Por monica.lima
A doutrina pacífica do Japão pós Segunda Guerra Mundial está sendo abandonada. Tóquio aprovou ontem um orçamento recorde anual equivalente a US$ 42 bilhões para gastos de defesa, sinalizando a tensão dos últimos tempos em torno das disputas marítimas com a vizinha e rival China e do programa nuclear da Coreia do Norte. Pequim tem o segundo maior orçamento militar do mundo, cerca de US$ 112,2 bilhões, atrás apenas dos Estados Unidos, com US$ 600,4 bilhões (em 2013), segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Londres. O Japão figura em sétimo lugar.
A aprovação do orçamento acontece depois de o primeiro-ministro Shinzo Abe ter reinterpretado a Constituição pacifista do país, no ano passado, permitindo que as Forças Armadas possam ajudar um aliado sob ataque. Essa medida foi interpretada por vários vizinho do Japão como um sinal de militarização da terceira economia do mundo. O orçamento da Defesa aumentou pelo terceiro ano consecutivo, depois de décadas de cortes. Houve um aumento de 2,8% com relação ao ano anterior, seguindo a orientação do “pacifismo ativo” do primeiro-ministro Shinzo Abe, que decidiu ampliar a capacidade militar do Japão, principalmente diante das ambições da China e das ameaças da Coreia do Norte.
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O orçamento prevê gastos para comprar 20 aeronaves de vigilância marítima, seis jatos F-35, cinco aviões Osprey, drones Global Hawk, dois navios equipados com radar e um sistema de mísseis de defesa para ser desenvolvido juntamente com os Estados Unidos.
“São as maiores verbas de todos os tempos”, afirmou um funcionário do ministério da Defesa. O orçamento será financiado mais pela arrecadação de impostos do que pela emissão de obrigações do Estado, como ocorreu nos anos precedentes. A disputa pelas ilhas do Mar do Oriente, conhecidas como Senkaku em Tóquio e como Diaoyu em Pequim, são um dos grandes pontos de atrito entre China e Japão. Essas ilhas estão sob o controle japonês.
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O novo ministro da Defesa japonês, General Nakatani, que assumiu o cargo em dezembro, argumentou que é necessário lidar com a “mudança da situação” em torno do Japão. “O nível de gastos de defesa reflete o montante necessário para proteger o espaço aéreo, marítimo e terrestre do Japão, e para resguardar as vidas e as propriedades de nossos cidadãos”, afirmou Nakatani. Segundo ele, navios e aviões chineses aparecem cada vez mais perto das águas e das aeronaves de seu país. As declarações do ministro japonês foram respondidas pelas autoridades chinesas, que disseram que suas “atividades marítimas” são “completamente legítimas”.
Há hoje uma espécie de corrida armamentista na região, com a China também investindo cada vez mais nas suas Forças Armadas e aumentando o seu orçamento de defesa, hoje mais de duas vezes e meia superior ao do Japão. Na sua rivalidade com a China, o Japão procura intensificar a sua cooperação militar com os Estados Unidos, e isso vem sendo incentivado por Washington. As mudanças também vão ajudar a aumentar a colaboração militar do Japão com outros países vizinhos, como Austrália e Filipinas, que receberam de forma positiva a nova orientação militar japonesa.Estas duas nações vem demonstrando preocupação com a postura cada vez mais assertiva da China nas disputas marítimas da região.
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A Constituição japonesa data de 1947, dois anos após a derrota do país na Segunda Guerra Mundial. O texto dizia que o povo japonês renunciaria para sempre à guerra como um direito soberano da nação e ao uso da força como meio de resolver disputas internacionais. A utilização da força militar era limitada apenas ao caso de defesa de seu território soberano e de seu povo. Desde àquela época foi sendo cultivado um sentimento de pacifismo japonês. Na polêmica nova leitura da Constituição do governo Shinzo Abe, que vem incentivando uma espécie de neo-nacionalismo japonês, as Forças de Auto Defesa do país podem entrar em ação se uma disputa internacional envolver o Japão. Com agências