O Muro de Berlim na visão de quem testemunhou sua queda

O Oficial que deu a ordem para derrubar a barreira construída na cidade e um professor alemão contam a suas versões da queda do muro há 25 anos

Por O Dia

O tenente coronel da Alemanha Oriental que deu a ordem para deixar a multidão passar de um lado para o outro do Muro de Berlim 25 anos atrás revelou que chorou em silêncio logo depois, enquanto hordas de alemãs orientais eufóricos passavam por ele na direção de Berlim ocidental. Harald Jaeger contou que passou horas, antes de sua histórica decisão, tentando em vão obter uma orientação de seus superiores sobre o que fazer diante dos 20 mil manifestantes que se aglomeravam na fronteira para atravessar para o país vizinho no dia 9 de novembro de 1989.

Depois de ouvir dos superiores que se virasse, Jaeger ordenou aos 46 guardas sob o seu comando que abrissem as barreiras. Ele, então, chorou. Eram lágrimas de alívio, já que o impasse terminara sem violência. Eram lágrimas de frustração porque seus superiores o deixaram em apuros. Eram lágrimas de desespero de um homem que acreditou por tanto tempo no ideal comunista.

Ele entrou para a guarda da fronteira em 1961. Durante 28 anos, ele vira a barreira crescer. De arame farpado, passou para um muro de tijolos, e chegou a uma tela de concreto dupla branca de 160 quilômetros que cercava Berlim ocidental, cortando ruas, separando famílias, atravessando cemitérios. “Meu mundo estava entrando em colapso e eu sentia que estava sendo deixado sozinho pelo meu partido e pelos meus comandantes militares”, disse Jaeger, agora com 71 anos. “ Por um lado eu estava muito desapontado, mas também estava aliviado porque tudo acabou pacificamente. Poderia ter havido outro final”, ressaltou.

Os historiadores dizem que a decisão corajosa de Jaeger, tomada exatamente às 23h30 do dia 9 de novembro de 1989, que resultou na queda do Muro de Berlim, significou o fim da Guerra Fria. Dentro de algumas horas os alemães orientais dançavam no Portão de Brandenburgo, na Alemanha ocidental, e em outras partes da fronteira que haviam sido abertas.O presidente americano Ronald Reagan tinha recentemente feito um discurso na fronteira com um recado para o líder soviético, cujas tropas ainda dominavam a região oriental: “Sr. Gorbachov, destrua este muro”. Suas palavras provocaram alguns sorrisos. O muro, claro, estava ali para ficar. “Depois que digeri tudo o que havia acontecido, fiquei feliz por todos os alemães orientais porque eles conseguiram o que queriam”, disse Jaeger, que poderia ter sido acusado de traição por sua atitude.

Durante os 28 anos em que ele serviu ali no muro, pelo menos 136 pessoas foram assassinadas tentando atravessar para o lado ocidental. Muitos outros falharam em tentativas de escapar e foram presos. Por que Jaeger optou por abrir o muro em vez de usar a força para dispersar a multidão, que incluía a futura chanceler de uma Alemanha unificada, Angela Merkel? “Quando vi a massa de alemães orientais lá, eu sabia que eles estavam certos. Mas eu era apenas um tenente-coronel. Como nenhum superior deu qualquer ordem, eu fui praticamente forçado a tomar uma atitude”, recordou. Quando às 23h30 ele deu a ordem histórica, seus comandados não acreditaram. Jaeger teve de repetir para que eles entendessem que ele estava falando sério. Depois que tudo terminou bem, eles me disseram: “Boa decisão, Harald”. Ele continua pensando no que aconteceu. “Eu me pergunto sempre se outros no meu lugar teriam agido de forma diferente. Mas não tem sentido filosofar sobre isso. O que aconteceu, aconteceu”.

Testemunha da história

BRUNO WILHELM SPECK
Professor no Departamento de Ciência Política da USP, nasceu em Tuttlingen, cidade no sul da Alemanha Ocidental, em 1960.  Veio para o Brasil em 1993, quatro anos após a queda do Muro de Berlim.

"Subi no muro,não me lembro como, não me parecia seguro ali em cima

Eu estava na Stabi, apelido da Bilioteca do Instituto Ibero-Americano (IAI), em Berlim Ocidental, perto do muro. Tinha ido a Berlim de carona alguns dias antes. Morava em Freiburg, no sul da Alemanha Ocidental, e havia planejado passar duas semanas em reclusão na maior biblioteca na Europa especializada em América Latina, para fazer pesquisa para a minha tese de doutorado. Após alguns dias na biblioteca, uma rotina havia se instalado: consultar os fichários que estavam no corredor, preencher fichas em papel para solicitar o material, entregar os pedidos no balcão, esperar os funcionários entregarem pilhas de livros, voltar para a minha mesa e ali ler durante horas, fazer anotações, depois ir para as máquinas copiadoras, tirar Xerox de capítulos, e devolver o material para depois começar tudo de novo. Outros seguiam a mesma rotina. Era um lugar de trabalho acadêmico e de silêncio, uma monotonia confortante.

No decorrer da sexta-feira esta rotina começou a mudar, primeiro de forma imperceptível. Algo estava no ar, mas não consegui identificar o que era. Havia mais movimentação no balcão de atendimento do que normalmente. Mas não era de retirada de material. O atendente colocou um pequeno rádio de pilha no balcão. Achei estranho. As pessoas se aglomeravam e conversavam no atendimento. Mais tarde o som do rádio estava mais alto. Eu não conseguia escutar direito porque a minha mesa estava longe, mas mesmo assim o barulho começou a me incomodar. Já não conseguia me concentrar. O que este pessoal pensava? Tinha gente tentando trabalhar em paz para fazer descobertas científicas que mudariam os rumos da humanidade. Resolvi fazer uma pausa e ligar do telefone público para a minha namorada grávida que estava em Freiburg, no sul da Alemanha. Ela perguntou se eu estava acompanhando o que acontecia. A DDR (República Democrática Alemã) tinha liberado viagens para o ocidente e o pessoal da parte oriental de Berlim estava atravessando para o Ocidente, sem controles. Ela acompanhava pela televisão, de Freiburg, e me contava o que acontecia exatamente 300 metros da biblioteca onde eu estava trabalhando.

Bem, fui verificar saindo do prédio e vi que a cidade estava uma festa só e um caos ao mesmo tempo. Nas ruas havia carros Trabi, buzinaços como os que acontecem depois de um jogo de futebol, massas de pessoas andando sem direção pela cidade, o transporte público superlotado. Fui até o muro, ali perto da biblioteca. Havia gente subindo e descendo, com ajuda de outros. Subi também, não lembro como, porque o lugar era alto mesmo. Não me parecia muito seguro ali em cima, tinha muita gente. Desci e voltei para a casa do amigo que me hospedava. Deixei a minha mochila e saímos de novo para participar da festa.

Não consegui entrar no clima porque para mim não havia tantas emoções em jogo. Tinha nascido na Alemanha Ocidental, morava numa cidade distante da fronteira e do muro, não tinha parentes na DDR que para mim era simplesmente outro país vizinho. Observava, mas no fundo não entendia, a alegria daquele povo que ficava eufórico só porque atravessava uma fronteira. Era como ir a uma festa superanimada sem conhecer ninguém. Tivemos uma ideia. Se eles podem cruzar de lá para cá, porque não fazemos o contrário? Pensamos em cruzar num dos pontos de controle para o lado oriental e passear por ali, fazer a nossa festa. Era uma ideia maluca por várias razões. Primeiro porque ali não tinha festa nenhuma. Depois, porque o fluxo de gente de lá para cá simplesmente não permitia. E finalmente, em um segundo de lucidez nos demos conta que aquela euforia poderia levar a uma ressaca repentina, com o fechamento das fronteiras por dias, semanas ou por tempo indeterminado, com a gente do outro lado do muro.

Não foi o que aconteceu. As coisas tomariam um rumo sem volta nesta mesma noite. Primeiro lá fora, nas ruas. Hoje já entraram nos livros, acessíveis para quem quer escrever uma tese de doutorado e passar umas duas semanas fechado numa biblioteca.

Saí da biblioteca e vi que a cidade estava uma festa só e um caos ao mesmo tempo. Nas ruas havia carros Trabi e buzinaços como os que acontecem depois de um jogo de futebol.”


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