Senado americano acusa CIA de mentir e de torturar

Relatório de uma comissão do Senado descreve torturas brutais e ‘ineficazes’ da Agência Central de Inteligência dos EUA nos interrogatórios dos suspeitos de terrorismo

Por O Dia

A Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos recorreu a ameaças sexuais, simulação de afogamento e outros métodos brutais para interrogar suspeitos de terrorismo, e todos foram ineficazes para se obter informações essenciais, de acordo com um relatório do Comitê de Inteligência do Senado norte-americano divulgado ontem. O relatório, elaborado durante cinco anos com base em mais de 6 milhões de documentos internos da CIA, afirma que a agência enganou frequentemente a Casa Branca, o Congresso americano e a opinião pública sobre os seus métodos de atuação, que eram muito mais brutais do que a agência reconhecia até mesmo para a administração George W. Bush (2001-2009).

Foi durante o governo de Bush, logo após o ataque terrorista aos EUA em 11 de setembro de 2001, que entrou em ação o programa de prisão e interrogatório sob tortura de suspeitos de terrorismo, como militantes da Al Qaeda, em instalações secretas em várias partes do mundo. Ao assumir o governo, o presidente Barack Obama cancelou o programa.

A divulgação do documento fez com que os EUA alertassem suas instalações no exterior a reforçarem a sua segurança por causa do temor de que haja reações violentas. O relatório descreve detalhadamente as técnicas usadas pela CIA para torturar com o objetivo de forçar os detentos a divulgar informações sobre tramas e células terroristas. Essas técnicas não foram autorizadas pelos advogados do Departamento de Justiça. Casos nos quais os interrogadores da CIA ameaçaram um ou mais detidos com falsas execuções, prática não permitida pelos advogados do governo, estão documentados no relatório.

“Este documento examina as ações da CIA no exterior com a prisão de 119 indivíduos e o uso de técnicas de interrogatório coercivo, em alguns casos chegando a tortura”, disse a chefe do Comitê de Inteligência do Senado, Dianne Feinstein. Em uma das prisões secretas, Salt Pit, no Afeganistão, apelidada de “calabouço”, a CIA dizia que nunca havia usado a técnica de afogamento simulado, mas o Senado obteve fotos de instalações para esse tipo de tortura, inclusive com os baldes de água ao lado. Outra técnica de tortura usada foi a de impedir que o preso dormisse por até 180 horas. O relatório também cita o método de “alimentação retal”, ou “hidratação retal”, que segundo oficiais da agência “garantiam o controle total do prisioneiro”.

Médicos que trabalharam para a CIA disseram que Khalid Shaikh Mohammed, que planejou o atentado de 11 de setembro, sofreu “séries de quase afogamentos”. O relatório conta que durante sessões de interrogatórios feitos na instalação da Tailândia, alguns agentes da CIA choravam e outros chegaram a pedir para serem transferidos caso o nível de violência não diminuísse.

Defensores da CIA, como o ex-vice presidente Dick Cheney, e o próprio ex-presidente Bush afirmaram recentemente que o programa foi “essencial” para encontrar Osama bin Laden, morto por marines em maio de 2011, em Abbottabad, no Paquistão. Mas o relatório do Senado diz que os interrogatórios violentos não produziram nenhum dado de inteligência crucial, nem para evitar atentados terroristas futuros, nem para se capturar Bin Laden.

Não ficou claro se a análise irá levar a novas tentativas de responsabilizar os envolvidos. O prazo legal para contestar muitas das ações prescreveu. Na segunda-feira o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, disse que o presidente Obama apoiou a divulgação pública do documento “para que as pessoas em todo o mundo e aqui em casa entendam exatamente o que ocorreu”.

Obama prometeu que métodos violentos em interrogatórios não acontecerão em seu mandato, dizendo que as técnicas prejudicaram significativamente os interesses norte-americanos no exterior sem ajudar nos amplos esforços de contraterrorismo. "Em vez de outra razão para retomar antigas discussões, espero que o relatório de hoje possa nos ajudar a deixar estas técnicas em seu lugar, no passado”, disse Obama em um comunicado.

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