Emprego e corrupção deixam Espanha em encruzilhada política

A persistência dos altos índices de desemprego e a explosão de denúncias de corrupção põem a gestão do presidente da Espanha, Mariano Rajoy, em uma encruzilhada política a um ano das eleições. Para especialistas, o país vive a maior crise institucional desde a redemocratização

Por O Dia

Madri e Barcelona, Espanha - Pela primeira vez desde que assumiu, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, compareceu com números positivos a um encontro de líderes internacionais, a reunião do G20, no fim de semana passado, na Austrália. Mas, se a reversão dos indicadores de crescimento econômico lhe renderam congratulações no evento, a volta para casa lhe trouxe uma difícil realidade: a persistência dos altos índices de desemprego e a explosão de denúncias de corrupção que põem a sua gestão em uma encruzilhada política a um ano das eleições. Para especialistas, a Espanha vive a maior crise institucional desde a redemocratização.

“É muito difícil que a prioridade para os próximos quatro anos não seja a reforma profunda de nossas instituições, uma reconstrução institucional espanhola”, diz o diretor do Círculo de Economia de Barcelona, Jordí Alberich Pascual. Os casos quase diários de prisões de políticos corruptos, o aumento da desigualdade social no pós crise, e uma taxa de desemprego de 50% entre os mais jovens têm gerado uma onda de indignação que pode ter grandes consequências políticas. As maiores, e até agora mais visíveis, são o recrudescimento do movimento separatista na Catalunha e o surgimento de um novo partido, o Podemos, que começa a demonstrar força para mexer no tradicional bipartidarismo espanhol.

Nascido no meio acadêmico espanhol, o Podemos ganhou logo a adesão dos manifestantes que ocuparam a Puerta del Sol, no centro histórico de Madri para protestar contra as políticas de austeridade. Se tornou nacionalmente conhecido este ano ao eleger cinco eurodeputados, quando ainda não tinha nem status oficial de partido. No último fim de semana, elegeu seu secretário geral, Pablo Iglesias, e deu início à criação de um estatuto.

“O Podemos é, de alguma forma, fruto da crise econômica. Mas é também fruto da crise institucional. Todas as instituições estão saturadas, subjugadas a uma crise, o que alimenta um grande desejo de mudança”, avalia Trinidad Jiménez, porta-voz do partido de oposição, o PSOE. No governo e na oposição, há certa descrença com relação ao potencial de crescimento do partido nas eleições, mas os dois lados veem com algum receio a possibilidade de quebra da estrutura bipartidária vigente desde a retomada da democracia, no fim dos anos 1970.

Na Catalunha, que protesta por contribuir com um volume de impostos maior do que outras regiões, a crise chegou aos tribunais depois que o líder separatista Artur Mas realizou, à revelia do governo central, uma consulta popular a respeito da independência da região. O caso está hoje sendo discutido no âmbito jurídico, com possibilidade de uma representação pelo Ministério Público, em um sinal de que Rajoy não está disposto a negociar. "Quando uma questão política acaba na Justiça, é o fracasso da política", resume Pascual.

Partido mais afetado pelas denúncias de corrupção, o PP conta com a melhora de alguns indicadores macroeconômicos na gestão Rajoy e espera que as taxas de desemprego caiam até o pleito do ano que vem. O país já soma cinco trimestres consecutivos de crescimento, após uma das piores crises econômicas das últimas décadas. O prêmio de risco sobre seus títulos caiu 80% desde o pico, em julho de 2012, quando chegou a 639 pontos básicos. E, este ano, o rating soberano foi elevado pelas três principais agências de classificação de risco. "A Espanha é um exemplo de superação", afirmou Rajoy em seu discurso para os líderes mundiais.

“Uma economia com 23% de desemprego é uma tragédia, não podemos ocultar isso”, reconhece o ministro de Indústria, Energia e Turismo, José Manuel Sória. “Mas a taxa vem caindo desde a metade de 2013 e devemos chegar a 2015 com algo em torno de 22%”, acrescenta, ressaltando que o país vem tomando medidas para tentar reduzir o custo da energia e reabilitar o setor de construção civil, grande responsável pelos anos de crescimento pré-crise. No curto prazo, porém, a economia da Espanha depende da recuperação dos vizinhos europeus, para onde vai 70% de suas exportações.

Se os indicadores de atividade econômica melhoraram, porém, a dívida espanhola voltou a crescer e hoje se encontra na casa dos 100% do PIB. E a corrupção que envolve todas as esferas de governo no país ampliam a sensação de que só os trabalhadores se sacrificaram em prol da recuperação econômica. “O separatismo da Catalunha reflete um problema da Espanha. O independentismo tem flutuado de acordo com a situação econômica do país. Quando a economia vai mal, ele se amplia”, analisa Pascual.

“O PP vai perder a eleição”, sentencia Trinidad, do PSOE, sem ter tanta certeza, no entanto, de para onde vão os votos dos indignados. O partido levantou a bandeira de uma reforma constitucional, que transforme em direitos os tradicionais programas de proteção social do país, reforme a lei eleitoral, colocando fim ao financiamento privado, e estabeleça um novo pacto federativo — com o objetivo de acomodar os interesses de estados onde há separatistas, como a Catalunha e o País Basco.

O fato, porém, é que os escândalos de corrupção atingiram representantes dos dois partidos e serão um tema de peso no ano eleitoral que se inicia. “A Espanha não é um país corrupto, não nos passa pela cabeça pagar um funcionário público para ter alguma vantagem”, diz Pascual. “Por isso, a corrupção vai jogar um papel importante no processo.” Além disso, os efeitos das reformas de Rajoy parecem ter batido no teto, segundo analistas.

Para voltar a gerar empregos em massa, o país precisa crescer a uma taxa de 3% ao ano — a previsão para 2014 é de 1,3% e, para 2015, 2%. E isso só será possível se França, Alemanha e Itália reverterem suas próprias crises. “As perspectivas melhoraram, a percepção no exterior melhorou, mas nos últimos meses, quando a Espanha começou a melhorar, a Europa começou a piorar. E dependemos muito da Europa”, resume o economista e ex-ministro das Relações Exteriores Miquelino Nadak Segalá.

Espanha trabalha para recuperar prestígio perdido

Responsável pelo segundo maior volume de investimento estrangeiro no Brasil, a Espanha espera atrair investidores globais para ajudar a vencer a crise econômica que se instaurou no país após 2008. Como atrativo, o país oferece acesso a outros mercados europeus, uma moderna infraestrutura de transportes e baixo custo de mão de obra, resultado do processo de reformas estruturais implantado pelo governo Mariano Rajoy. “Estamos levando a cabo uma política para recuperar o prestígio perdido, a marca Espanha”, diz Jesús García Audaz, secretário de Estado para Cooperação Internacional<QA0>
e para a América Latina.

Com o aprofundamento da crise, o país retrocedeu em sua política exterior, focando-se nas soluções internas para resgatar a economia. No novo movimento, um dos objetivos é recuperar as relações com os países latino-americanos e com o Norte da África . “Precisamos de uma relação mais confiável, mais atual, reconhecendo que os países cresceram e que a conversa tem que ser diferente”, comenta Audaz. Maior economia da região, acrescenta, o Brasil é um dos focos nesse esforço.

Segundo dados da Invest in Spain, o estoque de investimento espanhol no Brasil soma € 60 bilhões, enquanto o investimento brasileiro na Espanha não passa de € 2 bilhões. Um dos poucos casos de grandes aportes foi a aquisição de uma unidade de cimentos pelo grupo Votorantim, em operação que incluía uma série de negócios ao redor do mundo. O último, a abertura de um centro de distribuição da Alpargatas, para a marca Havaianas.

“A Espanha pode ser a porta de entrada da Europa para empresas brasileiras”, diz o secretário. A agência de fomento ao investimento acena com custos trabalhistas de € 20,9 por hora, menor do que a média europeia, a maior rede de rodovias e três dos maiores portos de contêineres da Europa. O país aprovou ainda uma série de medidas para agilizar a entrada de investidores, como fast track na obtenção de visto para aqueles dispostos a gastar mais de € 500 mil na aquisição de imóveis e todos aqueles interessados em investimentos produtivos.

Além disso, decidiu enfrentar a resistência dos moradores e incentivar a exploração de petróleo em alto mar nas Ilhas Canárias e em jazidas não convencionais em terra no país. A reforma energética aprovada no ano passado determina que a decisão final sobre aprovação das perfurações é do governo central, derrubando uma série de legislações contrárias em estados e municípios. “Precisamos de fontes de energia barata e temos recebido muitas manifestações de interesse de empresas estrangeiras”, afirma o ministro da Indústria, Energia e Comércio, José Manuel Soria.

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