Por douglas.nunes

É mesmo impressionante a eficiência da máquina que difunde o discurso oficial. Para todos os efeitos, os Estados Unidos não declaram guerra mais uma vez essa semana. Estão apenas montando uma operação antiterrorista para livrar o mundo dos perigos impostos pelos bárbaros militantes do grupo Estado Islâmico. E na hora do café da manhã de sábado, a mesa posta, o filho de 13 anos justifica: “mas os Estados Unidos têm que fazer alguma coisa senão eles vão pensar que somos fracos”. O mais velho, de 15, retruca: “mas os Estados Unidos fizeram com o ISIS a mesma coisa que fizeram com a Alcáida. Armaram eles! ”. Nem tudo está perdido...

Meu filho talvez não saiba o quanto acertou apesar de não conhecer os detalhes perversos desse jogo bélico que o escritor e jornalista Nafeez Ahmed destrinchou, na última sexta-feira, em um longo artigo cujo título já diz tudo: “Como o Ocidente criou o Estado Islâmico”. Nafeez Ahmed é especialista internacional em segurança e colaborou com duas grandes investigações: a do 11 de setembro, nos Estados Unidos, e o atentado de julho de 2005, em Londres, que matou 52 pessoas com a explosão de quatro bombas.

“Desde 2003”, escreveu Ahmed, “o poder anglo-americano coordena, secreta e abertamente, o apoio a grupos terroristas islâmicos ligados a Alcáida em todo o Oriente Médio e no Norte da África. Esse arremedo de geoestratégia mal concebida é um legado da persistente influência da ideologia neoconservadora, motivada por ambições contraditórias mas de longa data de dominar recursos petrolíferos regionais, defender o estado de Israel em seu expansionismo e tentar redesenhar o mapa do Oriente Médio”.

O presidente Barack Obama insistiu que não enviará tropas para enfrentar os militantes do Estado Islâmico. Vai “apenas” recorrer aos ataques aéreos. O que vem fazendo desde que assumiu o poder. Tem sido assim não apenas no Afeganistão mas também na Somália, no Iêmen, e por aí vai. Por aqui, ninguém está contando quantos mortos essas guerras distantes, travadas a partir do céu, já deixaram para trás. Mas essa carga negativa planta um futuro cada vez mais sombrio.

Nafeez Ahmed desencavou a receita da maquiavélica porém pouco sofisticada estratégia empregada em conjunto pelos impérios do passado e do presente, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Um relatório apresentado à Universidade de Operações Especiais Conjuntas (centro instalado na base aérea de MacDill, na Flórida, encarregado de preparar os líderes das operações especiais que reúnem oficiais de elite do Exército, da Marinha e da Aeronáutica) ensina a regra básica do dividir para governar. Mas com requinte... O Iraque, pós-invasão americana, segundo o relatório, “oferece um estudo de caso interessante sobre como espalhar o descontentamento entre inimigos leva a um tiroteio ‘vermelho contra vermelho’ (inimigo contra inimigo) ”.

E foi assim, jogando uns grupos contra os outros, que os Estados Unidos armaram os bárbaros que decapitaram dois jornalistas norte-americanos. A operação pode ser resumida da seguinte maneira: Arábia Saudita, Qatar, Kuait, Emirados Árabes, Jordânia e Turquia financiaram os membros mais radicais entre os rebeldes da Síria, com orientação aberta do serviço de inteligência do exército norte-americano. Equipamentos militares da Arábia Saudita e do Qatar foram transportados pelo serviço de espionagem da Turquia até a fronteira com a Síria, onde foram vendidos. Enquanto isso, agentes da CIA, aliados a israelenses e jordanianos, ensinavam rebeldes do Exército de Libertação da Síria a usar armas antitanque e artilharia antiaérea. Aparentemente, britânicos e franceses também participaram dos treinamentos. No mês passado, Abu Yusaf, um dos comandantes do grupo Estado Islâmico, declarou: “muitos dos combatentes do Exército de Libertação da Síria que o Ocidente treinou estão se juntando a nós”. Dizer o que mais?

O discurso do presidente Obama, uma declaração de guerra disfarçada de combate ao terrorismo,chamou o Estado Islâmico de câncer. Uma boa analogia para os casos da doença em que o próprio paciente ajuda a deflagrar o processo. Por exemplo, o fumante que tem câncer no pulmão. Se foi nesse sentido que Obama escolheu o termo, é preciso concordar. Como tantos outros tumores, o Estado Islâmico cresceu e se expandiu com a ajuda sempre disponível de Washington.

Os pais do jornalista Steven Sotloff, um dos dois decapitados pelos extremistas, não se conformam com a decisão do governo Obama de intensificar a guerra contra o Estado Islâmico. O projeto da Casa Branca prevê um investimento de US$ 500 milhões para armar e treinar grupos rebeldes da Síria. O pai de Steven disse à rede CNN que o filho foi vendido aos militantes do Estado Islâmico por um outro grupo rebelde que atua na Síria. “Nós acreditamos que um dos chamados grupos rebeldes moderados que nosso governo quer apoiar, vendeu Steven ao Estado Islâmico por algo entre US$ 25 mil e US$ 50 mil”. E é em nome dele, e de James Foley que Obama está dando o pontapé inicial em mais uma guerra sem fim. Irônico, se não fosse trágico.

Para completar a farsa, a imprensa ocidental noticiou, com destaque, a eficiência do Estado Islâmicopara roubar bancos no Iraque e montar um caixa calculado em um bilhão e meio de dólares, o que faria da organização o grupo terrorista mais rico do planeta. Mas o governo do Iraque e os principais banqueiros do país garantiram que os bancos não foram assaltados. Continuam funcionando normalmente e são protegidos por empresas particulares de segurança.

Então, de onde veio o boato divulgado como verdade factual? Dessa vez, seria cômico se não fosse trágico. A fonte da informação foi o parlamentar iraquiano Ahmed Chalabi. O nome é conhecido. Chalabi era um dos três executivos do chamado Congresso Nacional Iraquiano, organização criada em 1992 para fomentar a revolta contra o governo de Saddam Hussein. Chalabi foi o principal arauto do perigo iraquiano: as tão faladas, e nunca vistas, armas de destruição em massa de Saddam. É com essa fonte fidedigna de boas informações que o embaixador norte-americano no Iraque, Robert Beecroft, vem se encontrando, com frequência, em Bagdá. O encontro entre Chalabi e representantes do governo norte-americano nunca deu em boa coisa. Não existe motivo algum para se imaginar que agora seria diferente.

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