Por monica.lima
Os iranianos têm uma impressão muito positiva do Brasil e dos brasileiros. Nós ainda nos lembramos de como o ex-presidente brasileiro (Lula) trabalhou duro para resolver o impasse nuclear entre o Irã e os EUA Divulgação

Por Shobhan Saxena ([email protected])

Nascido em Richmond, no estado de Virginia, nos Estados Unidos, Seyed Mohammad Marandi, de origem iraniana - hoje professor de Estudos Norte-Americanos e chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Teerã - diz que após a reunião entre as potências globais e o Irã, a respeito do programa nuclear, no início do mês, o presidente Obama deu uma versão própria sobre o acordo preliminar para tentar “vendê-lo em casa”. Marandi, que cresceu em Ohio, onde tomou gosto pelo futebol americano, voltou com sua família para o Irã nos anos 80, quando aprendeu farsi e passou a conhecer o país, chegando até mesmo a lutar na guerra Irã-Iraque (1980-1988).

Até pouco tempo atrás, Washington falava que considerava “todas as opções, incluindo um ataque militar” com relação ao Irã, por causa de seu programa nuclear. Mas hoje Irã e EUA estão estão à beira de fazer um acordo que poderá acabar com as sanções econômicas sobre Teerã. Como aconteceu essa mudança?

A principal razão para a mudança que temos visto até agora na abordagem ocidental em relação ao Irã é a determinação dos iranianos de manter seu programa nuclear pacífico, apesar da enorme pressão das sanções.

Há duas versões do acordo preliminar nuclear feito entre o grupo P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha) e o Irã. Os EUA o descreveu como um bom negócio que “praticamente coloca uma tampa sobre o programa nuclear do Irã”. O Ocidente parece ter conseguido o que queria. O Irã, também?

Eu não acho que os países ocidentais conseguiram o que queriam. Eles estavam determinados a tirar o direito soberano do Irã de ter um programa nuclear pacífico. Isso eles não conseguiram fazer. Eles afirmam que tentam impedir o Irã de produzir bomba nuclear, mas nunca houve evidências de que o programa nuclear do Irã não fosse pacífico. Os iranianos acreditam que a abordagem de confronto é para conter o Irã devido à sua política externa independente.

Logo após o anúncio do acordo em Lausanne, o presidente Barack Obama, disse que o Irã estaria sujeito a inspeções mais intrusivas do que qualquer outro país por inspetores internacionais…

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, disse que essa interpretação do acordo não condiz com a realidade. Eu acho que Obama está tentando dar uma versão particular sobre as negociações para vender o negócio dentro de casa.

Estamos a 90 dias do prazo para as negociações finais sobre o acordo nuclear. O que poderá colocar em risco um compromisso final?

Há muitos inimigos deste acordo em Washington, em Israel e na Arábia Saudita. Eles estão trabalhando duro para evitar um acordo de acontecer. Farão de tudo para evitar uma solução para este conflito.

O Irã e o Ocidente estão preparados para trabalharem juntos a partir de agora?

Eu acredito que os iranianos têm estado sempre prontos para trabalhar com o Ocidente. Vamos ver se o outro lado vai respeitar a soberania do Irã e demonstrar o respeito que o povo iraniano merece.

A possibilidade de se levantar as sanções ocidentais contra o Irã criou um clima bastante positivo no seu país. Houve cenas de celebrações nas ruas de Teerã. Os iranianos ficaram realmente felizes? Que debates acontecem hoje dentro do Irã sobre essa questão?

Eu não acho que houve euforia na maior parte do país. Seria mais correto dizer que o acordo criou uma atmosfera de significativo otimismo. Mas a partir do momento em que Obama deu uma versão sobre os resultados da reunião de Laussanne incompatível com a interpretação do Irã, passou a haver uma maior preocupação sobre a sinceridade do outro lado na mesa de negociação. Há vários debates nos canais de televisão do Irã. O establishment político e a população em geral confiam nos negociadores iranianos.

Se as sanções forem suspensas pelos governos ocidentais, o que isso significará para a economia iraniana, para as empresas e os cidadãos comuns?

Se isso acontecer, terá definitivamente um impacto sobre a economia e fará com que seja mais fácil para o Irã importar e exportar bens. Mas enquanto os países ocidentais continuarem com as sanções, o governo iraniano vai buscar alianças e trocas comerciais com países não-ocidentais. Apesar do fato de que (o fim das sanções) terá um efeito econômico positivo, qualquer um que tenha visitado Teerã recentemente pôde observar que as sanções não tiveram um impacto tão negativo sobre o nível de vida dos iranianos quanto os governos ocidentais esperavam.

Há relatos de cooperação entre EUA e Irã contra o grupo extremista sunita Estado Islâmico no Iraque. Os americanos e seus aliados constataram que precisam trabalhar com Teerã para conquistar a paz na região?

A realidade é que Estados Unidos, Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Emirados Árabes Unidos têm a sua quota de responsabilidade em relação ao crescimento do extremismo na região. Os países ocidentais e os regimes árabes ricos em petróleo usaram extremistas para derrubar o governo líbio. Os ex-integrantes do topo da hierarquia da Al-Qaeda, como Abdul Hakim Belhaj, estavam profundamente envolvidos na Líbia. De lá, eles foram enviados para a Turquia, um país-membro da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), para ajudar a fortalecer os grupos extremistas na Síria e para ajudar a derrubar o governo. O próprio vice-presidente dos EUA já admitiu que aliados regionais de seu país criaram e financiaram o EI e a Frente Nusra, a filial da al-Qaeda na Síria. Recentemente, vimos que a Frente Nusra cooperou com o EI para tomar o campo de refugiados de Yarmouk, nos subúrbios de Damasco. Também vimos que os sauditas e a al-Qaeda no Iêmen lutam juntos contra a nova ordem política iemenita. Eu acho que os EUA reconhecem que o wahabismo, a ideologia oficial saudita, é uma ameaça para a estabilidade global e que está saindo do controle em lugares como Nigéria, Quênia, Somália, Paquistão, e mais recentemente até na Austrália e na França . Portanto, já há um forte incentivo entre alguns políticos americanos para começar a cessar o financiamento do extremismo da Arábia Saudita. Mas eu ainda acho que temos que esperar e ver se existe a vontade de promover mudanças reais em Washington.

Apesar das sanções ocidentais durante vários anos, países como o Brasil têm se envolvido com o Irã, mantendo boas relações políticas e econômicas. O sr. acredita que essas relações vão aumentar?

Os iranianos têm uma impressão muito positiva do Brasil e dos brasileiros. Nós ainda nos lembramos de como o ex-presidente brasileiro (Lula) trabalhou duro para resolver o impasse nuclear entre o Irã e os EUA. Mas o presidente Obama acabou impedindo que seu homólogo brasileiro alcançasse os resultados que poderiam ter vindo de Declaração de Teerã.

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