Draghi responsabiliza Itália por recessão que afeta recuperação da zona do euro

Presidente do BCE disse que a Itália é a única responsável pela sua terceira recessão desde 2007 pela falta de reformas estruturais

Por marta.valim

Mario Draghi diz que a Itália é a única responsável pela sua terceira recessão desde 2007. Um dia depois que dados mostraram que a terceira maior economia da zona do euro se contraiu inesperadamente no último trimestre, o presidente do Banco Central Europeu destacou a falta de reformas estruturais no seu país e o desincentivo para os investimentos que isso provoca. A declaração veio depois de considerações iniciais em que lamentava a recuperação “desigual” da região.

“Eu falo sempre a mesma coisa, na verdade – quer dizer, eu falo sobre reformas no mercado de trabalho, nos mercados de produtos, na concorrência, na Justiça, e assim por diante”, disse Draghi, ex-presidente do Banco da Itália, ontem em Frankfurt, após ter mantido as taxas de juros do BCE inalteradas em mínimos recordes. “Essas seriam as reformas que na verdade já mostraram benefícios no curto prazo”.

Os comentários poderiam aumentar a pressão sobre o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, para que reative uma economia com um desemprego de jovens superior a 40% e uma recessão que ameaça o incipiente ressurgimento do bloco monetário de 18 países. Os comentários do presidente do BCE sobre seu país natal são mais diretos do que o normal, aumentando o contraste com países que se engajaram em ajustes mais estruturais, como a Espanha.

“Draghi fez um forte apelo a reformas estruturais, remarcando que agora há grandes evidências que sugerem que os países que reformaram suas economias estão mostrando um desempenho econômico mais forte do que o restante da zona do euro”, disse Riccardo Barbieri, economista-chefe da Mizuho International Plc. para a Europa em Londres. “Soa como uma forte contestação à abordagem escolhida pelo novo primeiro-ministro da Itália”.

Investimentos privados

Os comentários de Draghi sobre a Itália se tornaram mais freqüentes neste ano. No mês passado, ele disse que os rumores de que ele deixará o BCE antecipadamente para se tornar presidente da Itália são infundados. Seu mandato à frente do banco central termina em 2019.

O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, 39, o quarto desde 2011, prometeu reformas abrangentes da economia e do sistema político quando chegou ao poder em fevereiro por meio de manobras parlamentares. Ele anunciou mudanças para flexibilizar o mercado de trabalho, acelerar o sistema judiciário e aumentar a eficiência na administração pública.

Draghi, 66, indicou que a falta de reformas afasta os investidores, mencionando o nível “significativamente baixo” de investimentos privados da Itália. Ele disse que embora isso seja uma realidade no conjunto da zona do euro em comparação com outras partes do mundo, pode ser atribuído parcialmente a reformas estruturais inadequadas.

Taxas baixas

O BCE manteve sua taxa de juros de referência em 0,15 % ontem e a de depósitos em -0,1%, e Draghi reiterou que os custos de tomar empréstimos permanecerão baixos por um período prolongado. Em junho, os responsáveis pela política econômica anunciaram um pacote histórico de medidas de estímulo para combater a ameaça de deflação.

Os riscos continuam sendo negativos, disse Draghi, mencionando tensões políticas como o conflito na Ucrânia e as sanções contra a Rússia. Embora o BCE não tenha anunciado mais medidas, Draghi reiterou que os responsáveis pela política econômica são unânimes em sua disposição de implementar medidas não convencionais, incluindo a flexibilização quantitativa, caso seja necessário. O BCE também contratará um consultor enquanto intensifica seu trabalho em um potencial programa de compra de títulos garantidos por ativos.

“O progresso na agenda de reforma tem uma significação particular” para o BCE, disse Richard Barwell, economista sênior do Royal Bank of Scotland Group Plc para a Europa em Londres. “Em algum ponto dos próximos seis a nove meses, o Conselho poderia ver-se obrigado a decidir se está disposto a lançar um programa amplo de ativos e, nesse ponto, a questão da reação política a uma política monetária mais flexível se apresentará imediatamente”.

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