Surto de Ebola foi fracasso institucional

Um ano após o início da epidemia, o vírus já deixou mais de 10 mil mortos e persiste na África Ocidental. Diretora do Médicos Sem Fronteiras Brasil, Susana de Deus atribui a catástrofe à complacência da comunidade internacional

Por O Dia

Após quase um mês sem infecções, o governo da Libéria esperava declarar o país livre do Ebola em abril. Mas a confirmação de um novo caso, no dia 20 de março, seguida de morte uma semana depois, sinalizou que a epidemia não está controlada. Além da Libéria, Serra Leoa e Guiné ainda sofrem com a doença. Embora a possibilidade de o vírus voltar a se alastrar seja remota, o saldo de um ano do surto é devastador: mais de 10 mil mortos — entre os quais 500 profissionais de saúde — e pelo menos 24 mil infectados. Na avaliação da portuguesa Susana de Deus, diretora-geral de Médicos Sem Fronteiras Brasil, o quadro atual se explica pelas falhas da comunidade internacional na crise: “Houve um fracasso global das instituições na resposta a este surto”.

Passado o risco de o surto chegar a países ricos, pouco se fala sobre o Ebola hoje. A epidemia está controlada?

Houve, de fato, uma diminuição dos casos, mas ainda há muito a ser feito. Há um certo relaxamento porque os números baixaram, mas, enquanto não tivermos o último contato da pessoa que foi infectada, não podemos cruzar os braços. Até porque esse tipo de epidemia oscila muito. Um paciente pode estar muito bem em uma semana, começar a comer e beber e, no dia seguinte, morrer. Assim tem sido com o Ebola.

No auge do surto, MSF teve de recusar pacientes pela falta de estrutura para atender ao número de infectados. Continua assim?

Não, a situação melhorou. Mas tivemos momentos muito trágicos, de só poder abrir o ELWA3 (maior centro de tratamento de Ebola, na Libéria), por 30 minutos. Era o tempo de entrarem pessoas para substituir os leitos daqueles que tinham falecido durante a noite. Tínhamos de escolher, na fila, quem entraria: aquele em um estágio mais avançado da doença, que pode transmitir o vírus mais facilmente, mas também pode vir a falecer logo, ou aquele que está em um estágio menos avançado, com mais chances de ser curado? Hoje, já conseguimos atender a todos que vêm até nós e realizar atividades de prevenção, além de assistir em outras patologias. Há mais atores, mas é necessária uma melhor coordenação dos esforços para acabar com este surto. Senão, ficaremos assim por meses.

Em setembro do ano passado, a presidente internacional de MSF alertou, na ONU: “a complacência é um inimigo ainda maior do que o vírus”. Como a sra. vê a atuação da comunidade internacional?

Houve um fracasso global das instituições na resposta a este surto. E, também, da própria solidariedade dos Estados. Foi preciso que o Ebola chegasse ao Ocidente para que houvesse uma reação mais contundente. A Organização Mundial da Saúde (OMS), que seria a agência responsável pela articulação dos esforços, começou a atuar muito tarde. MSF lançou o primeiro alerta em março. Em junho, viemos a público dizer que não tínhamos mais braços para continuar a atuar sozinhos. Só então o escritório regional de coordenação da OMS foi implementado. Em agosto, a OMS declarou a crise como sendo uma emergência pública de responsabilidade internacional. Achavam que MSF estava sendo alarmista. As respostas foram muito tardias e, em função destes passos lentos e tímidos, quando outros atores começaram a por a mão na massa, a epidemia já tinha se alastrado.

Quais foram as principais dificuldades de MSF?

Fizemos coisas que nunca tínhamos feito em surtos de Ebola. Desde mandar vir incineradores para o terreno, porque não tínhamos mais como lidar com os corpos, até deslocar cerca de 200 profissionais de outros projetos para esses três países. Também fizemos treinamentos massivos na Europa, porque tínhamos apenas cerca de 40 pessoas com experiência em Ebola. De repente, essas pessoas mais experientes tiveram de estar na linha de frente e, ao mesmo tempo, treinar os companheiros. Foi e continua a ser uma experiência dramática para a organização. Estamos habituados a curar, nunca vimos tantos pacientes morrerem. E estava fora das nossas mãos porque não podíamos tocá-los.

Como MSF lidou com as mortes de 14 profissionais em campo? 

É evidente que foi um sofrimento muito grande ver nossos colegas morrerem nessa batalha. E não foi só MSF que teve perdas. Não pensamos em nos retirar dos projetos, mas ficamos extremamente preocupados de que isso viesse a ser um fator de inibição para outros profissionais. Felizmente, não aconteceu. Foi impressionante. Mesmo com o estigma que alguns profissionais pudessem enfrentar ao voltarem para seus países, não tivemos nenhum recuo do staff internacional de MSF nesta epidemia. Criamos regras de segurança meticulosas desde o início e as aprimoramos. Quando temos um número tão massivo de pessoas precisando dos nossos serviços e pedimos ajuda a outras organizações internacionais, nossa responsabilidade é, pelo menos, fazer as pessoas acreditarem ser possível trabalhar em segurança.

Em agosto de 2014, a sra. disse que os recursos de MSF estavam se esgotando. Como ficou 
essa situação?

Os recursos estavam acabando porque não tínhamos como enviar mais gente, estávamos no limite. Não podíamos deixar outros projetos no Sudão do Sul, ou na República Centro-Africana (RCA). Aliás, o fracasso no combate ao Ebola revelou, também, fracassos a nível internacional com relação a outras populações esquecidas nestes lugares. Mas, felizmente, os doadores foram bastante sensíveis e temos recebido seu apoio. Nunca temos o orçamento completo porque a epidemia ainda não acabou. E, neste momento, é necessário que, junto com a resposta ao Ebola, olhemos para outras frentes, como a atenção às demais doenças.</CW>

Como assim?

Não foram só os infectados pelo Ebola que sofreram com a epidemia. Houve um colapso das estruturas de saúde, as poucas que existiam tiveram de se direcionar para o Ebola. Muitos pacientes crônicos que necessitavam de tratamento contínuo, ou aqueles infectados por outras doenças, como a malária, deixaram de receber atenção. Há meses, vínhamos falando que havia uma crise dentro da crise do Ebola, referente às doenças que ficaram em segundo plano. Agora, manteremos a resposta ao vírus, mas já começamos a redirecionar os esforços, pedindo que a comunidade internacional faça o mesmo.

Como a estrutura de MSF nos três principais países atingidos mudou ao longo da epidemia?

Na Guiné, recebemos informações de que havia pessoas morrendo muito rápido, com uma febre desconhecida. Não se pensou logo em Ebola, porque aquela região não tinha a doença. Mas, quando os relatórios indicaram que um dos sintomas era soluço, enviamos imediatamente uma equipe especializada para lá. Eles já foram com os materiais para instalar o primeiro centro de isolamento. O surto surge no triângulo formado pelas fronteiras de Guiné, Libéria e Serra Leoa, muito abertas entre si. Por isso, logo em março falamos que era um surto sem precedentes. Em muito pouco tempo já havia 60 localidades afetadas nos três países e começamos a montar estes centros. Até chegarmos ao cúmulo de montar o ELWA3, já com 240 leitos, além das várias unidades e incineração e higienização de materiais.

Qual é a parte do processo que mais consome recursos?

Os nossos profissionais ficam de três a quatro semanas nos projetos. As viagens pesam. Há também a questão logística, no que diz respeito, por exemplo, aos equipamentos de proteção, que são cerca de 15 a 16 peças, a maior parte delas incinerada a cada uso. Os médicos não ficam mais de 40 minutos no atendimento. Com isso, é preciso ter uma alta rotatividade. A logística dessa operação é extremamente cara.

Este surto de Ebola não foi o primeiro na África. Por que a epidemia tomou essa proporção?

Nesta região da África em especial nunca havia tido um surto de Ebola. A doença era totalmente desconhecida. Junto com o grau de contágio do vírus, temos a fórmula para o caos. Além disso, são países com estruturas sanitárias extremamente precárias. Suas populações tinham muito medo do estigma da doença. Muita gente não dizia que alguém tinha morrido com o vírus com medo dos vizinhos. Ainda enfrentamos isso na Guiné. Há populações que ainda reagem violentamente quando veem os carros de MSF chegando, porque acham que trazem o vírus. Todo esse desconhecimento foi um fator que contribuiu bastante para a propagação. Fora o fato de serem populações que circulam bastante entre estes três países e a ocorrência em zonas urbanas. As outras epidemias se concentraram em zonas rurais. Fazia-se o rastreamento em duas ou três aldeias e, de certa forma, se isolava bem o vírus. Dali não saia mais.

A barreira cultural diminuiu com o tempo?

O trabalho de conscientização é feito a cada projeto. Contamos com a atuação de antropólogos para passar a mensagem sem ferir as culturas locais. Um exemplo foi a questão da incineração dos corpos. Aquelas populações estão habituadas a se despedir de seus entes queridos tocando e lavando seus corpos. Como fazer essas pessoas compreenderem que não podiam fazer isso? Começamos, então, a lavar os corpos e a colocá-los em sacos transparentes para entregar às famílias. Há todo um cuidado para quebrar essas barreiras e conscientizar essas pessoas, protegendo suas cosmovisões. É um longo processo, sobretudo na Guiné, onde não está fácil.

Como está o desenvolvimento da vacina para a doença?

Mais esforços são necessários. MSF tem uma parceria com várias instituições que já estão fazendo testes experimentais. Mas o investimento não pode acabar com o arrefecimento da epidemia. O Ebola existe desde a década de 1970. Chegou o momento de investir mais seriamente nisso. Alguns laboratórios farmacêuticos começaram a fazer testes quando a epidemia ameaçava chegar aos países desenvolvidos.

Como a sra. vê a atuação da indústria farmacêutica na crise?

Infelizmente, aconteceu como com tantas outras doenças que afetam apenas as populações pobres. O Ebola incide sobre populações que não podem comprar medicamentos. Portanto, não tem merecido atenção para pesquisa e desenvolvimento. Este foi só mais um caso. Mas temos uma campanha, criada quando ganhamos o Nobel da Paz, em 1999, para pressionar a indústria farmacêutica a fazer investigação, pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para doenças que afetam países onde as pessoas não têm possibilidade de comprá-los. E, também, para baratear medicamentos que já estão no mercado. Remédios não devem ser um luxo.

Em Serra Leoa, o exército colocou bairros inteiros em quarentena. Como MSF viu isso? 

Cercar as pessoas não é a melhor solução porque gera pânico e aumenta o estigma. É um engano, porque se a pessoa não sair por um lado, vai sair por outro. É melhor que as pessoas andem livremente e se saiba onde estão para que se adotem medidas de segurança, do que fazer com que elas usem rotas clandestinas.

Como a sra. avalia a cobertura de crises humanitária, como esse surto, pela imprensa?

Em um país como o Brasil, poderia haver um olhar maior para essas causas. É uma forma de estimular o cidadão a enxergar além das fronteiras. A mídia tem um papel fantástico de unir o mundo. Na questão síria, em particular (a guerra civil iniciada em 2011), MSF sente um desinteresse grande da imprensa local. É uma catástrofe humana enorme, que acontece neste momento. Não entendemos o porquê de uma cobertura tão rasa no Brasil, que tem uma população tão grande com origem naquela região. Seria interessante ter um acompanhamento mais linear dessas crises.

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