Ajuda dos EUA na Nigéria é justificativa para a militarização da África

O manto da preocupação humanitária vai dando lugar, abertamente, ao objetivo maior a cargo do Comando Norte-Americano na África (AFRICOM), criado por Bush em 2007

Por O Dia

Pobres meninas nigerianas. Se soubessem o quanto está se fazendo em nome delas... E não necessariamente no bom sentido. Não falo da campanha midiática pela libertação do grupo ou da operação militar em busca do cativeiro onde se encontram. As mais de duzentas jovens sequestradas pelo grupo terrorista Boko Haram, na Nigéria, são a mais recente justificativa do governo norte-americano para a rápida expansão militar na África, um processo que começou no governo George W. Bush mas ganhou velocidade estonteante na administração do Afro-americano Barack Obama. A reportagem de capa do último fim de semana, no site da rede NBC, explica tudo.

A manchete alerta: “Washington preocupada que Boko Haram esteja planejando ataques a interesses dos EUA na África”. Como sempre citando fontes anônimas do governo, a reportagem deixa bem claras as intenções da Casa Branca. Assim, o manto da preocupação humanitária vai dando lugar, abertamente, ao objetivo maior a cargo do Comando Norte-Americano na África (AFRICOM), criado por Bush em 2007 e descrito, na época, como um programa para defender os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos no continente.

No mundo pós-onze de setembro, quando era ainda mais fácil justificar qualquer expansão militar, o governo norte-americano montou uma ofensiva pelo controle da África, território e recursos naturais que disputa, acirradamente, com os chineses. A Nigéria é hoje a maior economia africana, produz 70% do petróleo do continente e os Estados Unidos já compram mais petróleo da África do que do Oriente Médio.

Paul Craig Roberts já foi editor do Wall Street Journal e também subsecretário do tesouro americano. Em 2011, em artigo publicado na internet, já dizia que "Washington briga pela hegemonia mundial sob a capa seletiva da intervenção humanitária e de levar a liberdade e a democracia aos povos oprimidos". Naquela época, o Africom já estava em plena implementação mas enfrentava algumas resistências. Primeiro, nenhum país africano aceitou ser a base do programa, ainda hoje sediado em Stuttgart, na Alemanha. Depois, enquanto 49 países do continente já concordavam em participar do Africom de uma maneira ou de outra, alguns poucos resistiram bravamente: Líbia, Sudão, Eritreia, Zimbábue e Costa do Marfim. Em todos estes países, com exceção do Zimbábue, houve, então, algum tipo de intervenção militar do Ocidente. A mais desastrosa e feroz de todas, sem dúvida, na Líbia, que provocou uma série de problemas. De imediato, a desestabilização seguida de golpe no Mali. E também uma correria pela posse do arsenal de Muammar Kadaffi. Hoje se sabe que boa quantidade das armas que sumiram da Líbia foram parar nas mãos do Boko Haram, justamente o grupo que sequestrou as meninas nigerianas. Paul Craig Roberts dizia, há três anos, que “mais cedo ou mais tarde Washington terá que admitir que esta busca pelo império levou o país à falência”.

Único país do mundo que divide o planeta em comandos militares, os Estados Unidos estão investindo continuamente na militarização do continente africano e as crises justificam a ação. O investimento de dinheiro público é gigantesco que volta para as mãos de empresas norte-americanas contratadas para tocar as obras planejadas no Pentágono. O jornalista Nick Turse, autor do livro “Kill Anything that Moves: The Real American War in Vietnam” (poderia ser traduzido como matar tudo que se move: a verdadeira guerra americana no Vietnã), na lista dos mais vendidos do New York Times, é o maior especialista nos projetos semi-secretos do Africom. Há poucos dias ele conseguiu entrar, como pagante, em um seminário das forças armadas para as grandes empreiteiras que trabalham para exército, marinha e aeronáutica dos Estados Unidos. No seminário, ele ouviu o que não consegue arrancar das autoridades quando se apresenta como jornalista. Enquanto o General David Rodriguez, Comandante do Africom, dizia, em entrevista à imprensa, que os Estados Unidos têm uma presença muito pequena no continente africano, o Capitão Rick Cook, chefe da divisão de engenharia do Africom, pintava um quadro bem distinto para os empresários. Nick Turse reproduziu as palavras do Capitão no site TomDispatch: “Nos 18 meses que já passei aqui, estivemos em guerra o tempo todo. Estamos tentando dar oportunidades ao povo africano para que enfrente os desafios africanos. Agora, infelizmente, operações na Líbia, no Sudão do Sul e no Mali, nos últimos dois anos, provaram que existe sempre algo acontecendo na África”. Ou seja, sempre surgem novas oportunidades de bons negócios, gastos militares, motivos para aumentar a presença bélica no continente. E foi justamente o que Rick Cook ofereceu aos empresários. Acesso aos grandes planos que o país tem para a África.

Oficialmente, os Estados Unidos têm apenas uma base no continente, em Djibuti. Mas Turse descobriu que além da expansão prevista para a próxima década em Djibuti, existem planos de instalação de um quartel general em Níger, uma cadeia de bases para vigilância em todo o norte da África e um outro complexo no Mali. O departamento de engenharia do Africom também contratou a construção de estruturas no Senegal e na Republica dos Camarões e esta financia alguns projetos com verba designada ao combate às drogas e ao terrorismo. Os Estados Unidos já têm acordos com 29 aeroportos internacionais na África para servirem de centro de reabastecimento. O modelo que está sendo adotado é o do Iêmen. Drones para vigilância e ataques aéreos vão aos poucos ganhando os céus do continente.

O Africom, filhote de Bush e Donald Rumsfeld, impulsionado no governo Obama, nada mais é do que a continuação, na prática, da Doutrina Carter. Em 1980, o democrata da Georgia determinou que o petróleo do Oriente Médio era um interesse vital dos Estados Unidos e o acesso a ele seria garantido, custasse o que custasse. Agora, é a vez da África.

A imagem da primeira dama Michelle Obama, com um cartaz pedindo a libertação das meninas da Nigéria correu o mundo. Não poderia haver simbolismo mais adequado do que usar a primeira inquilina Afro-americana da Casa Branca para reforçar, no imaginário coletivo da nação, a necessidade de manter as tropas à mão na África porque nunca se sabe do que serão capazes aqueles bárbaros!

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