Por monica.lima

O ouro sagrado dos antigos templos hindus, que guardam bilhões de dólares de tesouros doados como oferendas aos deuses por fiéis, está na mira do governo indiano, liderado pelo primeiro-ministro Narendra Modi. Preocupado com o desequilíbrio da balança comercial, Modi quer diminuir as importações da Índia, país que mais consome ouro no planeta. O segundo maior consumidor é a China. A importação de ouro representa quase 30% do déficit comercial da Índia. O país importa entre 800 a 1 mil toneladas de ouro por ano.

Obcecado com a ideia de um dia fazer com que a economia indiana chegue perto da rival China, Modi quer transferir para os bancos não apenas o ouro dos templos mas o das famílias indianas: um total calculado em 20 mil toneladas. A paixão dos indianos pelo ouro dura séculos e tem suas raízes no Hinduísmo. No maior festival religioso do país, o Diwali, que acontece entre outubro e novembro, os indianos homenageiam a deusa da riqueza, Lakshmi, comprando ouro: nos dias tidos como auspiciosos, famílias correm para joalherias, que têm até filas. Os tradicionais dotes de casamentos são frequentemente em joias. Na Índia rural, 70% da população se apega ao ouro como segurança financeira.

O governo planeja lançar em maio um esquema para incentivar templos e famílias a depositarem seus tesouros nos bancos, em troca de pagamento de juros. Calcula-se que os templos guardem 3 mil toneladas de ouro. Nas mãos das famílias, estariam 17 mil toneladas. A ideia é derretê-lo _ seja ele em forma de objetos, em barra ou em moedas _ e emprestá-lo a joalheiros para satisfazer o apetite insaciável dos indianos por ouro e para reduzir a importação deste metal. Pelos cálculos oficiais, essa importação poderá ser reduzida em 25% se os templos hindus decidirem participar do esquema.
Um dos mais famosos templos do país, o Shree Siddhivinayak, dedicado a Ganesha, o deus hindu com cabeça de elefante, foi construído há dois séculos em Mumbai, o coração financeiro da Índia. No seu interior, há 1 mil câmeras de circuito fechado. O templo, guardado por 65 agentes de segurança, com portas a prova de bala, é um dos mais ricos do país: guarda 158 kg de oferendas de ouro, avaliadas em US$ 67 milhões.

Há alguns anos, um tesouro calculado em US$ 20 bilhões foi descoberto em cofres subterrâneos secretos do templo Sree Padmanabhaswamy, no estado de Kerala, Sul da Índia. “Nós ficaremos felizes em depositar nosso ouro a bancos nacionais se a ideia for benéfica, segura, e gerar bons ganhos com juros”, disse Narendra Murari Rane, diretor da Fundação do templo Siddhivinayak, parte do qual é banhado a ouro. Mas muitos devotos não estão felizes com a ideia de que suas oferendas aos deuses serão derretidas. Um comerciante de ouro de Mumbai, de 52 anos, que não quis se identificar, contou que ele e seu pai doaram cerca de 200 quilos de ouro para o Siddhivinayak e a outros templos durante anos. Para ele, seria “um pecado” os templos ganharem dinheiro com juros pelas oferendas de ouro que foram dedicadas às divindades. “Eu fiz as doações aos deuses, não às fundações dos templos”, criticou.

A tarefa mais difícil será convencer as famílias indianas a abrirem seus cofres familiares. Os indianos tem pouca fé nas instituições financeiras. Poucos vão se arriscar a quebrar a tradição e repassar as joias e objetos de ouro guardados por gerações. Em 1999, a Índia já havia deslanchado um plano semelhante, mas não funcionou. Isso porque as taxas de juros não eram atraentes o suficiente. O governo diz que só vai revelar a taxa de juros que irá oferecer quando o esquema for lançado. Rajendra Jadhav, diretor-executivo da Fundação do templo Shri Saibaba Sansthan, dedicado a um homem santo hindu do século 19, admitiu que o valor das taxas de juros será fundamental para a sua decisão. Um programa de monetização de ouro de sucesso poderia ajudar a reduzir o desequilíbrio comercial da Índia. O país elevou o imposto de importação sobre o ouro e outras restrições impostas em 2013, após o déficit em conta corrente ter atingido um recorde de US$ 190 bilhões. O principal item não essencial das importações do país é o ouro. Se a Índia conseguir cortar as importações,vai pressionar o preço do ouro, que caiu em um período de quatro meses (até março), mas depois voltou a aumentar. Preços mais baixos irão ajudar o país a diminuir sua conta de importação. Mas um esquema de sucesso poderia também expor o governo a riscos potenciais, se os preços do ouro decolarem e se os depositantes decidirem, ao mesmo tempo, retirar seu ouro dos bancos. “Os bancos terão de recuperar seus estoques de ouro com importações depois (se os templos decidirem retirar seus depósitos em ouro)” , observou Sudheesh Nambiath, analista de metais preciosos da consultoria GFMS.

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