Guerra de informações após a derrubada do avião na Ucrânia

A mídia, desesperada por audiência e cada dia menos crítica, se alimenta dos interesses do governo e reforça o discurso oficial dos Estados Unidos

Por O Dia

Com velocidade estonteante, as conclusões saltaram diante de leitores e telespectadores norte-americanos. Junto às imagens da fumaça e da chuva de destroços sobre casas e plantações da região da Ucrânia próxima à Rússia, os consumidores de notícias do país receberam logo uma boa dose de interpretações que vincularam de imediato a tragédia ao gênio do mal: Vladimir Putin.

A rede de TV a cabo CNN, que ganhou um bocado de audiência com a queda do outro avião da companhia aérea da Malásia, foi a primeira a se apressar em apontar o provável culpado. Mas a FOX, porta-voz dos ultra conservadores, não ficou atrás. Em coro, a imprensa norte-americana concluiu que estava-se diante de um ato de terrorismo cometido, muito provavelmente, pelos rebeldes separatistas pró-Moscou. Que dúvida!

Nas primeiras horas pós desastre, sem uma gota de informação do local, já se sabia ao certo quem eram os culpados. Quem poderia fornecer detalhes e dados tão definitivos assim aos jornalistas? Com certeza, os próprios separatistas se decidissem fazer um mea culpa, mas não fizeram e continuam negando autoria pelo desastre. Ou o governo da Ucrânia, que diz ter fotos, dados e informações secretas que levam a essa conclusão. Vitaly Nayda, chefe do departamento de contra espionagem do serviço de segurança da Ucrânia garantiu, no sábado, não só que o avião foi derrubado pelos rebeldes separatistas como também que o lançador de mísseis foi operado por três cidadãos russos. E a gente fica se perguntando: como ele conseguiu essa informação tão precisa e valiosa?

Nessas horas, não tem jeito. A história recente pesa e a gente se lembra dos “informantes” que Washington usou para “confirmar” que Saddam Hussein estava mesmo fabricando armas de destruição em massa no Iraque e, por isso, a invasão do país se justificaria. Hoje em dia, quando se fala em provas, já fico de orelha em pé. Mas a conclusão da imprensa, nas primeiras 24 horas pós-tragédia, foi reforçada pelos discursos oficiais da administração Barack Obama.

Na ONU, onde trabalha talvez a mais belicista das assessoras do presidente, o ataque foi direto. A embaixadora Samantha Power apresentou a argumentação “irrefutável” no dia seguinte ao desastre. Garantiu que o equipamento usado para abater o avião é muito sofisticado, somente treinados pelos russos os rebeldes poderiam operá-lo e o míssil partiu da área controlada pelos rebeldes. Portanto, caso encerrado. Os culpados já foram identificados. O presidente Barack Obama seguiu a mesma linha de raciocínio e pediu aos europeus mais pressão sobre Putin.

Mas a chanceler Angela Merkel não está interessada neste confronto e pediu calma. Com um pingo de sensatez, disse que era um pouco cedo para tirar conclusões já que o acidente tinha apenas 24 horas. Acontece que a mídia, desesperada por audiência e cada dia menos crítica, se alimenta dos interesses do governo e reforça o discurso oficial. Nessa simbiose eles vão adiante com aquela eterna empáfia norte-americana de quem sempre tem razão. Porém, as perguntas ficam no ar.

Como a Casa Branca descobriu que tipo de míssil foi usado contra o avião? Pela cor da fumaça? Pela trajetória percorrida pelos objetos espalhados sobre casas e plantações da área do desastre? A mesma imprensa destaca que a área é controlada por rebeldes separatistas. Que jornalistas, monitores e equipes de resgate não tinham acesso a ela no primeiro dia. Sem chegar lá perto, sem vasculhar os escombros, como foi possível determinar a origem da fabricação do míssil?

Na internet, as teorias conspiratórias se multiplicam. Mas as boas perguntas também. O site Zero Hedge recorreu ao serviço de informações sobre o tráfego aéreo chamado Flightware para levantar a rota dos últimos dez voos MH-17 e mostra que todos eles passaram bem ao sul da região de Donetsk, cruzando o Mar de Azov. O único que não percorreu o mesmo trajeto foi o da última quinta-feira, que desviou bastante da rota em direção ao norte. Um desvio que não estava previsto, o que antecedeu, também, com o voo 370 da Malaysian Airlines, que desapareceu no dia 8 de março.

Desesperado por respostas depois de uma segunda tragédia aérea, o governo da Malásia se recusa a apontar culpados. Quer conclusões baseadas em investigações aprofundadas. E enviou 131 agentes à Ucrânia. Em um rasgo de sanidade, Ivan Watson, correspondente internacional da CNN, deixou escapar: o que está se vendo é uma guerra de informação. E aqui vale perguntar a quem interessa essa tragédia? Aos rebeldes? Provavelmente não. Eles sabem que o governo da Ucrânia precisava apenas de um bom motivo para convencer os Estados Unidos a fornecerem equipamentos bélicos mais modernos e pesados para Kiev combater os que não se conformam com a adesão ao bloco econômico europeu e ao golpe que afastou o ex-presidente da Ucrânia do cargo poucos meses antes do fim do mandato.

A Casa Branca vem adotando sanções contra a Rússia unilateralmente. Os europeus resistem. Com uma história marcada por grandes conflitos, com uma interdependência econômica profunda, a Alemanha não comunga das conclusões imediatas. Coube ao britânico David Cameron o papel, recentemente tradicional para um primeiro ministro britânico, de cão de guarda dos objetivos de Washington. Ele publicou, ontem, um artigo no jornal Sunday Times conclamando os colegas europeus a partir para o confronto com a Rússia. “É hora de fazer com que nosso poder, nossa influência e recursos contem. Nossas economias são fortes e estão ganhando mais força. Mas ainda assim nos comportamos como se precisássemos mais da Rússia do que a Rússia de nós”. E concluiu que se os rebeldes foram os autores do disparo do míssil, então a Rússia terá que assumir responsabilidade pela tragédia pois desestabilizou a Ucrânia. Interpretação histórica duvidosa. O avanço da OTAN sobre as ex-repúblicas soviéticas e a sede norte-americana de ampliar sua área de influência política e econômica para todos os cantos do planeta podem também ser vistas como fator decisivo para a atual crise da Ucrânia. Mas nada disso se discute na imprensa por aqui. Obviamente.

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