Por monica.lima
“A China afirma que o Dalai Lama persegue a independência para o Tibete. Mas o fato é que o Dalai tem assegurado repetidamente que busca a ‘autonomia genuína’ da região dentro da China", diz Anand Divulgação

Chefe do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Westminster, em Londres, especialista em Tibete e na relação entre a China e a Índia, Dibyesh Anand diz que Pequim usa seu status atual de grande potência global para aumentar a intensidade das ofensivas diplomáticas com o objetivo de demonizar Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama. Autor dos livros “Geopolitical Exotica: Tibet in Western Imagination”, e “Tibet: A Victim of Geopolitics”, Anand constata que apesar de a Era do imperialismo europeu ter acabado, o Tibete transformou-se em um exemplo vivo da colonização de hoje.

O anúncio do encontro do 14º Dalai Lama com o presidente dos EUA, Barack Obama, fez com que a China reagisse, dizendo ser contrária a que qualquer país encontre o líder budista. Cada vez mais Pequim tem usado a sua força econômica para tentar impedir encontros internacionais do Dalai Lama. A China vai conseguir isolá-lo?

A China é reconhecida hoje como uma grande potência global. Por isso, passou a fazer ofensivas diplomáticas contra o Dalai Lama. Este ataque inclui o congelamento das negociações sino-tibetanas, a demonização do Dalai Lama como um “separatista”, campanhas para apresentar o domínio chinês sobre o Tibete como algo benéfico, e a pressão sobre todos os países para isolar e marginalizar o Dalai . Washington deveria dizer a Pequim que um governo estrangeiro não pode interferir nos assuntos internos dos EUA. A ascensão da China tem feito com que muitas nações não queiram contrariar Pequim. Mas os países que sucumbem à pressão esquecem que a China precisa da comunidade internacional tanto quanto a comunidade internacional precisa da China. Por que os países não podem ser abertos ao Dalai Lama, quando tudo que ele faz é falar de compaixão, do diálogo inter-religioso e de esperança?

O Dalai Lama tem se reunido com os presidentes dos EUA há décadas e todos defendem da boca para fora os direitos humanos no Tibete, sem nunca fazer nada de concreto. Os EUA usam o Tibete apenas para constranger a China?

A política americana em relação ao Tibete é produto de fatores complexos e contraditórios.O anti-comunismo dos anos 50 e 60 foi seguido de uma normalização das relações nos anos 70 e 80 e, depois, de uma intensificação das relações econômicas. Hoje, os EUA equilibram ansiedades sobre a China por ser uma potência global competitiva, ao mesmo tempo em que têm uma interdependência econômica do país asiático. Ao falar de direitos religiosos e culturais dos tibetanos, ao mesmo tempo em que reafirma a soberania da China sobre o Tibete, os EUA tentam equilibrar a sua abordagem. Nenhum país faz nada de concreto para a causa tibetana. A posição da China no Tibete é militarmente poderosa. Devido à recusa de Pequim por respeitar os direitos políticos e religiosos dos tibetanos, há protestos frequentes. Mas acho que o discurso dos direitos humanos, mesmo sem uma ação concreta, é melhor do que nada. Este discurso dá pelo menos a esperança para os tibetanos de que a sua causa atrai algum apoio internacional.

Relatórios recentes sugerem que os chineses podem estar dispostos a se envolver com o Dalai Lama em negociações diretas e até mesmo deixá-lo visitar o Tibete. O sr. acredita nisso? 

Desde 1980 tem havido algumas rodadas de negociações formais e diálogos entre Pequim e representantes do Dalai Lama. Eles não conseguiram nada porque os chineses veem as negociações como discussão sobre o estatuto pessoal do Dalai Lama, enquanto os tibetanos veem como um diálogo sino-tibetano. Mas paralelamente ao diálogo, Pequim promove campanhas públicas para demonizar o Dalai Lama. A China já deixou claro que não haverá concessões,e dizem que as negociações são uma oportunidade para o líder tibetano aceitar todas as condições exigidas por Pequim. Nos últimos meses, deparamo-nos com notícias de gestos que podem ser vistos como amolecimento da posição da China. Isso levanta falsas esperanças porque a política sobre o Tibete continua sob a responsabilidade de autoridades linha-dura.

Por que o Partido Comunista Chinês é tão sensível em relação ao Tibete?

A China afirma que o Dalai Lama persegue a independência para o Tibete. Mas o fato é que o Dalai tem assegurado repetidamente que busca a “autonomia genuína” da região dentro da China. O Partido Comunista Chinês é sensível não porque o Dalai representa qualquer ameaça para a segurança, mas porque ele é uma prova viva de que, apesar de todos os esforços de Pequim para disciplinar e controlar os tibetanos, eles falharam. A maioria dos tibetanos continua a venerar o Dalai Lama. Além disso, há um número crescente de chineses da etnia Han que têm aderido ao Budismo tibetano. Alguns destes chineses Han olham para o Dalai e para a democracia tibetana no exílio, na Índia, como algo inspirador.

O Dalai Lama tem falado frequentemente que ele será a última encarnação da sua linhagem. Já a China insiste dizendo que ele não pode decidir o que acontecerá com a instituição Dalai Lama. Não é uma ironia que um Estado oficialmente ateu agora tente gerenciar os assuntos do Budismo tibetano?

Sim, esta ironia expõe as contradições das reivindicações chinesas sobre o Tibete. O governo chinês alega que “liberou” os tibetanos de um sistema feudal dominado pelos lamas budistas, mas agora eles mesmo insistem em continuar esse sistema. Quando o atual Dalai Lama morrer, é ele quem deve reencarnar em outro corpo mais tarde, segundo a tradição tibetana. Como o Dalai é denunciado como um separatista e ele próprio deixou claro que não vai reencarnar sob a ocupação chinesa, que poder tem um partido comunista ateu para transformar o espírito do Dalai quando ele está em transição de um corpo para outro? Isso é ridículo em todos os níveis. Mas a China alega que tem autoridade para controlar as questões de fé.

Os tibetanos são conhecidos no mundo por sua religião e espiritualidade. As pessoas veem a questão do Tibete como um problema de direitos humanos. Por que os tibetanos não conseguem mostrar a sua “causa” como uma luta pela independência de uma nação antiga?

De 1950 em diante, o apoio internacional para os tibetanos era relacionado aos direitos religiosos e culturais, e não ao direito à auto-determinação. Isso ocorre porque os possíveis aliados dos tibetanos, a Índia, os EUA e o Reino Unido, não veem a questão tibetana como importante o suficiente para contrariar a China. Dada a assimetria de poder entre a China e os tibetanos e a falta de apoio dos países estrangeiros para a independência, a liderança tibetana no exílio e o Dalai decidiram concentrar-se na busca de uma autonomia genuína ao invés da independência.

Em 1959, quando o Dalai fugiu para a Índia, Jawaharlal Nehru (então primeiro-ministro indiano) disse que o Tibete era uma “vítima da política entre grandes nações”. O Tibete continuará a ser um peão no grande jogo entre superpotências?

A Era do imperialismo europeu acabou, mas o Tibete é um exemplo vivo de colonização hoje. Os outros países desistiram dos tibetanos e aceitaram o domínio chinês. A China é responsável pelo bem-estar dos tibetanos e mesmo assim Pequim falhou em respeitar os direitos e a dignidade do povo do Tibete.

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