'Se você entender os algoritmos da internet, tomará o poder'

Criador do conceito de Inteligência Coletiva, o filósofo francês Pierre Lévy continua otimista quanto aos potenciais da Internet, apesar do crescente monopólio dos fluxos de dados por empresas como Google e Facebook

Por O Dia

O filósofo francês Pierre Lévy vem ao Brasil com relativa frequência para palestrar e visitar amigos. Nesta semana, esteve no Rio de Janeiro para um fórum organizado pelo Conselho Regional de Administração (CRA-RJ). No evento, Lévy participou de uma conversa reservada com administradores, acompanhada com exclusividade pelo Brasil Econômico. Criador do conceito de Inteligência Coletiva, no início dos anos 90, o intelectual continua otimista quanto aos potenciais da Internet, apesar do crescente monopólio dos fluxos de dados por empresas como Google e Facebook. “Há uma tendência a se fantasiar sobre a existência de um grande poder e esquecer que nós também somos o poder”, diz. Na visão do intelectual, a chave para dominar os algoritmos que regem a internet está na educação básica.

Hoje, há um fortalecimento do monopólio do fluxo de dados por empresas como Google, Facebook e Apple. Esse cenário o inquieta?

Não. Há alguns anos, a grande empresa era a Microsoft. Antes, a IBM era o grande player que centralizava o poder. Agora, esse papel está sendo desempenhado por Google e Facebook. Em 20 anos, será outro. Precisamos entender o seguinte: a internet é um espaço público. Logo, seja lá o que você fizer será registrado. Devemos, sim, nos preocupar com o Google, porque eles registram todas as pesquisas que fazemos. Da mesma maneira, tudo o que você escreve em um blog e no Facebook fica registrado e é revendido às pessoas do marketing, publicidade, etc. A informação é pública. Agora, se você não quer que a capitalizem, deve guardá-la em sua cabeça. Até porque, como sabemos, mesmo as informações mais secretas do Exército americano foram distribuídas a jornais de todo o planeta. É sempre possível ter uma boa segurança. Mas, a menos que você seja um banco ou um serviço secreto, não há meios de assegurar a propriedade pessoal dos dados. Isso precisa ficar claro.

E os algoritmos do Facebook? Eles não ameaçam o seu conceito de “ciberdemocracia” ao selecionar quem vai ver determinados conteúdos?

Este é um problema interessante. Eu tento sempre deslocar a questão na direção da competência dos indivíduos. Há uma tendência a se fantasiar sobre a existência de um grande poder e esquecer que nós também somos o poder. Vou lhe dar um exemplo pessoal. Para cada curso que ministro, crio um grupo no Facebook, uma hashtag, e utilizamos, também, outros sites para registrar informações. No canto direito do “feed” do Facebook, ficam as publicidades, diretamente ligadas a conteúdos que eu curti em certa página ou conversei com certa pessoa. Mas, quando acesso na frente dos meus alunos, não quero que todos eles conheçam minhas opiniões políticas ou minha orientação religiosa, por exemplo. Então, o que eu fiz? Retirei os “likes” dados a certas páginas e comecei a atentar ao que escrevia no Facebook. Assim, pude manipular os algoritmos do sistema, de maneira a determinar, eu mesmo, o que apareceria como publicidade naquele canto. Quando eu dou um like, dou as ordens aos algoritmos. Eles estão lá e trabalham sobre os dados, mas sou eu que envio os dados. Logo, sou eu que determino o resultado. Isso é importante, porque temos os mesmos tipos de algoritmos na Amazon, no Twitter, etc. Desde que os compreenda, é você que toma o poder.

Mas essa compreensão não estaria distante, especialmente nos países emergentes, onde a internet ainda é uma ferramenta nova para muitos?

Eu sempre fui otimista com relação à internet. Muita gente ponderava que existia uma fratura na estrutura, porque o acesso era restrito aos mais ricos, sobretudo em regiões como África e América Latina. Hoje, não podem dizer isso. Quase todos têm acesso a quase todo. Então, recaímos no antigo problema da educação e informação. A situação é particularmente difícil não só nos países emergentes, é assim por toda parte. No Canadá, na França e em todo o resto da Europa, o déficit de competência informacional é generalizado. E nem mesmo aqueles que deveriam desenvolver essa habilidade junto aos jovens, isto é, os educadores, têm isso. Este é o quadro que temos hoje.

Como reverter esse cenário?

Eu percorro o mundo para tentar estimular essas competências. Ter espírito crítico passa pela capacidade de compreender; avaliar a confiabilidade das fontes de informação; determinar quais são as agendas dos atores; compreender quem está por trás das informações. Isso está habitualmente reservado aos professores universitários. Hoje, todos estão confrontados com este oceano de informação. Há cada vez menos poder nas mãos de editores, professores e governos para determinar qual é a boa informação a ser difundida e qual não é, porque todas serão. Por isso, é necessário que todos os cidadãos de um país adquiram essa competência desde a idade mais tenra.

É um grande desafio...

Sim, será difícil. Mas peço para que reflitam: há três ou quatro mil anos, quando inventamos a escrita, a competência estava reservada a um grupo social muito restrito, de fato uma casta de pessoas privilegiadas que, por isso, detinham o poder. Depois, você tem um alfabeto que é mais fácil de aprender que os hieróglifos, e mais gente teve acesso. Já no Império Romano, boa parte dos habitantes de Roma sabia ler e escrever. A partir da Renascença, quando a prensa é desenvolvida, ficou decidido que todos os cidadãos deveriam ter essas competências. Tornamos isso obrigatório. Era algo impensável nos séculos anteriores. Ao mesmo tempo que temos mais possibilidades práticas, será necessário desenvolver competências mais avançadas junto às pessoas. Isso significa que a capacidade de julgar quais são as fontes de informação boas e ruins deverá ser ensinada a todas as crianças. Essa é a chave da exploração de todas as novas possibilidades. Será necessário se lançar em um grande trabalho de desenvolvimento humano.

Devemos ser otimistas?

Bom, é claro que o simples fato de as pessoas utilizarem a internet não vai transformar magicamente a sociedade. Por isso, insisto que esse cenário da internet traz possibilidades. Uma delas é o acesso a informações às quais não tínhamos antes. Quando eu era jovem, na França, existiam apenas dois canais de televisão e três jornais de tendências políticas distintas. Não tínhamos nenhuma informação de outro país, nenhuma ideia da diversidade de opinião que existia. Hoje, é muito fácil, mesmo que você não se esforce, acessar as informações que vêm de todos os grandes países do mundo. E isso em tempo real e com um espectro extremamente vasto de opiniões. Além disso, de maneira complementar, você tem a possibilidade de se expressar, criar um blog de maneira gratuita e, hoje, isso não demanda nenhum conhecimento técnico específico.

O que é necessário, então? 

O mais importante, hoje, já não é o acesso prático ou técnico na internet, mas sim saber ler, escrever, ter senso crítico e competências intelectuais. Tendo isso, você pode se expressar para um vasto público internacional de forma gratuita e sem nenhuma grande habilidade técnica particular. Além da mudança na relação com a imprensa, você pode se articular facilmente com outras pessoas por meio de grupos no Facebook, blogs em rede etc. Isso representa novas possibilidades de comunicação, mas também de associação. Existiriam também as desvantagens, mas nós esquecemos qual era a situação antes da internet. Hoje, todos têm celulares e dispositivos portáteis que nos permitem acompanhar ou verificar qualquer informação na rede. Mas, claro, é preciso se interessar por algum assunto, ou então não aprendemos nada. Se você está interessado, todas as informações estão lá. Veja a Wikipedia, um exemplo positivo de Inteligência Coletiva. Mas atenção: eu não digo que tudo quanto está escrito na Wikipedia é verdade, mas que se você quer uma primeira informação sobre um assunto, é uma ferramenta fantástica. A internet é uma ferramenta de desenvolvimento humano assim como foi a prensa, no século XV, mesmo que muitas coisas horríveis tenham sido impressas. Havia pedidos de morte que foram impressos e, hoje, eles existem na internet. Não é por isso que fomos contra o advento da imprensa. Poderíamos dizer o mesmo sobre o alfabeto, pois existem pessoas que o utilizam para falar besteiras. A partir do momento que temos uma linguagem, as pessoas vão mentir, contar histórias falsas. É inevitável. Mas, ao menos, quando as pessoas dizem besteiras no seu entorno, você pode compará-las ao que dizem outras pessoas de mais confiança. E você estará mais protegido de prejulgar um assunto, uma questão social, um partido político. Mas é preciso querer, é preciso procurar. A internet não vai dar abertura de espírito às pessoas de uma maneira mágica.

Hoje, no Brasil, uma parte das pessoas já procuram notícias diretamente nas redes sociais. O aumento do fluxo de informações não acaba por gerar uma desinformação?

O maior risco de desinformação está na situação de monopólio da emissão de informação. Vamos supor que vivemos em um país no qual há somente um canal de televisão e um só jornal. Tudo controlado pelo Estado. Nessa situação, há mais risco de desinformação do que quando há muitas fontes. Você é jornalista e sabe que o trabalho do jornalista é diversificar as fontes e cruzá-las. Quanto menor for o número de fontes, aumenta o risco de desinformação. É exatamente o contrário. Isso é importante porque todos os jornalistas fazem essa pergunta.

Recentemente, o presidente do ICANN, Fadi Chehade, afirmou que a privatização da gestão de domínios da internet está próxima de acontecer. Como o sr. avalia esse movimento?

De fato, o ICANN está sob a dominação direta do governo americano. Então, a questão é saber se o melhor é estar nas mãos dos EUA ou de uma empresa que seria remunerada. Mas atenção: não por administrar a Internet, e sim por administrar os nomes dos domínios, o que é apenas uma pequena parte da internet. O ICANN é o organismo que se ocupa dos endereços, “.com”, “.us”, “.fr” etc. Isso não me preocupa tanto, na medida em que esse novo organismo, seja privado ou público, tenha um funcionamento transparente, com encontros regulares, de modo que funcione. Porque se houver algum tipo de blindagem, saberemos imediatamente. É o tipo de coisa que muita gente acompanha de perto ao redor do mundo. A transparência é mais importante do que ser público ou privado.

Qual é o cenário da Inteligência Coletiva hoje nos países desenvolvidos?

Apesar de eu falar francês eu vivo no Canadá há vinte anos e eu viajo muito. A minha impressão, talvez eu me engane, é que a principal diferença não está na região do mundo, entre América do norte, América Latina, Ásia, África, etc. As principais diferenças são internas. Isso significa que você tem micro-culturas ou sub-culturas que tem muita dificuldade em funcionar diferentemente do modo hierárquico e compartimentado. E você tem outras sub culturas onde a informação circula de forma muito mais fluida, mais horizontal. Evidentemente, a Inteligência Coletiva surge mais facilmente quando a informação circula de maneira não compartimentada e mais horizontal.

Como assim?

Eu viajo muito por toda a América Latina. Certa vez, estava na Argentina, onde há um programa de distribuição de computadores em todas as escolas secundárias. O mesmo computador é distribuído para todo mundo, com o mesmo sistema. É o governo que controla tudo e há uma correspondência entre o número de série do computador e o número do seguro social de cada estudante. Veja que no Facebook não tem nada disso. Eles têm, também, uma plataforma fechada para os ensinadores e outra plataforma fechada para os estudantes. É uma abordagem errônea, pelo caráter extremamente centralizador e que, além disso, não estimula uma circulação fluida entre os docentes e estudantes, justamente o que geraria o aprendizado. Por outro lado, você tem pessoas na Argentina que vão utilizar as plataformas abertas como Twitter, Facebook, para interagir com os professores e outros estudantes, e que tem uma lógica mais horizontal e mais próxima da Inteligência Coletiva. Em todos os países, há essa dicotomia entre as abordagens hierarquizadas e horizontais.

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