Geração Z, os nativos digitais

São dois bilhões de jovens nascidos depois de 1995, já na era da internet; determinados a construir uma vida longe dos códigos dos mais velhos, impacientes, são auto-ditadas, querem ter suas próprias start-ups e não gostam de hierarquia, segundo pesquisa da Sorbonne

Por O Dia

Velocidade? Sim. Paciência? Não. Redes sociais? Sim. Livros? Não. Ambição? Sim. Obediência? Não. Jogos? Sim. Esportes? Não. Essa é a “geração Z”, com pressa, pragmática, independente e teimosa.

Esses dois bilhões de jovens nascidos depois de 1995, já na era da internet, estão determinados a construir uma vida longe dos códigos e das aspirações dos mais velhos. São “mutantes”, dizem alguns pesquisadores fascinados pela sua fusão com o mundo digital, como o professor Olivier Houde, diretor do Laboratório de Psicologia do Desenvolvimento e Educação Infantil da Sorbonne e autor do livro “Aprender a resistir”.

Eles navegam em várias telas e estão acostumados a “tudo agora mesmo, em todos os lugares”. Acham normal pagar caro pelo smartphone mais moderno, mas também obter gratuitamente filmes e músicas na internet. Os códigos dos adultos lhes parecem ultrapassados. Mas as marcas “rebeldes” agradam esse público, que se informa especialmente por meio das redes sociais, como comprovam estudos feitos na Europa e nos Estados Unidos para grandes corporações como a BNP e a Ford, que querem entender seus futuros clientes. Em poucas décadas, estes jovens da “geração Z” serão consumidores maduros.

Pelo fato de seus pais não poderem ajudá-los com as novas tecnologias, eles se acostumaram com tutoriais no Youtube e se tornaram auto-didatas: estão em “permanente auto-aprendizagem”. Além disso, estão acostumados a ver várias tecnologias expirarem, como os antigos videocassetes, relegados para o mundo das relíquias junto com rádios, CDs ou DVDs. Agora tudo é feito na rede onde têm acesso a tudo, inclusive violência e pornografia.

Essa pró-atividade com relação às novas tecnologias leva entre 50% e 72% destes jovens a desejarem ter sua própria start-up, embora a palavra “negócio” lhes evoque noções muito negativas, como “complicado”, “sem coração” e “selva”. Com essa veia empreendedora, eles confiam mais em sua “rede” de contatos em vez de diplomas, e preferem uma organização horizontal, em vez da tradicional hierarquia.

Nesta geração, não importa a o quê dediquem suas vidas: 76% deles gostariam de transformar seu hobby em trabalho. “Filhos de crises econômicas”, eles têm critérios muito bem definidos em relação a suas escolhas de carreira. Na França, por exemplo, diante de uma mesma remuneração, 25% escolheriam a empresa com ambiente mais divertido, 22%, a mais inovadora e 21%, a mais ética. Desejando ter um impacto sobre o mundo, são afeitos ao voluntariado, praticado por um quarto dos jovens entre 16 e 19 anos nos Estados Unidos.

Hoje com idades entre 13 e 20 anos, eles se consideram de mente aberta e inovadora, mas reconhecem que são impacientes e teimosos. Adotam as modas que se espalham pela internet em todo o planeta, desde blockbusters americanos, como “Jogos Vorazes” ou “Divergentes”, até o K-Pop coreano. Seu vocabulário é cheio de siglas e anglicismos e seus ídolos são estrelas da internet, desconhecidos nos meios de comunicação tradicional, como o comentarista de jogos online sueco Pewdiepie, que tem mais de 30 milhões de seguidores em seu canal no Youtube.

Mas toda essa familiaridade com novas tecnologias e diversidade cultural também traz aspectos questionáveis. Segundo a empresa de consultoria americana Sparks and Honey, os membros dessa geração passam mais de três horas por dia em frente à tela do computador, e sofrem de “FOMO” (Fear of Missing Out, em inglês), o medo de perder algo e ojeriza à ideia de não estar conectado.

É o caso de Sumire, uma japonesa de 18 anos que se comunica com seus amigos online em qualquer lugar, seja na escola ou até durante o banho. “Eu fico conectada desde que acordo até a hora de dormir. Me sinto sozinha quando não estou na internet”, conta ela, que é uma usuária assídua do aplicativo de mensagens instantâneas Line, no qual 90% dos estudantes de ensino médio do Japão têm uma conta.

De acordo com uma pesquisa feita pelo governo japonês em 2013, cerca de 60% dos estudantes do ensino médio que tiveram contato com o mundo digital a partir de uma idade muito precoce mostrou fortes sinais de vício em internet, principalmente a partir do momento em que as telas se multiplicaram, com o boom de aparelhos como smartphones e tablets.

O cenário tem preocupado profissionais de saúde. De fato, o impacto neurológico deste vício na internet é comparável à dependência de álcool ou cocaína, conforme mostrou um estudo recente do centro Saúde Mental de Xangai, que analisou dados cerebrais de jovens muito ligados à tecnologia e até criou uma especialidade para tratar dessa juventude entregue ao “ópio digital”.

A tendência é que se torne cada vez mais difícil o diagnóstico dessa dependência nociva. “Com a chegada dos smartphones, o jovem não precisa mais se trancar em um quarto para ter acesso a um computador. Por isso, hoje é mais difícil perceber que alguém tem um problema”, explica o psiquiatra Takashi Sumioka, segundo o qual o número de casos que tratou triplicou entre 2007 e 2013. O tratamento é um programa “desintoxicação digital”, em que os pacientes devem escrever um diário, o que “mostra até que ponto estão sujeitos aos aparelhos e à sua conexão com a internet”. Segundo ele, a “cura” vem em cerca de seis meses.

É interessante notar que, para a “geração Z”, os amigos das redes sociais são, em geral, tão importantes quanto os da vida real. Mais da metade desta geração considera que a autêntica vida social acontece nas redes sociais, nas quais 84% mantêm uma conta registrada, segundo uma pesquisa da agência americana JTW: para eles, é mais fácil conversar em chats do que falar.

Muitos se sentem mais confortáveis para se comunicar pela internet, ressalta Miki Endo, professor de Ciência da Computação que desde 2002 se debruça sobre o vício na internet. Endo se recorda do caso de uma aluna, de 22 anos. “Depois da aula, ela me pediu permissão para navegar na internet porque seus pais a proibiram de fazê-lo em casa”, lembra o professor, que viu a jovem se transformar na sua frente. “Durante 10 minutos, era uma pessoa totalmente diferente. Quando ela se conectou às redes sociais, começou a rir e a falar em voz alta. Ela, que costumava ser muito introvertida, parecia ter esquecido a minha presença ali”, disse Endo. 

Geração Z: mais automatismo e menos crítica

Olivier Houdé
Professor de Psicologia da Sorbonne

O cérebro de crianças nascidas na era digital é diferente?

O cérebro é o mesmo, mas os circuitos utilizados mudam. Em frente a telas, e na vida em geral, os nativos digitais têm uma espécie de trem de alta velocidade que vai do olho ao polegar. Eles utilizam sobretudo uma zona cerebral chamada córtex pré-frontal para melhorar a velocidade de decisão e o hábito multitarefa, ligados às emoções. Mas essa utilização acima da média, compromete outra função desta área, mais lenta, de distanciamento, síntese pessoal e resistência cognitiva.

O que seria essa resistência cognitiva?

Existem três sistemas no cérebro humano. Um é rápido, automático e intuitivo, altamente necessário na utilização de telas. Um outro é mais lento, lógico e ponderado. Um terceiro sistema no córtex pré-frontal pode decidir entre os dois primeiros: o coração da inteligência. Este permite inibir os automatismos de pensamento quando se faz necessária a aplicação da lógica e da moral. Esta é a resistência cognitiva, a qual os chamados “nativos digitais” devem reaprender para pensarem melhor.

Essa carência pode influenciar no trato social?

Sim, porque esse mecanismo nos permite evitar decisões absurdas, às vezes coletivamente. Permitem também resistir a crenças erradas, como teorias da conspiração ou estereótipos muito ancorados. E isso dialoga com tolerância. Quando os ataques de Paris colocam em pauta a “desradicalização”, também se trata dessa resistência cognitiva. Educar o cérebro é ensiná-lo a combater a sua própria irracionalidade, um enorme desafio para a sociedade atual. 

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