Por monica.lima
Publicado 04/11/2014 11:07 | Atualizado 04/11/2014 11:09

A falta de água no mundo é uma ameaça muito maior do que se pensava. Os principais reservatórios do subsolo estão secando a um ritmo acelerado, segundo pesquisa do hidrologista James Famiglietti, da NASA e do Instituto de Tecnologia da Califórnia. No artigo “The Global Groundwater crisis” (“A Crise Global da Água Subterrânea”), publicado na revista especializada “Nature Climate Change”, o cientista cita como exemplo reservatórios dos Estados Unidos, da China, da Índia, e da América do Sul, incluindo o Brasil. Estas reservas no subsolo representam um terço da água usada no mundo e são a principal fonte para mais de dois bilhões dos sete bilhões de habitantes do planeta, ressaltou Famiglietti em sua pesquisa.

Análises de satélites da Nasa revelam que o mundo está esgotando a água subterrânea _ estocada sob o solo e nos aquíferos _ a uma taxa sem precendentes nas zonas áridas e semi-áridas. São justamente as partes mais secas do mundo que dependem pesadamente da água do subsolo. A água subterrânea em alguns dos maiores aquíferos do mundo _ no Vale Central da Califórnia (EUA), na China, na Índia e em outros lugares _ está sendo bombeada “ a um ritmo mais rápido do que o que poderia permitir ser reabastecido”, constata Famiglietti.

Quase todos estes aquíferos situam-se nas maiores regiões agrícolas do mundo. E é a existência dessas fontes de água sob o solo que permitem a alta produtividade na agricultura. A água do subsolo bombeada no Vale Central, na Califórnia, por exemplo, uma das regiões agrícolas mais produtivas dos EUA, representa mais da metade das perdas, segundo o especialista. O quadro torna-se mais preocupante em um momento em que o mundo precisa cortar a poluição causada pelo excesso de dióxido de carbono. Isso porque essas regiões do semiárido estão projetadas para testemunhar a queda na precipitação ou na umidificação do solo, o que vai aumentar dramaticamente as chances de grandes secas. Para completar, essas áreas também tenderão a ver o crescimento de suas populações.

As respostas naturais do homem diante de secas é a de bombear água do subsolo, agravando o esgotamento das reservas dos aquíferos. A água do subsolo não é tão monitorada quanto as fontes mais visíveis de reservatórios e rios, principalmente em países em desenvolvimento, onde agricultores e fazendeiros acabam perfurando poços profundos. No Norte da África, no Oriente Médio, e no Sul da Ásia já é comum perfurar mais de dois quilômetros para alcançar água no subsolo, observou o cientista. Alguns países, como a Índia, chegam até a subsidiar o custo de eletricidade para bombear água do subsolo e impulsionar a produtividade agrícola.

O Vale Central, na Califórnia, é um dos locais com maior perda de água subterrânea, ressalta o especialista. As bacias dos rios Sacramento e San Joaquin, na Califórnia, perderam 10 quilômetros cúbicos de água por ano desde 2011: mais água do que todos os 38 milhões de californianos usam para atividades domésticas. Na Califórnia, no início do ano, algumas leis já começaram a ser aprovadas para gerenciar melhor o suprimento de água no subsolo.

Além dos EUA, a Nasa detectou declínios nos aquíferos da Planície do Norte da China, na Bacia Canning (Austrália), no Sistema Aquífero do Nordeste do Saara, no Aquífero Guarani, na América do Sul, e nos aquíferos do Nordeste da Índia e do Oriente Médio. A água do subsolo age como reserva estratégica fundamental em tempos de secas prolongadas, como as que atingem o Brasil e a Austrália, explica o cientista. Ele faz uma comparação entre essas reservas de água e a poupança em uma conta bancária, que pode garantir a subsistência de uma família durante uma crise econômica.

A Nasa apertou o sinal de alerta após captar as imagens no subsolo através de uma missão de satélite chamada “Grace” (Gravity Recovery and Climate Experiment),que detectou mudanças da massa da Terra por causa das grandes mudanças na quantidade de água estocada no subsolo. No ano passado, Famiglietti escreveu um artigo, bastante divulgado, relacionando a escassez de água ao quadro de guerra civil na Síria.

Satélites americanos detectaram uma grande diminuição das reservas de água nos rios Tigre e Eufrates em um período de sete anos, a partir de 2003, segundo um estudo publicado na revista “Water Resources Research”, periódico da União Geofísica Americana. Os leitos desses rios, cujas águas irrigam parte do Iraque, Irã, Turquia e Síria, perderam o equivalente a um Mar Morto. O esgotamento dos aquíferos, alerta o cientista, pode desencadear mais conflitos civis violentos em áreas que já sofrem com escassez de água, como o Norte da África, o Oriente Médio e Sul da Ásia.

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