Por bruno.dutra

Haia - O presidente americano, Barack Obama, afirmou nesta terça-feira que a anexação da Crimeia mostra a "fraqueza" da Rússia, pouco antes de as tropas russas terem lançado, segundo fontes oficiais em Kiev, um ataque contra o último navio ucraniano nessa península.

Os agressores subiram a bordo do draga-minas "Cherkasi", no lago de Donuzlav, e a tripulação se entrincheirou no interior da embarcação, disse um porta-voz do Ministério ucraniano da Defesa. O grosso das tropas ucranianas que permaneceram leais a Kiev já se retirou dessa península de cerca de dois milhões de habitantes, russófonos em sua maioria. Este mês, a Crimeia decidiu, de forma unilateral, se reincorporar à Rússia, à qual pertenceu até 1954. A anexação, rapidamente validada pelo governo e pelo Parlamento russos, suscitou preocupação na Europa Ocidental e Central.

"A Rússia é uma potência regional que está ameaçando alguns de seus vizinhos imediatos, não por força, mas por fraqueza", alfinetou Obama, ao término da cúpula de Segurança Nuclear de dois dias, em Haia.

Os Estados Unidos também têm influência sobre seus vizinhos, "mas geralmente não precisamos invadi-los para reforçar a cooperação com eles", afirmou Obama. Na última segunda-feira, durante a cúpula de Haia, os presidentes do G-7 decidiram cancelar sua participação no G-8 (G-7 + Rússia), prevista para acontecer em junho, em Sochi (Rússia), e vão se reunir em Bruxelas nessa mesma data. Trata-se de mais um passo para isolar a Rússia.

O G-7 é formado pelas potências industrializadas (EUA, Alemanha, Canadá, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão).

A Rússia tem obrigações internacionais e responsabilidades, afirmaram os líderes do G-7 em um comunicado. Os membros do grupo lembraram a Moscou que o grupo informal, ao qual a Rússia foi convidada a participar em 1998, nasceu "pelas convicções e responsabilidades compartilhadas".

Nesta terça, Obama confirmou que o G-7 está preparando sanções econômicas, junto com outros países europeus, nos setores de "energia, finanças, vendas de armas, ou comércio". Mas essas medidas podem afetar os países que mais dependem, ou que mais comércio têm com a Rússia. Moscou já classificou a decisão ocidental de "contraproducente".

Ministro ucraniano da Defesa renuncia

Na Ucrânia, em uma agitada sessão, o Parlamento ucraniano aprovou nesta terça-feira a demissão do ministro da Defesa, Igor Teniukh, criticado por sua gestão durante a perda da Crimeia, e nomeou para seu lugar Mikhailo Koval. "Ao que parece, as ações do ministro da Defesa interino na República Autônoma da Crimeia não agradaram alguns", disse Teniukh.

Os comandantes ucranianos na Crimeia reclamaram da indecisão e da confusão reinante na Marinha e no Exército diante da decisão russa de anexar a península. Isso também ficou evidente com a mudança de lado dos militares ucranianos na Crimeia. As autoridades pró-Moscou consideram que metade das tropas ucranianas conservaram suas armas.

As críticas à gestão da crise por parte de Kiev, acusada de fragilidade e de improviso, procedem inclusive do governo interino. "Queremos que aqueles que trabalham e tomam as decisões sejam especialistas, gente capaz de tomar boas decisões e responder em condições extremas (...) de confronto militar", declarou o presidente interino, Olexander Turchynov.

O clima de tensão entre Kiev e Moscou aumentou nesta terça com a revelação de uma suposta conversa de conteúdo violento e anti-Moscou da ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Em resposta, Tymoshenko denunciou a difusão na Internet do conteúdo da conversa, na qual fala dos russos de forma muito violenta. Ela negou o trecho da gravação, em que teria defendido matar oito milhões de russos da Ucrânia "com armas nucleares". Segundo ela, trata-se de uma montagem dos serviços secretos russos (o FSB).

O novo governo ucraniano, instaurado pelo Parlamento em 22 de fevereiro, após a destituição do presidente pró-russo Viktor Yanukovytch, também foi alvo de críticas e se mostrou dividido frente à crise. Em Kiev, as autoridades interinas pró-Ocidente temem que Putin tente movimentar suas tropas para outras regiões de língua russa do sudeste da Ucrânia. A Rússia nega.

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