Por monica.lima
"O secularismo é um projeto incompleto.Nos EUA%2C o presidente ainda tem de ser cristão para ser eleito"%2C diz o professor Moustafa Bayoumi Neville Elder/Divulgação

Por  Shobhan Saxena
Especial para o Brasil Econômico

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Em 2008, Moustafa Bayoumi lançou o livro “How it Feel to be a Problem? Being Young and Arab in America” (“Como é ser um problema? Ser jovem e árabe na América”, da Editora Penguin, e premiado com o “American Book Award” na categoria de obra de não-ficção. Professor de Língua Inglesa no Brooklyn College, da City University de Nova York, Bayoumi conta no livro a experiência de sete jovens árabe-americanos no pós 11 de setembro de 2001 nos EUA. Ele rejeita a teoria do “Choque de Civilização”, afirmando que a ideia de que o Ocidente e a civilização Islâmica travam um confronto é perigosa e útil para muçulmanos extremistas e para a direita europeia, que se alimentam uns dos outros. Nascido na Suíça, com pais egípcios, ele cresceu no Canadá, viveu na Alemanha e na França. Hoje está radicado nos EUA.
O discurso sobre o “Choque de Civilizações” e a ideia de que o Ocidente seria símbolo da liberdade e o Islã seria sinônimo de fundamentalismo parece ter se fortalecido após o ataque terrorista, reivindicado pela al-Qaeda do Iêmen, ao jornal satírico francês “Charlie Hebdo” no dia 7 de janeiro. Como o senhor vê este debate?
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Todos os sinais apontam para a direção errada, infelizmente. A ideia de que o Ocidente e a civilização Islâmica travam um confronto é errada e perigosa, mas também é muito útil para muçulmanos fundamentalistas e para a direita europeia. Um depende do outro. A direita no Ocidente tem muito a ganhar politicamente ao fazer campanha sobre a ideia de que os muçulmanos representam uma ameaça ao modo de vida europeu ou americano. Muçulmanos extremistas projetam repetidamente a ideia de que o Ocidente é, na sua raiz, oposto a tudo que seja muçulmano. Mas tudo isso é ficção. Os muçulmanos tem sido parte da cultura ocidental por muito tempo. E o Ocidente frequentemente superestima sua noção de liberdade. Dias depois do imenso protesto pela liberdade de expressão em Paris, autoridades francesas prenderam 54 pessoas pelo crime de discurso ofensivo, por exemplo. O confronto de civilizações reduz todo mundo a uma identidade única. Eu estou totalmente confortável em ser muçulmano e ao mesmo tempo um cidadão do Ocidente, entre outras coisas. Se há mesmo um confronto de civilizações, eu deveria estar vivendo uma guerra civil dentro de mim. E eu não estou. O mesmo pode ser dito sobre milhões de outras pessoas.
O sr. acha que os países ocidentais tiveram sucesso em se tornarem sociedades verdadeiramente multi-culturais, multi-religiosos, ou falharam na sua ideia de secularismo? 
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Um dia perguntaram ao líder pacifista indiano Mahatma Gandhi o que ele achava da civilização ocidental. Ele respondeu: ‘Eu acho que seria uma boa ideia’. O mesmo pode ser dito sobre o secularismo. É um projeto incompleto na melhor das hipóteses. Aqui nos Estados Unidos o presidente ainda tem de ser visto como membro ativo da igreja cristã para ser eleito. Barack Obama teve de provar que era cristão e não um ‘muçulmano secreto’ em 2008, por exemplo. John McCain, seu oponente, descreveu os EUA como uma ‘nação cristã’. Crenças cristãs ainda são normativas nos EUA e pesquisas mostram que dois terços do público americano querem que o presidente tenha fortes crenças religiosas. A Europa pode observar menos essa exigência, mas a cristandade é também normativa. As férias são estabelecidas em torno de práticas cristãs, por exemplo. Mesmo na França secular o Estado paga salários de muitos professores em escolas privadas religiosas. Lá, existem cerca de 9 mil escolas católicas privadas, 700 judias, e quatro escolas privadas muçulmanas. Separar religião de política é um objetivo que vale a pena, mas em muitos países ocidentais a prática dominante e as crenças da herança do Cristianismo não só são deixadas intocadas mas também são assumidas como normais. Eu digo isso como alguém que nasceu na Suíça e viveu como adulto no Canadá, nos EUA, na Alemanha e na França. Nós simplesmente temos que aprender como viver juntos e isso significa engajar a cultura e a religião de cada um com curiosidade e respeito. Isso é necessário e tem o potencial de criar uma sociedade mais igual e forte.
Há setores que argumentam que o Islã e os valores modernos como democracia e liberdade de expressão são incompatíveis. O sr. acha que esta visão se tornou normal e aceitável nas sociedades ocidentais? 
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A lógica cultural desta guerra global ao terror criou, paradoxalmente, uma situação onde o Islã é ainda menos compreendido e mais estereotipado do que antes. Isto é o que acontece ideologicamente em tempos de guerra. As pessoas conhecem o Islã apenas como um inimigo. É quase como se o Islã tivesse sido fundado no dia 11 de setembro de 2001. Muitos países com maioria ou com populações muçulmanas muito grandes são democracias funcionais. Indonésia, Malásia, Índia, e Turquia vêm imediatamente à mente. Muitos grandes países considerados democracias não funcionam exatamente como democracias. Os EUA têm uma grande porção de nepotismo e corrupção frequentemente chamados de lobbies corporativos. Estes argumentos sobre o Islã e a democracia são simplistas, tanto com relação ao Islã quanto à democracia, mas eles se tornaram comuns.
O crescimento de grupos como o Pegida (Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente, na sigla em alemão), na Alemanha, alimentam a Islamofobia na Europa, com pouco sendo feito para investigar isso. O que isto significa para os muçulmanos que vivem nos países ocidentais?

Os muçulmanos na Europa Ocidental vão sofrer. Muitos são imigrantes. São economicamente e politicamente fracos. Suas vulnerabilidades tornam fácil para eles se transformarem em bode expiatório, são alvos do ódio e do oportunismo político. Na verdade, o que às vezes alimenta a Islamofobia é a ansiedade distorcida sobre outros males sociais como por exemplo a lenta desintegração de determinados esquemas de bem-estar social na Alemanha.
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O primeiro-ministro britânico, David Cameron, disse que os muçulmanos têm “responsabilidade social” em checar e controlar a ascensão do extremismo islâmico. Como o sr. vê este tipo de afirmação? Isso não leva a atitudes como a de julgar que o conjunto de muçulmanos no mundo seria responsável pelos crimes de poucos extremistas?
Cada muçulmano individualmente é responsável pelas ações de cada um das outras pessoas muçulmanas do mundo? Claro que não. Mas David Cameron é responsável pelas políticas externa e doméstica da Grã-Bretanha, não por ser britânico, branco ou cristão, mas porque ele é o primeiro-ministro do país. Este tipo de afirmação é uma tática usada pela classe política para distrair a opinião pública. É um tipo de declaração usada para fugir de suas responsabilidades em alimentar conflitos no mundo.
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No mundo ocidental parece haver pouca percepção de que as políticas externas de seus países mudam e as guerras no exterior podem estar alimentando o extremismo islâmico. Depois do ataque de Paris, o Ocidente sinalizou a intensificação de suas campanhas militares em lugares como o Iêmen. Estamos presos num ciclo vicioso do terror e guerras do qual não se pode escapar?

Só ficaremos presos neste ciclo vi<CW5>cioso se quisermos. Temos de persuadir nossos líderes da ideia de que nossos problemas são resolvidos com violência cada vez maior. No lugar de perguntar se o Islã produz a violência, nós deveríamos perguntar se a guerra ao terror provoca mais violência e terrorismo. Se a resposta for sim, e é claro que é, uma ação racional seria repensar esta estratégia que leva à derrota.
Salman Rushdie diz que ‘houve uma mutação no coração do Islã’, referindo-se basicamente ao crescimento do Islã radical nas últimas duas décadas. Há um debate no mundo muçulmano sobre a ‘reforma’ do Islã?

Há muitos debates em todo o mundo muçulmano. E este é precisamente o ponto. O Islã não é como o Catolicismo, que tem uma autoridade central. O Islã tem uma história unificadora e os muçulmanos em todo o mundo vão reconhecer similaridades em suas práticas e crenças, mas o Islã é também diferente em cada lugar. Há uma velha tendência de pensar que todos os muçulmanos estão reduzidos somente às suas religiões. O estudo sério das sociedades ocidentais abraça teorias complexas da história, da economia, da linguagem, da sociologia, etc. Mas quando nós falamos de sociedades muçulmanas, nós focamos exclusivamente no Islã. Para entender o crescimento do Islã radical nós precisamos focar na história, na economia, na língua, na sociologia etc, e não simplesmente culpar o ‘Islã’.
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Há apenas poucos anos atrás parecia que o mundo árabe passava por uma mudança revolucionária. Hoje, essa perspectiva parece perdida. O que aconteceu de errado na Primavera Árabe? 
Mudanças verdadeiramente revolucionárias frequentemente acontecem em uma geração ou mais. A Primavera Árabe ainda está na sua infância. A situação hoje é desoladora, já que o autoritarismo retornou com vingança em muitas partes da região. As coisas vão provavelmente ficar piores antes de poderem melhorar. Mas não devemos perder as esperanças. A busca pela justiça é universal e atemporal.
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Shobhan Saxena é correspondente do “The Times of India” e do “Economic Times” no Brasil.
[email protected]
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