofrido de maneira geral, mas o cenário da economia brasileira está muito deteriorado", resumiu o operador de câmbio da corretora Correparti João Paulo de Gracia Correa.

Segundo ele, a volatilidade recente do câmbio tende a provocar saída de capitais externos. "Aquele estrangeiro que entrou aqui para ganhar juros quando o dólar estava a R$ 2,65 acabou perdendo dinheiro."

Nesta sessão, as preocupações com a fraqueza da economia da China, importante parceiro comercial do Brasil e referência para investidores em mercados emergentes, foram corroboradas por dados que mostraram que a inflação ao consumidor chinês atingiu em janeiro o menor nível em cinco anos.

O número alimentou o mau humor dos investidores internacionais, já afetado pelo temor de que o impasse entre a Grécia e seus credores force o país a sair da zona do euro, o que poderia enfraquecer ainda mais a economia global.

"Parece haver algum movimento na posição grega que ainda pode formar as bases para um acordo", escreveram analistas do Brown Brothers Harriman em relatório. "Dito isso, os credores oficiais não parecem ter aliviado suas exigências em nada."

No front doméstico, as crescentes expectativas de estagnação econômica e inflação de mais de 7 por cento em 2015 somavam-se às preocupações com o futuro da Petrobras, após a nomeação de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, para comandar a estatal.

Mais cedo, a Verde Asset Management, maior hedge fund do Brasil, divulgou relatório em que defende que a deterioração dos fundamentos macroeconômicos do Brasil ainda não se refletiu completamente no preço do câmbio, projetando mais valorização do dólar.

O mau humor com os fatores internos era corroborado ainda pelas crescentes dúvidas sobre a capacidade do governo de promover um ajuste fiscal significativo neste ano, em meio à crescente oposição às medidas que vêm sendo adotadas pela equipe econômica, encabeçada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

"O problema é que as expectativas de melhora na política econômica estão perdendo força", disse o economista da 4Cast Pedro Tuesta. "Se o apoio político deixar de existir, pode haver um downgrade (da classificação de risco soberano) à frente", acrescentou.

Bolsa

O principal índice da Bovespa fechou em queda nesta terça-feira, pressionado principalmente pelas ações da mineradora Vale e da Petrobras, conforme permanecem incertezas sobre o balanço auditado e o rumo da petroleira após troca de comando.

O Ibovespa caiu 1,77%, aos 48.510 pontos, após avançar 0,84% na máxima do dia. O volume financeiro do pregão alcançou R$ 6,2 bilhões.

Os papéis da Petrobras chegaram a subir 5,6% na primeira etapa dos negócios, ampliando os ganhos da véspera, em uma manhã com noticiário intenso sobre a empresa, incluindo cenários para a publicação do balanço auditado. Mas o fôlego não durou e as preferenciais PETR4.SA fecharam em queda de 3,88% e as ordinárias com recuo de 4%  em meio a notícias desfavoráveis sobre a produção da estatal.

Na carta mensal do Fundo Verde FIC FIM, do gestor Luis Stuhlberger, a Verde Asset Management também disse que durante o ano as conversas sobre a perda do grau de investimento pela Petrobras voltarão e que a necessidade de uma capitalização também virá à tona.

"De qualquer forma, no curto prazo achamos que a posição técnica do mercado pode levar o preço do petróleo para algo entre US$ 60 e US$ 70, o que num primeiro momento poderá favorecer a Petrobras", observou o primeiro relatório mensal enviado a investidores desde a separação do fundo do Credit Suisse.

As ações da mineradora Vale fecharam em queda de 4,78%, devolvendo os ganhos de mais de 4% da véspera, e exercendo a maior pressão de baixa no Ibovespa. Em entrevista à Reuters, o presidente da mineradora, Murilo Ferreira, estimou que o preço do minério de ferro deve ficar acima de US$ 70 por tonelada no segundo trimestre e na maior parte do ano.

Bancos reforçaram o viés de baixa, com Banco do Brasil, que divulga o seu resultado trimestral na quarta-feira, à frente, caindo 3,34%. Projeções apuradas pela Reuters apontam lucro recorrente de R$ 2,9 bilhões no quarto trimestre.

A companhia de seguros BB Seguridade, controlada pelo BB, reverteu a alta e cedeu 2,4%, mesmo após divulgar lucro líquido acima do esperado no quarto trimestre de 2014 e estimar alta de até 22% no lucro de 2015.

Os papéis de empresas de educação também sofreram nesta terça-feira, com a Kroton perdendo 3,74% e Estácio caindo 3,19%. O Ministério da Educação reiterou que não negociará a exigência de média de 450 pontos nas provas do Enem para garantir o acesso ao programa de financiamento ao ensino superior Fies, embora tenha dito que está discutindo os repasses às empresas de ensino.

Qualicorp experimentou uma trégua e subiu 4,67%, maior ganho percentual do índice, após acumular forte queda nos últimos pregões, em meio a incertezas sobre possíveis mudanças nas regras dos planos de saúde pelo governo.

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